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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

"Em Silêncio, Amor" - O Primeiro Capítulo

O Homem Magro


Eu sou o homem magro sentado à mesa, junto da janela, caneta pousada no ar à espera da elegância do gesto da escrita. Como Elisa suspende as suas mãos sobre o teclado antes de soltar a música no piano. Não como uma arma prestes a disparar. Como o instante antes do beijo.
Só começo a escrever quando a ouço. É um bailado em ausência.
Ou pelo menos tento. Ainda tento.
Foi pela curva do pulso, nesse instante de expectativa e silêncio, que primeiro me apaixonei, naquela tarde na escola de música. A porta estava entreaberta e permitiu me apenas o vislumbre da mão, das teclas, dessa hipótese de uma dança.
Casámos um ano depois.

Em tempos isto poderia ocorrer-me de cocktail na mão, numa festa elegante, uma penthouse, um loft com vista de rio e navios para onde Elisa me tivesse arrastado depois de um concerto, teatro, um filme. Chegava pelo seu braço e ficava ali, parado a pensar, no meio das pessoas elegantes, bonitas ou inteligentes, imune à conversa ligeira e gargalhada fácil que o álcool social sempre proporciona. Se tivesse sido um grande concerto, um filme a sério, estaria ainda sob o efeito silencioso da sua aura, contagiando-me com charme nos gestos: pegar num copo, cumprimentar uma idosa benemérita, passar os olhos pelas vaidades e vergonhas.
Começaria a falar sem saber bem o que estava a dizer, nem a quem, palavras para o lado que facilmente encontrariam um ouvido. Mais adiante diria “casámos um ano depois”, como se fosse o final de uma das minhas histórias, quando é na verdade um princípio ou apenas mais uma peripécia. Não interessa, a eles pelo menos.
Diria outras coisas, abusando indecentemente da atenção conquistada, falaria de como nos amámos e amamos ainda durante anos e anos; da nossa primeira casa, acolhedora à maneira rudimentar dos ninhos; da segunda, maior, quase labiríntica de estantes e livros e partituras e música; das férias à beira-mar, onde deveríamos ter vivido, provavelmente toda uma vida.
Com mais um copo, lançar-me-ia a filosofar.

Por exemplo, o que eu acho é isto: O escritor é primeiro um investigador da existência.
Um dia, uma pessoa, um lugar, uma história atravessam se na sua vida. Assumem a forma de um indício banal: a curva de um pulso, uma mulher a chorar no trânsito, um livro numa montra, uma peça de roupa ou apenas a sua cor, pesadelos, fantasias, a pele, a sua pele, engelhada e gasta.
Como um detective, recolhe provas, segue os potenciais implicados, constrói lhes vidas, desenha motivos, coloca lhes nas mãos armas dos mais variados tipos: um volante, a indiferença, um piano, o desejo, a curiosidade, um nome, uma ausência, a pena. Teria sido isto ou aquilo? Premeditado ou arrebatado?
Depois deve apresentar o seu caso perante um tribunal soberano. (Isto eu diria com um gesto amplo de braço, transformando a minha audiência desde logo em júri).
Escreve.
Os seus leitores julgam o que lhes apresenta. E decidem.
E parava aqui. Porque o resto ninguém sabe, só Elisa e Hortense (e Paula, por acréscimo). Mais ninguém conhece o Thomas Wartet atrás do pseudónimo. O resto seria só para mim e para ela, um silêncio e um segredo, a cumplicidade e ironia com que o meu olhar procuraria o seu, do outro lado da sala, provavelmente já obrigada pela anfitriã a sentar-se ao piano, a “tocar qualquer coisa para nós”.

Mas no silêncio dos meus pensamentos continuaria.
Sendo escritor de livros para crianças, sempre esperei dos meus leitores o mais exigente dos juízos. Assim são as crianças, tão rápidas a apaixonar se como a esquecer o motivo das suas paixões, implacáveis a desprezar o que não lhes interessa, a julgar e sentenciar.
Talvez o seu ritmo seja o dos tempos modernos, substituindo o presente por uma permanente ânsia de futuro sem justificação razoável, para além da vontade humana de satisfazer o desejo.
Talvez os seus sentimentos sejam mais puros, a raiva, a crueldade, a ternura, o júbilo, vingança, desprezo, arrependimento. As crianças sempre tiveram, para mim, essa vantagem: julgam com a transparência do seu coração, ignoram as névoas da idade adulta, os labirintos racionais com que nos justificamos. Eu próprio gosto de pensar que permaneceu em mim algo de criança, a curiosidade, a invenção, o medo, o riso.
E isso só pode ser bom, não?

Eram outros tempos. Em quantas festas nos divertimos? Em quantas nos aborrecemos? De quantas nos salvou Hortense, para um último copo em sua casa? E adormecíamos agarrados no sofá grande cor de chocolate, embalados pela sua voz já entaramelada pelo sono e pelo gin, histórias sem fim, pelo luxo da lareira, pedra calorosa estremecendo à luz da chama. “Essa lareira também é vossa, meninos”, diria ela, “é dinheiro que me deram a ganhar”.
Hoje não.
A luz atravessa dispersa a largura da sala e pousa o seu Inverno em mim. Faço tal silêncio que sinto latejando na pele o rumorejar do sangue nas veias. E a cidade, claro. Sempre a cidade lá fora, com as suas esquinas a esquadro e o vento terrível que as vira.
Há bebida, comprimidos, mas nenhuma gargalhada, nenhum prazer ou elegância. O sol coado por nuvens não acaricia a minha magreza, o meu corpo mal regista o frio que o trespassa. Espera resignado o momento em que vai ser um com esta casa.
Paro a caneta sobre o papel. Olho pela janela.
Que dia de Inverno magnífico. A rua, as árvores e os prédios parecem todos chamados à atenção. As pessoas fogem do castigo que o tempo lhes traz: chuva e granizo, o vento cortante que quando a noite cair lhes roubará o fôlego em rajadas de gelo. Mas a manhã vai surpreendê-los e a mim com eles, a manhã branca de nevoeiro e silêncio. Neve mesmo talvez. Um mundo branco. Que perfeita, a neve na manhã de Natal.
São estes os meus fragmentos, réstias de esperança e temor, nuvens desgarradas no céu. Que dia é hoje? Como acabei aqui no coração da cidade? Não tinha prometido a Elisa que viveríamos à beira mar?
Elisa, Alice, Jonas. São eles os meus suspeitos, as minhas testemunhas nesta história. A minha e de Elisa, o reencontro de Jonas e as Três Bruxas de Truro, Hortense, Paula, Karen Bechstein, a Livraria Branquinho e…
Paro a caneta sobre o papel. Olho em volta.
Estão todos comigo, aqui nesta sala, espreitando por cima do meu ombro para estas palavras, todas as mulheres, todos os homens. Falta alguém? Pergunto com um toque de ansiedade. Onde estão os meus comprimidos, o meu copo?
Dou um gole nervoso e sinto o calor lacónico que me desce da garganta para a alma. Não há gelo a tilintar, nem risos encenados. Pouso o vidro na madeira sem ruído.

Com calma, tudo se vai esclarecer.
Comecemos então pela minha menina crescida. Interessar-me por ela, adivinhar o embrião de uma história, fez-me sentir vivo, mais do que o regresso de Elisa, até, por motivos que serão evidentes.

One Art

(Elizabeth Bishop)

The art of losing isn’t hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster.

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn’t hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother’s watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn’t hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn’t a disaster.

—Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan’t have lied. It’s evident
the art of losing’s not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

Já se pode comprar o livro...

E pronto, mesmo sem capa digitalizada, "Em Silêncio, Amor" já chegou à livraria virtual da FNAC, o que me faz crer que também é capaz de aparecer por aí nos escaparates, para quem estiver interessado. Para comprar online é simples, basta ir AQUI.

Já usei o serviço online da FNAC e nunca tive motivos de queixa, ainda por cima podemos levantar o que compramos nas FNAC Services. De qualquer forma, nada como o prazer de visitar uma livraria, sobretudo se for daquelas em que nos podemos perder entre capas, lombadas e o prazer de folhear os livros.

Do Not Go Gentle Into That Good Night

(Dylan Thomas)


Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.


Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

This Side Of The Truth (for Llewelyn)

(Dylan Thomas)

This side of the truth,
You may not see, my son,
King of your blue eyes
In the blinding country of youth,
That all is undone,
Under the unminding skies,
Of innocence and guilt
Before you move to make
One gesture of the heart or head,
Is gathered and spilt
Into the winding dark
Like the dust of the dead.

Good and bad, two ways
Of moving about your death
By the grinding sea,
King of your heart in the blind days,
Blow away like breath,
Go crying through you and me
And the souls of all men
Into the innocent
Dark, and the guilty dark, and good
Death, and bad death, and then
In the last element
Fly like the stars' blood

Like the sun's tears,
Like the moon's seed, rubbish
And fire, the flying rant
Of the sky, king of your six years.
And the wicked wish,
Down the beginning of plants
And animals and birds,
Water and Light, the earth and sky,
Is cast before you move,
And all your deeds and words,
Each truth, each lie,
Die in unjudging love.

somewhere i have never travelled, gladly beyond

(E.E. Cummings)

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience,your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near

your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
 (touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility:whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

 (i do not know what it is about you that closes
and opens;only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody,not even the rain,has such small hands

A Poesia de "Em Silêncio, Amor"

Vozes variadas atormentam Tom ao longo de "Em Silêncio, Amor" e se bem que em português, no livro, são no original em inglês e vale a pena creditá-las.

Comecemos pela música. A primeira voz, na Livraria Branquinho, é a de Tom Waits, que canta "Alice", do seu álbum do mesmo nome.

…I'll disappear in your name, but you must wait for me
somewhere across the sea, there’s the wreck of a ship… (pág. 42)

… And so a secret kiss brings madness with the bliss
and I will think of this when I’m dead in my grave… (pág. 44)

… And I must be insane, to go skating on your name
and by tracing it twice, I fell through the ice… (pág. 45)

"Hallelujah", de Leonard Cohen, dá nome a todo um capítulo. Poema extenso de que o autor e outros cantam apenas alguns versos seleccionados, é citado directamente.

I've seen this room and I’ve walked this floor,
you know, I used to live alone before I knew you (pág. 88)

O resto são "apenas" poemas e que eu saiba nunca serviram de letra a nenhuma canção, mas tal como na voz de Elisa e outras, envolvem Tom na dança do seu som.
A sua leitura acompanhou-me durante a escrita do livro e, de uma maneira ou de outra, as suas palavras acabaram por surgir no texto.
Uma breve nota para assumir a sua "tradução", capaz de ressoar entre Tom e Elisa e mais preocupada com isso do que com qualquer ideia de fidelidade.

So sad, so strange, the days that are no more. (pág. 60) do poema Tears, Idle Tears, de Alfred, Lord Tennyson

Do poema somewhere I have never travelled, gladly beyond de E. E. Cummings (o poema que Elisa queria ouvir no seu funeral), aparecem vários versos:

somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence: (pág. 64)

rendering death and forever with each breathing (pág. 65)

the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands (pág. 66)

your slightest look will easily unclose me (pág. 68)

De Out of the Craddle Endlessly Rocking de Walt Whitman, surge na página 69 o verso From under that yellow half moon, late risen, and swollen as if with tears

Do belíssimo poema de Dylan Thomas Do Not Go Gentle Into That Good Night ouvimos na página 176 o princípio, na voz gravada de Tom e na página 73, o verso Rage, rage against the dying of the light.

O poema mais famoso da poetisa Elizabeth Bishop, One Art aparece na página 89

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.

Na mesma página, And that has made all the difference, do poema The Road Not Taken, o clássico de Robert Frost que sempre me lembra o "sei que não vou por aí" de José Régio.

Dylan Thomas volta à página 120 com This Side of Truth

This side of the truth,
You may not see, my son,
King of your blue eyes
In the blinding country of youth,

Do mesmo poema, na página 123:

And all your deeds and words,
Each truth, each lie,
Die in unjudging love.

O poema 22 de Emily Dickinson aparece na página 144:

I gave myself to him,
And took himself for pay.
The solemn contract of a life
Was ratified this way

So let us melt, and make no noise, é do mais antigo dos poetas representados, John Donne, no poema A Valediction: Forbidding Mourning, na página 156. E na página seguinte, a variação de Adrienne Rich:

I could say: those mountains have a meaning
but further than that I could not say

E pronto. Não mais sobre estes poemas, que são assunto para se ler e não de que falar.

Quem são as três bruxas?

Thomas Wartet, personagem central de "Em Silêncio, Amor", escreve, em determinado momento, uma história a que chama "As Três Bruxas de Truro".

Se a ideia das três bruxas me chegou, antes de mais, pela sua presença no início do Macbeth de Shakespeare, não tinham, nessa altura, mais do que uma forma vaga e as vozes premonitórias que, na peça, saudam o futuro rei da Escócia e prevêem desde logo a sua queda.

Algum trabalho em torno do tema revelou-me os nomes ideais para as três bruxas, importados directamente da mitologia nórdica, perfeitos para aquilo que pretendia:

Verdandi - O seu nome é literalmente o presente do verbo "ser", aquilo que é, que está a acontecer ou a ser, no sentido da transformação. Representa, nesse sentido, o Presente. É uma das "norns", juntamente com Urd e Skuld, guardiã de Yggdrasil, a grande árvore que atravessa toda a cosmogonia nórdica. É tipicamente representada como bonita e cheia de vida.

Urd - Representa o passado, no sentido da causalidade, isto é, tudo o que aconteceu já, tudo o que passou e deu origem ao presente, a sua irmã Verdandi. É a fonte de Urd que alimenta as raízes de Yggdrasil. Representa-se sempre como muito idosa e olhando para trás dos ombros.

Skuld - É o futuro, aquilo que é inevitável consequência do que passou, aquilo que nos espera, em consequência do que aconteceu. É criada pelas causas situadas no passado e pelo que decidimos e fizemos no presente.

Não me interessa particularmente a complexa mitologia nórdica de que fazem parte as três "norns", estas deusas do destino tecendo o futuro dos homens. Achei, contudo, que representavam perfeitamente uma certa noção de tempo que apresenta alegoricamente a responsabilização do homem pelas suas acções, algo entre o karma oriental e os próprios conceitos em que se funda a tragédia grega.

O pobre Tom, ao escrever, talvez esteja a tentar desembaraçar os novelos do seu próprio tempo pessoal, da história da sua vida, mas o mais provável é que "As Três Bruxas de Truro" não passe de mais um rascunho nesse processo.

The National - City Middle

Karen, take me to the nearest famous city middle
Where they hang the lights
Where it's random, and it's common versus common
La di la
[repeat]

I've got five hundred in twenties
And I've got a ton of great ideas
I'm really worked up
I'm on a good mixture, I don't want to waste it
I'm on a good mixture, I do not want to waste it
I wanna go gator around the warm beds of beginners
I'm really worked up

Karen, take me to the nearest famous city middle
Where they hang the lights
Where it's random, and it's common versus common
La di la
[repeat]

I have weird memories of you
Wearing long red socks and red shoes
I have weird memories
I have weird memories of you
Pissing in a sink, I think
I have weird memories of you

I wanna go gator around the warm beds of beginners
I'm really worked up
I wanna go gator around the warm beds of beginners
I'm really worked up

Karen, take me to the nearest famous city middle
Where they hang the lights
Where it's random, and it's common versus common
La di la
[repeat]

I have weird memories of you
Wearing long red socks and red shoes
I have weird memories
I have weird memories of you
Pissing in a sink, I think

I have weird memories of you

Parking your car, you said, I'm overwhelmed
You were thinking out loud, you said, I'm overwhelmed
You were parking your car, you said, I'm overwhelmed
You were thinking out loud, you said, I'm overwhelmed
You said, I think I'm like Tennessee Williams
I wait for the click
I wait, but it doesn't kick in
I think I'm like Tennesse Williams
I wait for the click
I wait, but it doesn't kick in

I have weird memories of you
Wearing long red socks and red shoes
I have weird memories
I have weird memories of you
Pissing in a sink, I think
I have weird memories of you
la da da da...

I have weird memories of you