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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Peso (e a Leveza) da Cultura no País.

Com data de hoje, foi publicado um Destaque - Informação à Comunicação Social do Instituto Nacional de Estatística dedicado à Cultura. Não percebo muito de Estatística e provavelmente ainda menos de Economia. Vou observando o país e sou um consumidor ávido de cultura e um ocasional produtor da mesma. Achei, por isso, que devia olha para a "coisa" que nem ministério merece no atual governo. Lendo e reparando, algumas notas com estes pressupostos:

  • O título diz-nos que a cultura foi responsável por 1,7% do VAB nacional no triénio 2010-2012 (bissectado que é pela entrada da troika em Portugal, três anos velho já, vale o que vale).
  • Fui ver o que era isso de Valor Acrescentado Bruto e socorri-me do próprio INE para não me ficar pela Wikipedia e, perdoem-me a imprecisão, percebi que era um saldo, um lucro para o país, aquilo que cada sector acrescenta à economia.
  • Note-se que estamos a falar de cultura em sentido amplo: inclui-se a edição de livros escolares e a produção para televisão e publicidade, por exemplo, de onde resulta que "Em termos de VAB e Emprego, com pesos relativos de 33,2% e 36,6%, respetivamente, evidencia-se o domínio Livros e publicações, seguido pelo domínio Audiovisual e multimédia (22,6% e 11,7%, pela mesma ordem)."

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  • Parece-me bem, devemos cada vez mais falar de cultura num sentido amplo que vai da telenovela depois do telejornal à performance de vanguarda na ZDB, do 'Pátio das Cantigas' às 'Mil e Uma Noites'. Convém, contudo, saber do que falamos, não confundir o trigo com o joio.
  • Neste triénio, a procura interna contraiu significativamente, como sabemos, e o peso da cultura no VAB total do país foi pelo mesmo caminho. Faz sentido.
  • A coisa começa a ficar realmente interessante, quando percebemos que se a cultura vale 1,7% do VAB nacional, está logo atrás das telecomunicações, com 1,9%, logo à frente das Indústrias alimentares (1,6%), do Alojamento, dos Seguros e da Agricultura (todos com 1,5%).

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  • A sério? Temos ministros a encher a boca com a "lavoura" e nem Ministério da Cultura temos? E o que dizer de alguns dos maiores anunciantes do país (e patrocinadores da cultura), as telecomunicações, ali duas míseras décimas à frente?
  • Já agora, a cultura pesa 2% no emprego. Muita gente.
  • Em relação a salários, aliás, a coisa pia mais fino. "A remuneração média foi, nas atividades relacionadas com a cultura, cerca de 13% superior à remuneração média da economia". Mas porquê?
  • Mais abaixo, vamos perceber duas coisas: uma, que o Audiovisual e multimédia e a Publicidade contribuem para distorcer este valor, estando respetivamente 50,9% (!) e 35,4% acima da média nacional; duas, bem mais grave, que há setores, onde a proporção de emprego não remunerado me parece a mim, leigo, escandalosa: na Arquitetura é de 39%, nas Artes do Espetáculo é de 51%.
  • Ou seja, mais de metade das pessoas que trabalham em Artes do Espetáculo (música, teatro, etc.), não recebem.

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  • Fiquemos descansados, "o peso relativo do emprego remunerado no emprego total, na cultura, foi semelhante ao nacional (84,4% e 85,5%, respetivamente)." A sério? Há cerca de 15% empregados à borla em Portugal? Não, não vou entrar na guerra dos números do desemprego.
  • Ainda sobre o emprego, note-se que apenas 62% da criação é remunerada e 100% da Gestão/Regulação o é. Giro, hã?

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  • Acabemos numa nota otimista: "É também de referir a diminuição do défice do comércio externo de bens e serviços culturais. Esta evolução refletiu uma redução das importações em 2011 maior que a observada nas exportações. Em 2012, a redução do défice foi determinada pelo significativo crescimento das exportações e pela diminuição das importações." Efeitos secundários da globalização?

Visto tudo isto, há muito por onde refletir, mesmo com números relativamente antigos, mas eu que vivo em Lisboa, que me congratulo com a vida cultural da cidade, dinâmica o bastante para raramente faltar o que fazer, deixo só duas questões finais.

  • Como é próprio do INE, este é um retrato a grande altitude e que considera sub-setores muito diferentes. Ficam-me muitas dúvidas sobre os efeitos estruturais, sobre a própria estrutura do setor, que tem de ir, repito, do mais inovador para pequenos públicos, ao generalista para as massas. E essa não é uma avaliação económica.
  • 2015 será, tudo indica, um grande ano para o setor do Turismo em Portugal. Vejo os tuk-tuks passar, as tascas gourmet a florescer e pergunto-me, então e a cultura, como vai, nesse retrato? Visitas ao património edificado apenas? E os museus, crescem? E os espetáculos, são comunicados para os turistas? E eles vão? E os nichos, a música clássica, a cultura popular regional, a cultura LGBT, a poesia (ficava aqui o resto da tarde), estamos a comunicar para eles?

Valha-nos o tanto trabalho que há para fazer. Remunerado, esperemos.