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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

How To Be Both.

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Estou numa daquelas fases em que odeio (não de verdade, sendo honesto, adoro) escritores que dominam a língua em que escrevem com supremo à vontade, mesmo sendo, em toda a probabilidade, uma mestria fruto de intenso e tortuoso labor como, diz-me a experiência, muitas vezes acontece.

É o caso do Richard Powers com o seu 'Orfeo' ou de Joseph O'Neill com o seu 'The Dog', do maravilhoso 'History of the Rain' de Nial Williams ou do sombrio 'Wolf in a White Van' de John Darnielle (vocalista dos The Mountain Goats), do grande tecedor de histórias que é David Mitchell com o 'The Bone Clocks' ou Emily St. John Mandell no 'Station Eleven' que acabei ontem. Algumas das coisas que li nos últimos três meses.

Atirei-me sem pausa para respirar, chain-reader me confesso, ao 'How To Be Both' da Ali Smith, motivo deste post. Sem querer estragar a leitura a possíveis leitores, entrei pela narrativa guiado pelo ponto de vista de um pintor renascentista já morto, que observa como fantasma (?) visitantes a um museu, olhando um seu quadro. Daí segue para a rua, onde o mundo moderno o surpreende. E aí me prendi numa frase em que se lamenta da ausência de cavalos:

What kind of a journey can you make with no creature to befriend you to let your going anywhere reveal itself as the matter of trust and faith going somewhere always is?

Leiam de novo. É uma bela frase. Uma daquelas frases. E fiquei a pensar. Talvez ele descubra que, tal como os cavalos, também os automóveis, os autocarros, comboios, barcos, aviões exigem que estabeleçamos com eles uma relação, uma fé e uma confiança, para que nos levem onde queremos chegar pois que isso faz parte da viagem.

Era isto. Logo continuo a ler.