Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O futuro foi esta semana.

Sempre achei que os Estados Unidos eram um país onde cabia tudo e isso era a sua principal qualidade e o seu principal defeito. Mas talvez  a palavra 'tudo' revele sempre um preocupante parentesco com a sua deriva para o 'total' e daí a 'totalitário' vai só uma sufixação. Além de que 'tudo' é daquelas palavras que invoca o círculo como forma geométrica e se devora em 'nada' na cauda da serpente.

Estes disparates pretensiosos vêm na sequência de uma série de histórias que, por efeito de uma qualquer gravidade mediática, se parecem ter conluiado nos últimos dias para me fazer perguntar em que estado de facto está esse país do outro lado do Atlântico. A resposta não me interessa particularmente ou antes interessa naquele espaço tendendo para o infinito que vai da realidade à ficção.

Li nos últimos meses alguns livros que informam ou deformam a minha visão: "The Year of the Flood" e "The Handmaid's Tale" de Margaret Atwood, "Nineteen Eighty-Four" de George Orwell, "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, "The Flame Alphabet" de Ben Marcus, "Kingdom Come" de J.G. Ballard, além das histórias de Donald Barthelme e George Saunders e, num registo mais pulp, Guillermo Del Toro com Chuck Hogan e Justin Cronin. Uma boa dose de distopia. Estou certo que se já tivesse lido o "Brave New World" do Huxley, este post seria mais inteligente, mas continua numa pilha à espera de vez.

No princípio da semana vi imagens do que rodeia a Super Bowl, o momento mais visto e mais caro da televisão americana. Não vi nada do desporto mas é mais ou menos como os americanos gostam: disparos de adrenalina alternados com pausas para publicidade - e na publicidade, muita tecnologia, muito entretenimento e até alguma meta-publicidade (ah, somos um anúncio a brincar aos anúncios).

Chamou-me mais a atenção o momento do hino antes do jogo e as suas componentes: uma cantora de ópera, um género claramente no fundo do balde do gosto musical americano mas que fica bem como jóia decorativa (Renée Fleming, que muito aprecio - na foto); uma marching band militar; uma bandeira americana gigante esticada sobre o relvado; dezenas de milhares nas bancadas inchados de patriotismo; fogo de artifício; ecrãs, muitos ecrãs, ecrãs muito grandes; depoimentos de tropas nos ditos ecrãs e na emissão; para fechar, caças e helicópteros de combate sobrevoando o estádio. O estádio tem o nome de uma companhia de seguros, a MetLife, e fica em New Jersey, a 'outra banda' de Nova Iorque, a babilónia americana. New Jersey, estado nativo de Frank Sinatra e Tony Soprano. E o Seinfeld reencontrou o George Constanza no intervalo. Bom, estão a ver a coisa.

 

 

Nem vou sequer entrar na polémica sobre o anúncio da Coca-Cola com o 'outro' hino americano, "America The Beautiful", fala por si.

Hoje, vi uma notícia sobre Jesse Ventura que foi wrestler profissional e depois governador do Minnesota ("Only in America!" como diz Al Pacino no "Angels in America" de Tony Kushner). Jesse Ventura agora vive no México e diz que o faz porque se quer manter fora da rede (da matriz, se quiserem) e garantir que "os drones não o encontram". Nesta era pós-Snowden nada disto nos parece particularmente paranóico, se pensarmos uns segundos. A parte divertida é que o senhor tem um programa de televisão chamado precisamente "Off The Grid". Fora. Mas dentro. Na televisão. E a lógica deu um nó.

A tudo isto apetece-me acrescentar que a Google anda a comprar empresas de inteligência artificial depois de ter comprado empresas de robótica e de automação doméstica. Skynet, anyone? E como é natural, a concorrência não anda a dormir e o Facebook até faz dez anos e devolve-nos a nossa vida em vídeo na melhor veia nostálgica delicodoce.

Acho que se qualquer um dos autores ali acima quisesse descrever uma sociedade vivendo numa espécie de distopia eufórica, totalmente tomada pela tecnologia, devorada pela vontade de não ter memória ou permanentemente modificá-la, dominada pelo desejo absurdo de entretenimento e de consumo, não encontraria melhor que a sociedade americana contemporânea. Acho que o momento merece uma pausa para ouvir Laurie Anderson.

 

 

No fim disto tudo lembrei-me que William Gibson, meu autor de ficção científica de eleição, deixou há uns anos por opção de escrever livros passados no futuro para se dedicar ao presente. Até porque o presente é neste momento claramente uma espécie de futuro bizarro. Haverá outro motivo para termos cientistas a procurar viajantes no tempo na Internet?

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.