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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Estará tudo iluminado.

Pediram-me um texto sobre o futuro, digamos que daqui a uns vinte anos, para celebrar os vinte anos do SAPO. O futuro do SAPO, como todo o futuro, é uma incógnita. Mas escrevi isto:

 

Viveremos vidrados em ecrãs como cerâmica luzidia sem saber de que lado do vidro estamos, se dentro se fora. Estaremos dos dois lados ao mesmo tempo, em todo o lado todo o tempo, vendo, fazendo e sendo imagens. Até porque o vidro mais não é do que pó liquefeito e para ser barro basta juntar-lhes os nossos 70% de água.

Verdade, verdadinha, o vidro já não vai interessar porque já nem os ecrãs serão ecrãs, não estarão nos nossos bolsos, nas nossas salas, nas nossas mesas de trabalho, serão a roupa que vestimos, todas as paredes, as esquinas dos prédios, as mesas em que pousamos aas mãos, nas nossas peles, nos nossos olhos a fazer de retina. Todo o mundo será imagem.

Quando quisermos olhar para fora das janelas dos nossos prédios altos de Babel, imaginando ainda transparentes os nossos vidros, não teremos já a certeza do que existe porque em toda a realidade haverá fabricação. E o que é que isso interessa? Não veremos as praias onde dão à costa o lixo e os corpos, mas sim paraísos impolutos de prazer onde o sol brilha o ano todo. O mundo inteiro será feito de luz mais brilhante que o sol. E nem os túneis do metro serão escuros, tudo será iluminado.

Os séculos têm o mau hábito de ser resultado da história e deixar o seu rasto lamacento na história. Ao terrível vinte sucede o não menos terrível vinte e um, mas tanto ecrã, tanta imagem no nosso futuro… De quem serão as câmaras? Quem produzirá a realidade? De que lado do vidro estarão verdadeiramente os nossos olhos? Porque, como diz o Zeca, podemos ser como a toupeira e esburacar. E não há luz que não se veja.

 

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