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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Sobre a política da tecnologia.

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Foi nos idos dos anos 90 que me apercebi, pela primeira vez, de que a política permeava tudo, incluindo a tecnologia, e que se a tecnologia ia ter um papel tão absolutamente dominante na nossa sociedade, era importante começar a perceber que praxis era possível nesse domínio, para além do fascínio evangelizador que dominava (e ainda domina em parte).

Para além de alguma ciência e filosofia ditas mais tradicionais (Norbert Wiener, Martin Heidegger, Ernst Junger e outros), foi pela via da ficção científica e, em particular, do movimento chamado ‘cyberpunk’ que comecei a pensar no assunto. Afinal, se foi Wiener que primeiro falou do controlo e da comunicação no animal e na máquina, foi William Gibson que juntou o prefixo ‘ciber’ ao ‘espaço’, criando na nossa imaginação o lugar onde a nova tecnologia digital se desenvolveria.

A boa ficção científica sempre soube olhar o presente e desenhar as suas hipóteses de futuro cruzando as narrativas dos seus heróis com o barroco ou aridez das suas paisagens tecnológicas e fantasiosas. Hoje, muito se cita Orwell ou Huxley a propósito do presente e autores da chamada literatura ‘mais séria’ usam a ficção científica na sua prosa como forma de ir mais fundo na construção das suas histórias. Parece-nos a todos afinal, que vivemos num mundo pré-apocalíptico completamente dominado pela tecnologia e esse movimento acaba por ser natural.

Vale a pena aprofundar estes autores que, pelo tempo que passou, talvez por estarem já mortos, entraram no cânone e cujas ideias permeiam áreas muito diversas do mundo que nos rodeiam – afinal de contas, Orwell, por exemplo, não é apenas a vigilância permanente e opressiva do Big Brother mas também a possibilidade de (tentar) ignorar a realidade e sobre ela construir qualquer discurso pelo simples poder da retórica, seja ela verbal ou visual. A novilíngua que domina o discurso do poder – o FMI impõe a austeridade mas lamenta que a austeridade não resulte; a austeridade faz aumentar a pobreza mas quem se lixa não é o mexilhão; a reality tv mostra o real mas o real é uma narrativa de empatias absolutamente manipuladas. Podia ficar o texto todo a dar exemplos. There is no spoon.

Li em tempos recentes a minha boa dose de apocalipses, de Ben Marcus a Margaret Atwood, de Emily St John Mandel a David Mitchell. O livro que acabei de ler, contudo, é o último de William Gibson, ‘The Peripheral’, e é sobre ele e outro (adiante) que me apetece escrever.

Depois de uma trilogia passada num futuro próximo, num presente sempre a ultrapassá-lo, Gibson voltou a um futuro mais distante, a setenta e mais anos de distância, mas identifica nesse futuro, a presença em forma extrema daquilo que são algumas das tendências do presente: a impressão tridimensional, a big data, o triunfo dos sistemas empresariais e financeiros (legais ou ilegais) sobre os estados, a vigilância absoluta e permanente, a biotecnologia, as alterações climáticas e até mesmo a reality television levada ao extremo.

O que me preocupou, contudo, numa primeira leitura, foi a incapacidade para resolver politicamente esse futuro de dentro para fora. Eu explico.

Henry Dorsett Case, o herói de ‘Neuromancer’, o tal romance seminal de Gibson sobre o ciberespaço, publicado em 1984 – ah, a importância simbólica do ano! – era um anti-herói sobretudo solitário, de recorte romântico, e, mais que tudo isso, um infiltrado no sistema, alguém que lutava de dentro para fora, seguindo o seu percurso com aliados e adversários, num submundo povoado por inteligências artificiais. ‘Neuromancer’ é um film noir em formato de ficção científica, contemporâneo de ‘Blade Runner’, por exemplo.

No livro, o sistema tecnológico que permeia o real usa Case para aceder a um nível superior de consciência artificial, isto é, a tecnologia faz uso dos humanos para se superar, mas aquilo que nos agarra é, precisamente, esse lugar do humano no sistema tecnológico, a hipótese de agir como herói que existe ainda numa sociedade em que a tecnologia domina.

Repare-se que estamos na pré-história da revolução digital, o contexto é o dos anos 80, com Guerra Fria, um Japão tecnologicamente fascinante, um submundo de droga e uma humanidade capaz de exploração espacial sem limites para a sua ambição. O computador pessoal está a nascer, os videojogos vivem em arcadas obscuras, a Net ainda não saiu do laboratório. Case obedece, assim, a modelos tradicionais: o detetive privado, o cowboy, o marginal que descobre a capacidade de se superar, o romântico solitário, repito. Se o terrorismo não tivesse ocupado entretanto o lugar que ocupou na nossa história e imaginário, poderia mesmo dizer-se que Case é um terrorista. Case é, em muito, o modelo de Neo, em ‘The Matrix’. Faz sentido, ‘Matrix’ é também uma palavra que Gibson inventa neste contexto e Keanu Reeves tinha desempenhado o papel de Johnny Mnemonic no cinema, outra personagem de Gibson.

Em ‘The Peripheral’, trinta anos passados, o modelo de intervenção política (no sentido lato do termo) dos personagens mudou e é dominado por valores humanos de outro tipo: a família, a amizade, a comunidade. E a sua ação é dominada por uma visão de um tempo mais longo, um tempo em que o futuro informa literalmente o presente. Nesse sentido, o grupo de heróis de ‘The Peripheral’ entreajuda-se, une-se, defende a sua terra contra um barão da droga e a Homeland Security do seu tempo, trabalha para encontrar hipóteses de sobrevivência mais saudável num mundo claramente destinado a um fim desgraçado – nenhum evento apocalíptico e singular, apenas um deslizar para um ponto limite – um pouco como nos sentimos por estes dias.

Não quero estragar a complexidade da narrativa para quem possa ler-me e, por fatalidade, ler também o Gibson, mas o livro deixou-me com muitas perguntas. A tecnologia é um sistema de necessidades e fatalidades? Que lugar existe para a autonomia? O herói morreu? Ou pode existir uma rede de heróis? Em ‘The Peripheral’ parece que a possibilidade de haver heróis autónomos e atuantes está dependente do acidente, do ‘ex-machina’, da ajuda de um sistema ao qual são completamente exteriores, mesmo espácio-temporalmente. Sem essa intervenção, que hipótese teriam os protagonistas? É a sua curiosidade ou apenas um acidente que os coloca nesse lugar em que podem ser ajudados?

Há, por outro lado, um nível de abstração novo nesta relação causal entre espaço e tempo, entre lugares e momentos diferentes no globo e na história. Ter uma visão sobre o futuro permite-nos atuar sobre o presente? Mas com que armas? A cumplicidade, a família, a amizade, armas não tecnológicas que a tecnologia apenas pode catalisar, ajudar. A não ser que a tecnologia contenha em si também, o embrião da sua derrota. Pode existir um novo paradigma de herói em rede neste ‘cyberpunk’ trinta anos passado? Que narrativa nos pode ainda conceder liberdade?

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Ontem, por coincidência ou talvez não, assisti ao lançamento de ‘O Poder de Mudar – Crise, Autonomia, Escolha’ de Gustavo Cardoso, um dos mais dedicados e interventivos estudiosos da nossa sociedade em rede, nomeadamente do ponto de vista sociológico e político. E as perguntas que me ficaram foram, por coincidência ou talvez não, exatamente as mesmas.

Mais do que nunca, na sociedade contemporânea, a tecnologia que nos domina, é uma tecnológica de comando e controlo, de formas mais diretas, agressivas e burocráticas, por via da omnipresente vigilância e do desaparecimento da privacidade, mas também pelos caminhos mais ‘soft’ do entretenimento televisivo e digital, que nos submerge em ciclos cada vez mais curtos de novidade e espetáculo.

Nos domínios da máquina do estado, as prioridades concedidas ao investimento tecnológico numa ou noutra área, são todo um programa. Dar, por exemplo, prioridade à cobrança de impostos e outras contribuições mas não à educação, cultura e justiça tem efeitos imediatos sobre a liberdade possível dos cidadãos.

A sociedade contemporânea é, contudo, também, a sociedade de Assange e Snowden, dos anti-heróis que inesperadamente nos dão acesso aos mecanismos do poder e nos concedem mesmo que momentaneamente espaço para atuarmos sobre eles, ou para que se reforcem no seu condicionamento do que podemos fazer.

É também a sociedade de artistas interrogando o presente, da Raquel Freire com o seu ‘Dreamocracy’ que em nenhum outro momento da história poderia ter acontecido da maneira que aconteceu – produzido digitalmente, com material barato, emprestado, partilhado, entre lugares diversos da Europa unidos por voos ‘low cost’, com muita comunicação nas redes a ajudar, parte do fenómeno que retrata.

O Gustavo, a partir de uma das instituições onde ainda vai dominando a capacidade de pensar – a universidade – lança pistas de ação política e posiciona-se a ele próprio como ator, até porque as palavras são já ações, claro. A minha dúvida é se estamos já no momento em que a intervenção se generaliza ou se vamos continuar apenas fascinados por narrativas em que o que está a acontecer (política, tecnológica e socialmente) faz parte do necessário, da fatalidade, seja qual for o sentido dessa fatalidade: o da corrupção ou da denúncia da corrupção, o dos abismos sociais, o dos impérios financeiros, o dos grandes ‘players’ tecnológicos dominando o nosso acesso à informação e entretenimento, alheando-nos de alguma hipótese de ética jornalística.

Pode ser que tudo se resuma a uma questão de otimismo ou pessimismo, de inquietação ou paralisia, de humor e revolta. Um dos professores que mais admirei no tempo que passei na universidade, José Bragança de Miranda, dizia-nos que estava a chegar um tempo de muros, apesar do que tinha acabado de cair, um tempo em que, ao contrário do Humpty Dumpty, não íamos poder ficar sentados lá em cima, sem cair, mas sim escolher um lado, de preferência antes que nos empurrassem.

Esse tempo é hoje. E o futuro é daqui a um minuto, um ano, um século.