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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Como Um Sonho Acordado

Como se a Terra corresse 
Inteirinha atrás de mim 
O medo ronda-me os sentidos 
Por abaixo da minha pele 
Ao esgueirar-se viscoso 
Escorre pegajoso 
E sai 
Pelos meus poros 
Pelos meus ais 
Ele penetra-me nos ossos 
Ao derramar-se sedento 
Nas entranhas sinuosas 
Entre as vísceras mordendo 
Salta e espalha-se no ar 
Vai e volta 
Delirante 
Tão delirante 
É como um sonho acordado 
Esse vulto besuntado 
A revolver-se no lodo 
A deslizar de uma larva 
Emergindo lá no fundo 
Tenho medo ó medo 
Leva tudo é tudo teu 
Mas deixa-me ir 

Arrasta-me à côncava do fundo 
Do grande lago da noite 
Cruzando as grades de fogo 
Entre o Céu e o Inferno 
Até à boca escancarada 
Esfaimada 
Atrás de mim 
Atrás de mim 
É como um sonho acordado 
Esses olhos no escuro 
Das carpideiras viúvas 
Pelo pai assassinado 
Desventrado por seu filho 
Que possuiu lascivo 
A sua própria mãe 
E sua amante 

Meu amor quando eu morrer 
Ó linda 
Veste a mais garrida saia 
Se eu vou morrer no mar alto 
Ó linda 
E eu quero ver-te na praia 
Mas afasta-me essas vozes 
Linda 

Tens medo dos vivos 
E dos mortos decepados 
Pelos pés e pelas mãos 
E p´lo pescoço e pelos peitos 
Até ao fio do lombo 
Como te tremem as carnes 
Fernão Mendes