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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Benjamin Button.

Estava a ver este video e a pensar na maneira como as pessoas opinam sobre o novo filme de David Fincher, sobretudo depois das nomeações para os óscares. Eu acho que o problema é não haver um óscar para a ternura, outro para a melancolia.

Posso concordar que não é o filme do ano, porque os filmes definem-se e discutem-se em categorias organizadas, o argumento, as personagens, os actores que as interpretam, a realização, os efeitos especiais, a banda sonora. Mesmo que queiramos escapar aos limites dos prémios, é assim que acabamos a discuti-los a maior parte das vezes.

Contudo, em todos os momentos deste longo filme, perpassa como um plano sequência, essa melancolia do tempo e dos seus desencontros, da velhice e da infância e desse tempo que pretendemos um planalto a que se chama idade adulta. "Pretendemos" é o termo chave aí.

Que momento é o momento certo para conhecer outra pessoa? Em que ponto do caminho? O que é ser novo ou ser velho? Uma sociedade que se "adolescentiza" a grande velocidade, por força do impulso da permanente insatisfação consumista, não pode ter respostas fáceis para estas perguntas. Parecemos todos, a certa altura, ter dezasseis anos e à espera que nos "vendam" uma identidade.

Quando Benjamin e Daisy finalmente caem nos braços um do outro, o filme ganha um tom quase kitsch, de um kitsch americano que me lembra a pintura de Edward Hopper. Mas eu fui daqueles que nunca achou o Edward Hopper um verdadeiro realista. Em que mundo existem verdadeiramente aquelas figuras solitárias entre luz, sombra e cores?

Incomoda-me um pouco, ter de discutir este filme como cinema, embora seja inevitável. Preferia discuti-lo como um poema da Sharon Olds ou da da Mary Howe. Ou mesmo um dos tais quadros do Hopper, um bailado da Pina Bausch.

Este filme de mitos e tempos e viagens, talvez não seja o filme do ano, mas não é definitivamente uma experiência que se deva perder.

O Nome da Cidade.

O título deste post é referência a uma música de Adriana Calcanhotto, onde ela canta "o Redentor, que horror, que lindo", o que me lembra logo o Corcovado do Tom Jobim, mas mais que isso, me pôs a pensar sobre as cidades e o que são.

Se alguma coisa já foi repetida em comentário aos meus livros, é que são urbanos. Pelo menos passam-se em cidades. Se isso transparece na própria escrita e faz dos livros urbanos, é outra questão. Seja como for, "Em Silêncio, Amor" é o primeiro que se passa numa cidade sem nome. "Aquariofilia" e "Os Adultos" tinham os pés bem assentes em Lisboa e arredores.

Se num primeiríssimo momento, esta ausência de nome para a cidade que serve de cenário à narrativa veio de uma certa ignorância sobre Nova Iorque (a cidade "onde" me apetecia escrever), em breve ganhou outra dimensão, por dois caminhos distintos.

O primeiro, como já referi algures neste blog, passa pela pintura de Edward Hopper e o tanto que ele pintou essa cidade, as suas solidões e actores, encenando-os em luz e escuridão, cores e silêncios.

O segundo levou-me a pensar o que teriam todas as cidades em comum, o que poderia eu escrever sobre uma cidade sem nome que fosse várias cidades. Aí os resultados foram mistos e acho que no fim, como alguém me disse, saiu uma Nova Iorque com traços mediterrânicos. Como em quase todas as cidades ocidentais, aqui há parques, avenidas, ruas, escolas, lojas, metro, livrarias, trânsito mal educado, árvores de que nos esforçamos para descobrir o nome.

Sobrevoei algumas dessas cidades no Google Earth e fiz esta imagem. Da esquerda para a direita: Barcelona, Londres, Nova Iorque, Lisboa e Budapeste. Já as visitei todas e de diferentes que são, todas são cidades em sentido próprio.

Cidades

As Três Bruxas de Truro


Jonas sempre vivera na casa conhecida como “O Amanhecer do Vale”. E sempre fora infeliz, nela. Mas nos verões, junto ao mar, era feliz.


As três bruxas de Truro moravam numa casa grande e velha junto à linha de comboio. Todos os verões, Jonas sentia um arrepio quando passava pela mansão victoriana, a caminho da praia, sentado balançando na ponta do lugar, com os seus pais, à espera de ver o mar.

A casa tinha três andares, um para cada uma das bruxas e um torreão, que permanecia noite e dia sem luz. A porta ficava igualmente na sombra, escondida por um alpendre rodeado de colunas duplas. As paredes eram brancas, mas o telhado era escuro como o chocolate mais negro, as três chaminés, vermelhas.

A bruxa mais velha, Urd, vivia no rés-do-chão, pois tinha já alguma dificuldade em subir escadas e não era nada prático, subir e descer de vassoura. No andar do meio, morava a sua irmã, Verdandi, sempre atarefada com a lida diária, e a sobrinha de ambas, Skuld, rechonchuda, mimada e gulosa, ocupava o andar de cima.

A bruxinha Skuld era um problema para a casa, passava os seus tempos livres (que não eram poucos) a dar dentadinhas nas paredes, feitas de biscoito de gengibre, recobertas no exterior por longas tábuas de deliciosa marzipan que rebrilhava fulgente ao sol da tarde. No telhado reinava o chocolate e as chaminés eram recobertas de abóbora cristalizada e doce de framboesa.

Verdandi não tinha tempo para guloseimas. Noite e dia limpava chão e móveis, lavava roupa, espancando-a com violência num velho tanque junto à porta da cozinha. Quando não estava a limpar ou a lavar, cozinhava complexos pratos que lhe ocupavam horas, sempre resmungando. E depois havia a louça, panelas e caldeirões, pratos e facas, garfos afiados e colheres de pau do tamanho de um braço, tudo sujo depois de cada refeição.

Jonas não percebia para quê limpar uma casa de gengibre, cozinhar banquetes (por motivos evidentes, bastavam as tais dentadinhas de vez em quando), muito menos que tanta roupa havia para lavar, se as três vestiam sempre as mesmas tristes farpelas. Para já não falar na louça, a tarefa mais desagradável jamais inventada na história da humanidade, na sua opinião de menino. E a magia, não podia Verdandi usar magia?

Urd era a mais sossegada. Passava horas sentada numa cadeira de baloiço no alpendre, contemplando a paisagem em silêncio. Quem a visse ao longe, podia pensar tratar-se de uma inofensiva velhota aproveitando o sol benevolente daquelas paragens. Não fosse o suave impulso que dava à cadeira e que a embalava durante horas, poderia mesmo passar por embalsamada.

Jonas não deixava de a achar tão mal educada como as outras: nunca cumprimentava quem passava, nem respondia aos acenos simpáticos dos passageiros do comboio.

Na aldeia de Truro, alguns iludidos comentavam que as duas mais novas maltratavam a pobre senhora idosa, que apenas por medo não se atrevia a relatar os abusos que sofria. Outros diziam que Verdandi era apenas uma viúva afogando as mágoas em trabalho, vivendo com a sua mãe e a sua filha. Alguns acrescentavam que a filha era uma gulosa mimada e Urd preguiçosa e aluada, mas Jonas era esperto e não se deixava enganar. Desde que a sua família passava o verão em Truro, tinha percebido a maldade que habitava o coração das três, mesmo quando, antes da noite chegar, pareciam apenas três gerações de mulheres tranquilas contemplando o pôr-do-sol sobre o mar ao longe.

 

O mar de Truro era o mais bonito do mundo! Ou assim pensava Jonas, que nunca vira outro. Mas era mesmo verdade, mesmo para quem já vira mais que o pequeno. Os seus pais concordavam. “Este é o melhor mar do mundo”, dizia o pai, alto e pomposo, quando chegavam à praia pela primeira vez, em cada ano.

Era um mar imenso, de um verde brilhante junto à areia, de um azul solene lá longe, onde se transformava em largo oceano, sempre percorrido por rebanhos de carneirinhos de espuma, que o vento norte fazia nascer, tosquiava e afogava, conforme o seu humor do momento.

Mal saía a correr da estação de comboio arrastando os pais e dava de caras com aquele mar de ondas e azul, Jonas esquecia as bruxas. Durante todas as férias, raramente lhe ocorria a sua existência. E no fim do mês, todos os anos, ele era dos passageiros simpáticos que acenavam à velha Urd, contente de a ver uma vez mais pelas costas, triste de, com ela, ficar igualmente o mar.

Houve um ano em que Jonas não voltou ao “Amanhecer do Vale”.

Desapareceu, pura e simplesmente, quando apanhava conchas junto à Enseada do Falcão Nocturno. O Falcão Nocturno fora um pirata célebre para aqueles lados, em séculos volvidos, – havia na biblioteca de Truro um grande quadro representando-o de bota pousada numa arca do tesouro – e alguns velhos pescadores insistiram durante anos que o fantasma do bandido levara o pobre Jonas.

A polícia, contudo, junto com os bombeiros e a guarda costeira, convenceu os seus pais de que fora alguma onda mais repentina a responsável, mesmo não tendo dado nenhum corpo à costa. A ninguém passou pela cabeça que pudesse ter sido acto das três mulheres que viviam na casa junto à linha de comboio.

O tempo passou.

Três meses depois, já ninguém procurava o menino desaparecido.

O tempo passou ainda mais.

Jonas tornou-se lenda e esquecimento, mas até voltar, cem anos mais tarde, ninguém desconfiou nunca das bruxas. Na verdade, quando um rapaz jovem dos seus quinze anos surgiu um dia no café da aldeia, insistindo que era Jonas, os poucos que recordavam ainda a história, tomaram-no por louco. Quando falou da casa de gengibre, marzipan e chocolate junto à linha-férrea, ninguém parecia lembrar-se da sua existência. E quando, a muito custo, arrastou um grupo de curiosos e indigentes até ao local onde deveria estar o lar das bruxas, nada existia, de facto ali.

Jonas sentou-se num carril a chorar, enquanto as pessoas da aldeia se afastavam embaraçadas.

Apenas uma rapariguinha ficou junto a si, fazendo festinhas no cabelo pontuado de branco pelo desgosto, como os carneirinhos do mar, do mesmo modo despenteado pelo vento. O seu dedo fino de menina tocou numa migalha presa num caracol, junto à orelha e, sem pensar, levou-a à boca. Sabia a gengibre!

- Eu acredito em ti! – Disse, com o seu melhor sorriso.

Jonas sorriu também, por entre as lágrimas.

- És muito simpática. Como te chamas?

- Alice.

- Obrigado, Alice. És muito simpática por acreditares, mas ninguém vai juntar-se a ti. É apenas a palavra de um rapaz perdido e de uma menina de… que idade tens?

- Nove anos.

- Muito bem. Mas ninguém vai acreditar em nós.

- O avô Branquinho ajuda-nos.

- Quem?

- O Avô Branquinho! Ele sabe tudo. De certeza que sabe das bruxas.

E Alice, com as suas botas de camurça e longas meias cor-de-rosa, com os seus caracóis ruivos e sardas que o sol avivava, puxou Jonas pela manga até ele a seguir, trôpego, ao longo da linha do comboio.

- Vem, vem. É já ali, a casa dele.

O Avô Branquinho não morava numa casa qualquer. Morava no grande farol de Truro, uma torre alta, da cor do nome do seu único habitante. Alice adorava a majestade solitária do edifício e falava desse lugar como se fosse mágico e único. Essa paixão contagiou imediatamente Jonas.

O Avô Branquinho, contudo, não partilhava a arrogância poética do velho farol e era, na verdade, um senhor de sorriso afável e careca luzidia, um pouco curvado pelos anos, sempre pronto a ajudar o próximo e com a memória cheia de contos e lendas.

Se alguém sabia das bruxas, era ele de certeza.

 

- Não pode ser. – Repetia incrédulo o Avô Branquinho. – Tu não podes ser o menino Jonas, aquele que desapareceu na Enseada do Falcão Nocturno, há cem anos.

- Cem anos? – Perguntou Jonas, inocente, olhos esbugalhados ainda para as intermináveis estantes pesadas de livros que os rodeavam por todos os lados.

Alice olhou para ele. Percebia cada vez menos. Aquele rapazinho tinha mais de cem anos, pelas contas do Avô Branquinho. Inclinava-se a concordar com o velho faroleiro, não podia ser! E no entanto, os seus olhos azuis não falavam mentira.

Sentaram-se os três ao mesmo tempo: Alice, no tapete junto à lareira, o Avô Branquinho na sua poltrona favorita, grande e fofa, Jonas, subitamente vergado por um cansaço centenário, num banquinho perto de uma parede de enciclopédias. Um calendário pendurado por cima da lareira marcava a data: 4 de Setembro.

- Faz hoje exactamente cem anos que desapareceste – Começou o Avô Branquinho, olhando o calendário. – Cem anos exactamente, trinta e seis mil quinhentos e vinte cinco dias.

Jonas franziu a testa, refazendo as contas mentalmente. De onde viriam aqueles vinte cinco dias? Alice deu a resposta.

- Num século há vinte cinco anos bissextos!

Jonas sorriu.

- Pois claro! Esqueci-me disso. Acho que passei tempo de mais sem fazer contas. – E piscou o olho à miudinha ruiva que acreditava nele.

- Já acabou a matemática? – Perguntou o Avô Branquinho, um pouco impaciente.

Jonas corou, envergonhado. Podia ter estado sob o encantamento das bruxas de Truro durante cem anos, mas ainda conseguia perceber quando estava a ser mal educado.

- Desculpe.

O Avô Branquinho ignorou-o e continuou.

- Mas afinal que te aconteceu? – Perguntou o Avô, espantado. Franziu o sobrolho, de dúvida e acrescentou. – Partindo do princípio que és mesmo Jonas, o filho do Burly Cobb, que desapareceu naquela enseada há cem anos.

- Sim, sou eu.

Jonas encheu o peito de ar, como se quisesse contar o que lhe tinha acontecido de um fôlego só, mas esvaziou-o antes de começar a sua história.

- Lembro-me de estar a apanhar conchas para a minha colecção, na praia. Era o princípio da tarde. Os meus pais tinham ficado a lavar a louça do almoço e a minha mãe deixara-me descer por entre as dunas até à Enseada do Falcão Nocturno, não mais que cem passos a direito da porta de casa. Por vezes brincava ali aos piratas, sozinho, saltava de um lado para o outro com alguma cana que a maré trazia, imaginando-me em duelos intermináveis.

Alice soltou uma gargalhada, imaginando a cena. Jonas ignorou-a.

- Mas naquele dia não. Apetecia-me apenas apanhar conchas. Já tinha uma meia dúzia nos bolsos, quando ouvi, vinda de entre duas rochas mais adiante, a mais bela música do mundo. Era uma música como eu nunca tinha ouvido, uma canção de embalar que em vez de nos adormecer, nos fazia acordar, ondular como o oceano, sem parar. Devia ter percebido logo que só uma sereia ou uma bruxa poderiam produzir aquele som, mas a curiosidade levou a melhor.

Aproximei-me agachado entre as poças de água da maré vazia, como o Pirata faria, para que os soldados de Sua Majestade não o descobrissem. Foi então que vi uma menina no meio das rochas, procurando conchas deixadas na areia pelo recuo do mar. Tal como eu.

Parou de cantar e falou-me sem levantar o olhar do chão.

- Também procuras conchas? – Disse ela.

Saltei de trás da minha rocha orgulhoso e mostrei nas palmas das mãos abertas as conchas que recolhera já nesse dia. Ela observou-as com cuidado e os olhos fixaram-se em particular numa delas. Era um pouco mais pequena que as outras, mas perfeita, não ainda demasiado polida pelo mar, com um leque de estrias bem marcado que brilhavam com a sugestão das cores do arco-íris, mesmo sem estar molhadas.

Estendeu a mão para a agarrar, mas voltei a guardá-la no bolso. Era a minha concha mais bonita e por muito bem que ela cantasse, não merecia aquela jóia. Esse bom senso tive, mas talvez por achar que tinha sido mal-educado naquele gesto, aceitei sem reflectir o convite para lanchar. E ainda hoje não sei por que encantamento me deixei levar até ao quarto do torreão da casa das bruxas.

Jonas parou um instante de falar. Os seus olhos brilhavam como se a recordação dos anos de cativeiro lhe trouxessem lágrimas.

- A menina das conchas era na verdade a velha Urd, que por artes de feitiço se tornara bela e jovem, aparência inofensiva e voz doce. As suas irmãs tinham colaborado e escondido a casa, usando bruxaria. Assim encantado, entrei, pensando que estava noutro sítio. E dessa forma me prenderam. Cinco longos anos me deixaram preso naquela sala. O torreão sempre fora o que mais me despertara curiosidade naquela casa e eis-me seu prisioneiro. Muitas vezes, passando de comboio, me interrogara o que haveria por trás daquelas janelas sempre escuras. Hoje sinto pena profunda de o ter descoberto. O seu interior era a coisa simultaneamente mais maravilhosa e terrível que jamais vira. Se pudesse…

- Conta! Diz como era! – Interrompeu agitada, Alice, ela própria uma menina muito curiosa. Jonas olhou para ela, sorriu triste e respondeu.

- Uma biblioteca mágica. Livros a toda a volta. E se eu tirava um para ler, logo outro surgia no seu lugar. Todos contavam a história de meninos como eu, encantados e prisioneiros das três terríveis irmãs. Tinham idades diversas, tantos nomes como há no mundo, vinham de todos os sítios, mas todos acabavam da mesma maneira, transformados em livros. Depois de ler uma meia dúzia, percebi que era esse o meu destino, tornar-me numa história como aquelas. Logo na primeira noite, enquanto dormia no chão, consegui ouvir em sonhos os murmúrios daqueles antigos prisioneiros, confirmando o meu destino.

As três iam deixar-me morrer à fome, mas seria uma morte especial: a minha pele ficaria cada vez mais branca, nela surgiriam letras como tatuagens; passada uma semana deixaria de me conseguir mexer; passado um mês, seria também eu um livro. Nem sei como consegui fugir.

 

- A concha que tu tinhas no bolso… Essa concha, essa concha…

Alice e Jonas ouviam, fascinados. O Avô Branquinho mostrava uma súbita e incontrolável agitação. Parecia, ele sim, uma criança pequena.

- …Ainda a tens?

- Sim. – Respondeu Jonas a medo, sentindo-a no bolso das calças.

- Meu Deus, rapaz! Tens de te livrar dela! Senão as bruxas descobrem-te, prendem-te de novo.

Havia real medo nas palavras do velhote e Jonas saltou para trás e caiu no chão assustado, como se as bruxas fossem aparecer a qualquer momento.

- Essa é uma concha mágica, o seu portador estará sempre sob o poder delas. – Depois como se falasse só para si próprio. – Deviam estar aborrecidas, por isso te deixaram fugir. É uma espécie de jogo. É como se estivessem a jogar à apanhada…

Alice olhava de um para o outro embasbacada e algumas lágrimas de desespero pareciam querer assomar aos olhos de Jonas.

- Mas como é que passaram tantos anos cá fora e o Jonas continua assim, jovem? – Interrompeu Alice, a quem aquela conversa não estava a agradar nada. Os dois olharam para ela como se tivesse falado uma língua estrangeira.

- Nada temas, rapaz! – Berrou o Avô Branquinho, subitamente transmutado em herói. – Eu sei como derrotá-las. Lembras-te onde encontraste a concha?

- Sim, acho que sim… – Respondeu Jonas a medo.

- É isso, é isso… Agora há-de estar de baixo de água, mas é isso. – Passeava nervoso de um lado para o outro enquanto falava. Estacou de repente e olhou Jonas nos olhos. – Preciso de saber… preciso de saber se ainda tens a concha contigo.

Jonas levou a mão ao bolso e dele tirou, na palma da mão, a mais perfeita concha que Alice alguma vez vira. Os olhos do Avô Branquinho abriram-se ainda mais, com um brilho que Jonas julgou já ter visto antes, mas o velhote, em vez de tentar agarrar o preciso tesouro, levantou os olhos para ele e disse:

- Só temos de voltar a pôr a concha no sítio! E serás livre. Não há tempo a perder.

O Avô Branquinho agarrou um impermeável e abriu a porta da rua. Alice, excitada pela perspectiva da aventura, levantou-se para o seguir. Apenas Jonas ficou sentado ainda.

- Avô… – Disse finalmente a medo.

- Diz, rapaz.

- E os meus pais?

- Os teus pais nunca mais voltaram a Truro. Desde que te foste… nunca mais os vi. – Fez uma pausa e depois abanou a cabeça com tristeza. – Mas passaram cem anos… Desculpa mas não devem já estar vivos.

 

Jonas interrogou-se como seria possível devolver a concha ao seu lugar, se recordaria com tal precisão de onde a tirara. Tudo aquilo parecia inacreditável, mas estava feliz por não estar já fechado no tenebroso torreão das bruxas. Prometera a si próprio que nunca mais comeria um biscoito de gengibre e só imaginar o sabor a marzipan enjoava-o.

Jonas, Alice e o Avô Branquinho caminhavam com cuidado sobre a terra queimada, por entre os destroços das máquinas, por vezes amontoados em pilhas mais altas do que casas. Farrapos de nuvens rasantes envolviam o farol e a falésia, apressados como restos de fumo de um grande incêndio que tivesse acontecido junto ao mar.

Chegaram os três a uma curva do caminho que finalmente Jonas reconheceu: era a última curva antes da praia. Olhou por cima do ombro direito, esperando ver a silhueta da casa onde tinha sido tão feliz em férias com os pais, alta, de madeira, com um alpendre virado para o mar onde a mãe se sentava, de chapéu largo, de onde o pai corria até mergulhar e nadar para longe, passando por ele sem reparar, entretido na areia, nas rochas. Mas a paisagem tinha mudado e onde antes havia uma casa de férias, não restavam mais que montes de entulho. Ao longe via-se ainda o farol.

Pararam à beira da água, muito acima do que ele se lembrava. O Avô Branquinho preparava-se para falar, quando, das profundezas do oceano, inesperadas, com sombras enormes como aves de rapina, cavalgando as suas vassouras, as três bruxas de Truro se ergueram para os enfrentar.

O Avô Branquinho, vendo as bruxas, logo lhes virou as costas, encobrindo os olhos de Jonas e Alice com o seu corpo, protegendo-os do olhar fulminante das três. Falou quase num sussurro, mas ouviram-no claramente.

- Ouçam, meninos, vão ter de ser vocês a enfrentá-las, eu… eu já não tenho forças.

Jonas e Alice entreolharam-se. Não lhes parecia que houvesse no corpo do Avô Branquinho o mínimo sinal de fragilidade, antes uma vitalidade dura de lutador, mas logo assentiram com a cabeça. Estavam preparados.

- Jonas, vais ter de mergulhar. O mundo mudou muito nestes cem anos. O lugar da concha fica agora no fundo do mar, vais ter de suster a respiração, mas eu indico-te exactamente onde a deves colocar. Alice, as bruxas vão tentar encantar-nos, com os olhos e com a boca, vão cantar para que as sigamos, para que façamos o que elas querem. Tu vais ter de as distrair, enquanto Jonas recoloca a concha no lugar. Sentes-te preparada?

De novo, Alice confirmou que sim, com um gesto rápido.

- Tens de lhes contar uma história, mas não podes parar de falar. Enquanto estiveres a falar, não cantam, ficarão atentas à espera do desfecho. Só há um problema… Tem de ser uma história original, que nunca tenham ouvido. Se as aborreceres, logo ficaremos encantados, Jonas não terá a mínima hipótese. Achas que consegues?

 

Urd guinchou uma vez mais, voando em espiral em torno do avô Branquinho (ou o que fora o avô Branquinho), procurando uma brecha por onde pudesse lançar um dos seus raios fulminantes. A pele dele, contudo, estava já integralmente transformada em pedra.

Do seu escasso metro e setenta, crescera para vinte, imponente. Os braços, encostados ao tronco, tinham-se colado e o mesmo acontecera às pernas, todo agora um cilindro de pedra branca, majestoso, erguendo-se na paisagem. Os olhos, a princípio muito brilhantes e fixos, tinham crescido, crescido para além do razoável e do fundo das órbitas tinha nascido a mais intensa das luzes, um feixe que cegaria quem o olhasse de frente.

O avô Branquinho estava transformado num farol, alto e fiável como só os faróis sabem ser, mas a luz que emitia não girava para avisar os navios dos perigos daquelas costas. Um feixe nítido, brilhante e recto, saía do seu cimo, directo ao fundo do mar, atravessando as ondas irrequietas, as águas transparentes, até um recanto meio escondido entre duas rochas.

Jonas tinha despido a maior parte da sua roupa e já mergulhado. Seguia a luz com todas as suas forças mas não sabia bem como ia conseguir suster a respiração até ao fundo. Alice, contudo, permanecia transida e calada, entre o medo das bruxas, que volteavam agressivas no ar, o fascínio pela coragem de Jonas, que se lançara à água sem hesitar, e a incredulidade, vendo o avô Branquinho assim, tornado farol. Deu um salto quando ouviu a voz, profunda e imensa, como uma sirene de nevoeiro.

- Alice! Conta-lhes a história!

- Mas qual?

 

Jonas nadou sem parar durante o que lhe pareceram longos minutos, seguindo o estranho raio de luz que mergulhava com ele no oceano e lhe apontava o caminho. Naquela estrada, perfurando a escuridão das profundezas, parecia aguentar a respiração melhor, durante mais tempo que nunca e tal como o fôlego, também a coragem o acompanhava sempre para o fundo.

Com ele cruzavam-se peixes de todos os tamanhos e feitios e de longe, na câmara lenta da água, parecia ouvir os sons de uma batalha, que adivinhava estar a acontecer à superfície. Mesmo antes de mergulhar olhara para trás e vira emergir das cinzas enlameadas, dos destroços, exércitos baços e brancos, homens de plástico em auxílio das bruxas. A lembrança de Alice e do Avô Branquinho enfrentando as hordas de inimigos dava-lhe mais forças que logo transformava em frenético espernear e abanar de braços.

Aos poucos começou a ver o fundo, as mesmas rochas por onde caminhava em criança, a mesma areia grossa onde estavam pousadas, os grãos misturados com conchas inteiras e os seus restos, os mesmo caranguejos escondendo-se nas frestas, algas ondulando ou deitadas, descansando ao Sol na maré baixa.

Viu, claro e evidente, o lugar da concha. Apesar de todo o tempo que passara prisioneiro no torreão, recordava ainda precisamente o sítio onde a tinha encontrado, uma pequena prateleira na rocha em forma de crescente, como uma alcova perfeita. Ali a luz do Farol Branquinho chegava já rarefeita e nebulosa, as sombras azuis da profundidade envolvendo-a em abraços envenenados.

Levou a mão ao bolso em busca da concha. Procurou, revirou o bolso, nada. Enfiou a mão no outro. Nada. Tinha-a perdido! No frenesim de nadar para o fundo, tinha perdido a concha. Que raiva, que parvo, que inconsciente! Como pudera perder a concha? O que seria deles agora, de novo à mercê das bruxas? O sal das suas lágrimas furiosas misturava-se com o da água do mar.

Virou-se em desespero e viu-a, errando devagar ao sabor da corrente, o seu brilho único, trémulo e incerto, a uns três metros acima dele. E atrás, nadando na sua direcção com o mais tenebroso sorriso que alguma vez conhecera, envolta em véus negros, deslizando com a graça gorda de uma jovem baleia assassina, a figura rechonchuda de Skuld, perseguindo a concha como se fosse o mais açucarado dos doces.

Quando tudo parecia perdido, a voraz mão de Skuld fechando-se sobre o brilho inaudito da concha, das mais fundas profundezas, emergiram como dois peixes (minto, duas sereias), duas figuras que habitavam a saudade de Jonas: os seus pais. O cabelo de sua mãe ondulava longo como a erva alta das dunas, o do pai, confuso de algas de todos as cores e feitios. Prisioneiros encantados dos recantos escuros daquele novo mar, acudiam em seu socorro e em socorro do mundo, que pelas façanhas maldosas das três bruxas de Truro, de novo perigava.

À superfície, a batalha estava no seu auge. Um vento vermelho levantara-se ensurdecedor em torno de Alice e do Farol Branquinho, a que os homens de plástico tentavam trepar numa fúria cega, sem grande resultado. A voz fina da pequena, no seu esforço para se fazer ouvir, não mais era que um tinir sem eco.

A luz que guiava Jonas no fundo do mar, começava a fraquejar e Urd concentrava sobre ela as suas longas mãos, lançando feitiços de negrume, para que a noite chegasse mais depressa.

Verdandi, por seu lado, comandava o exército de plástico como se fossem marionetas, manobrando-os com fios invisíveis de magia. Aos poucos, os homens baços e brancos subiam mais ordenadamente, farol acima, pés sobre ombros e cabeças, mãos puxando braços. O velho Branquinho estava no limite das suas forças e os primeiros dedos começavam fazer sombra na luz que descia para o oceano.

Alice, desesperada, não sabia que mais fazer. No meio da história que tentava contar, soltava já lágrimas e lamentos pela sua falta de imaginação, pela fraqueza da sua voz, incapaz de se fazer ouvir no meio da fúria que a rodeava.

Quando tudo parecia perdido, bruxas e soldados de plástico à beira de um triunfo sem regresso, o mundo escurecendo de novo, fez-se um silêncio inesperado. O plástico deixou de arranhar a pedra, as vassouras deixaram de silvar no ar e permaneceram imóveis, varadas, como as suas passageiras, ainda de braços e capas pretas abertas. Alice estava muda de espanto com a súbita calma, já que nem o mar mexia e o avô Branquinho, como é próprio dos edifícios de pedra, mantinha-se calado.

As nuvens começaram a desfazer-se, e uma brisa ligeira levantou-se de oeste, levando as bruxas como folhas secas de árvores, desbaratando em poeira o exército de plástico. Só então ocorreu a Alice que talvez Jonas tivesse conseguido cumprir a sua missão, devolver a concha ao seu lugar. Então viu-o, trepando uma escarpa baixa, um pouco mais a sul, encharcado dos pés à cabeça. A princípio não conseguiu distinguir as lágrimas da água do mar, mas ao chegar ao pé dele, percebeu que chorava.

- Conseguiste? – Perguntou ela ansiosa, desejando também que o sucesso do rapaz apagasse de alguma forma a sua própria inabilidade em reter as bruxas.

- Sim, sim… consegui. – Respondeu Jonas ainda ofegante.

- Então estás triste porquê?

- Vi os meus pais. Foram eles que me salvaram da bruxa gorda, foram eles que a seguraram enquanto eu devolvia a concha ao seu lugar.

- Mas isso é maravilhoso!

Jonas abanou a cabeça triste.

- Não. Eles são prisioneiros do mar. Nem a morte das bruxas os libertou. O mar é mais forte. – Jonas fungou e olhou de lado para Alice. No olhar da pequena somava-se uma nova tristeza à confusão da batalha. Ora, ele tinha conseguido devolver a concha. E os pais nem sequer estavam mortos, podia visitá-los sempre que quisesse, bastava mergulhar.

- Deixa, – disse ele, pondo-lhe o braço à volta do ombro – posso sempre vir aqui visitá-los, quando me apetecer.

Estavam os dois assim sentados, olhando os carneirinhos do mar de Truro, quando uma nova algazarra os fez olhar para trás. Correndo por entre as dunas, onde as ervas pareciam ter crescido a engolir os destroços, vinham às dúzias, crianças como eles, rindo e brincando, cada uma com um livro na mão, ou debaixo do braço, ou pousado na cabeça.

Jonas reconheceu-os de imediato. Eram os seus colegas de prisão na casa das bruxas que, com o desaparecimento destas, tinham sido devolvidos à liberdade. Rapidamente o rodearam, agradecendo em todas as línguas e tons de voz o que o corajoso rapaz fizera por eles.

Aos poucos foram-se sentando e sem esperar que alguém os ouvisse, começaram a ler em voz alta os livros que traziam, cada um contando a sua história ao mundo. Eram centenas de vozes, todas falando, todas começando da mesma forma, com um “Era uma vez” meio cantarolado, uns sentados nas pedras mesmo junto à água, outros na areia, alguns mais acima, junto das dunas, muitos à sombra do farol.

Calculo que nunca tenham visto um farol sorrir, mas posso assegurar-vos que mesmo transformado em pedra, solene e vertical, olhando o mar e a terra, o Avô Branquinho sorria, escutando a música de todas aquelas vozes.