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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O melhor e o pior país do mundo.

Não quero spoilar nada a ninguém, mas a nova série de Aaron Sorkin, de seu nome The Newsroom (tem estreia em Portugal no dia 15 de Agosto no TV Séries) começa com uma cena que termina numa discussão sobre se os Estados Unidos da América são ou não o maior país do mundo. Depois de os ter visitado pela quinta vez, atrevo-me a responder que sim, são o melhor, mas são também o pior. Ou como diz a personagem na série "they could be".

Um país que assenta sobre o sonho do dinheiro e cujo dinheiro tem inscritas as palavras "In God We Trust", só pode ser um lugar das contradições mais extremas. É o país de Gore Vidal e Mitt Romney, de Barack Obama e Michael Phelps, Andrew Carnegie e Henry Clay Frick, Frank Lloyd Wright, Mark Rothko, Edward Hopper e Andy Warhol. Só alguns nomes com que me cruzei nos últimos dez dias em Pittsburgh (onde foi tirada a fotografia da bandeira de pernas para o ar). É um país da inteligência máxima e da maior obtusidade, de histórias individuais, totalmente devotado ao espetáculo do sucesso e do fracasso, do crime, castigo e redenção, do dinheiro e da pobreza.

Gostava de ter energia para escrever mais sobre o assunto, mas deixo a coisa para quem sabe. Diz Kurt Vonnegut no clássico Slaughterhouse-Five:

"America is the wealthiest nation on Earth, but its people are mainly poor, and poor Americans are urged to hate themselves. To quote the American humorist Kin Hubbard, "It ain't no disgrace to be poor, but it might as well be." It is in fact a crime for an American to be poor, even though America is a nation of poor. Every other nation has folk traditions of men who were poor but extremely wise and virtuous, and therefore more estimable than anyone with power and gold. No such tales are told by the American poor."

É claro que também há a literatura, a pintura, a música, o rock'n'roll, os blues, o jazz, a poesia, o cinema, tanto cinema diferente, a televisão (alguma, pelo menos), as cidades, os arranha-céus, o oeste, as montanhas, as florestas, um país de mitos, histórias e imagens que me fascina mais do que devia. O melhor e o pior. E da parte do melhor, fica um clip de Tom Waits, novinho em folha de hoje. Do álbum Bad As Me, Hell Broke Luce.

 

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Dos Heróis.

Desde a Antiguidade a figura do herói mobiliza multidões, civilizações. Li recentemente uma biografia ficcionada de Aquiles dos pés velozes e tenho relido partes da Ilíada só por causa disso. Aquiles, o melhor dos gregos, mimado por uma deusa, o melhor guerreiro de entre os seus, arrogante, desafiando o destino e pagando pelo seu desafio.

Os meus heróis desde sempre foram músicos, escritores, cineastas, atores mas também políticos, jornalistas, filósofos. Os meus heróis sempre foram pessoas inteligentes e talentosas, de preferência com a coragem suficiente para fazerem o que realmente queriam da sua vida. Nunca me senti herói de mim mesmo, mas sempre olhei para cima e tentei trepar para os ombros desses gigantes. Usei o masculino porque essa é a regra da língua, há evidentemente mulheres também entre os meus heróis.

Num mundo em que a tecnologia democratizou o acesso aos media, em que os gatekeepers perderam influência, em que as redes e a visibilidade instantânea e permanente dominam, parece que qualquer um pode ser herói, num vídeo no Youtube, num post no Facebook, num qualquer concurso de talento ou disparate. E isso é uma coisa boa. Haja o que houver, o acesso democrático é bom. A pergunta é outra. De entre tantos possíveis heróis, como podemos no fim distinguir realmente os verdadeiros, aqueles que nos podem inspirar e ter vontade de ser melhores?

Gosto muito de futebol mas, lamento, nenhum jogador é um herói para mim. E lamento também, mais rapidamente seria Messi do que Ronaldo, só porque Ronaldo é mais Aquiles que Messi. É uma personagem muito melhor, claro, com a sua arrogância, a sua emoção à flor da pele e a sua obsessão pelo trabalho. Mas eu prefiro os meus heróis um pouco mais humildes, com pinta de anti-heróis, na verdade. Não o louro Aquiles, mas Pátroclo na sua sombra. 

Como é frequente quando escrevo coisas destas, mesmo com futebol pelo meio, este texto era apenas para dizer que Aaron Sorkin é um dos meus heróis. Tal como Alan Ball ou Tony Kushner. São algumas das pessoas que me fazem ainda acreditar que a ficção televisiva pode desempenhar uma função social e política. "The Newsroom" é a nova série da autoria de Sorkin, produzida claro pela HBO, e tem ainda um escasso episódio, coisa curta para a podermos avaliar, mas espero que seja mais "West Wing" do que "Studio 60 on the Sunset Strip".

Ficando-me ainda por esse primeiro episódio, não o podia aconselhar mais. Na fotografia, Jeff Daniels, que desempenha o papel principal, herói a contragosto, figura de Don Quixote, ou talvez seja apenas o seu cavalo. Mas não era um burro? Vejam e percebam.