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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Maravilhas de 2018

Este ano não há Top 10s para ninguém. Este ano há uma lista alfabética de coisas que me maravilharam ao longo deste ano. Livros, discos, filmes, séries, concertos. Lembro-me destas, o que já quer dizer alguma coisa. Outras esqueci, a memória falha-me por vezes. Por ordem alfabética de autor:

  • Alfonso Cuarón - Roma - Se a memória fosse escrita, encenada, representada e filmada com perfeição virtuosística, era este filme. Um tratado sobre a arte do cinema. Com defeitos, claro, criticável, claro, mas isso haja liberdade para fazer sempre.
  • Bruno Nogueira (com Marco Martins e Ricardo Adolfo) - Sara - A melhor coisa que já se fez na ficção televisiva em Portugal. E ainda se consegue ver, creio. Do princípio ao fim, por favor.
  • Deborah Levy - The Cost of Living - Uma das jóias do ano, o confessional e diarístico escrito como deve ser. Já tinha gostado do "Hot Milk" e vou ler mais, estou certo.
  • Hanna Gadsby - Nanette - Sobre o humor, a gargalhada, o trauma, a liberdade e muitas outras coisas em que vale a pena pensar e sentir. Um tema para ler sempre mais.
  • Jon McGregor - Reservoir 13 - Pegar num género e ele ser outro género e deixar passar os anos anos e um livro ser isto.
  • Kore-Eda Hirokazu - Shoplifters - Vamos jogar um jogo de escondidas e descoberta com um amor profundo às nossas personagens. Foi merecida Palma de Ouro.
  • Laurie Anderson - Landfall (com Kronos Quartet)/ All The Things That I Lost In The Flood / ao vivo no Nimas - Um disco, um livro, um espetáculo, a perda, a poesia. Damn, girl.
  • LCD Soundsystem - Ao vivo no Coliseu dos Recreios - Transpirar a sério pelos melhores motivos com todos os meus amigos, mesmo os que não estavam lá.
  • Low - Double Negative - Quase sem querer, um disco que se entranhou. Fiquei surpreendido ao vê-lo em tantas listas de fim de ano, mas isso não me impediu de ouvir de novo.
  • Michael Ondaatje - Warlight - Volto sempre a ele e ele nunca me desilude, na intersecção entre história, indivíduo e poesia onde um dos corações da literatura vive.
  • Nick Cave - Ao vivo no Primavera Sound Porto - O momento, o local, o tempo, os artistas e, é claro, a música, no festival que prefiro, por estes dias.
  • Nick Drnaso - Sabrina - Tão longe chegou a chamada "novela gráfica". Nenhum preconceito deve impedir a leitura deste livro, num estilo tão limpo quanto os temas são graves, um relato minimal de um país caótico.
  • Paul Thomas Anderson / Johnny Greenwood - Phantom Thread - Les beaux esprits se rencontrent. Já tinha acontecido antes mas de novo aqui um filme, uma banda sonora, uma elegância que podemos destruir como nos apetecer.
  • Phoebe Waller-Bridge - Killing Eve - Espias, assassinas, mulheres. Um dos géneros mais antigos do audiovisual pode sempre ser baralhado sobre clichés e tornar-se um prazer.
  • Rosalía - El Mal Querer - Há gente que explica muito melhor que eu como este disco é musicalmente inteligente e viciante.
  • Ryan McGinley - Mirror, Mirror - Sempre a pensar, a sentir, a fotografar, rodeado de amigos e imagens, o Ryan mostra-nos o caminho.
  • Thom Yorke - Suspiria OST - Lá podia o Thom ficar atrás do Johnny. vivemos sobre os ombros de gigantes.
  • Thomas Adès - Concerto de piano com música de Leoš Janáček - Há sítios onde se volta, se é feliz e se descobre coisas que não se conhecia. A Gulbenkian é um deles.

Roma

The most personal project to date from Academy Award®-winning director and writer Alfonso Cuarón (Gravity, Children of Men, Y Tu Mama Tambien), ROMA follows Cleo (Yalitza Aparicio), a young domestic worker for a family in the middle-class neighborhood of Roma in Mexico City. Delivering an artful love letter to the women who raised him, Cuarón draws on his own childhood to create a vivid and emotional portrait of domestic strife and social hierarchy amidst political turmoil of the 1970s. Coming soon. In Select Theaters and on Netflix.

Gravidade.

De vez em quando há filmes que sintetizam tudo o que Hollywood pode dar ao cinema. 'Gravidade' de Alfonso Cuarón, que estreia amanhã em Portugal, é um desses filmes. Passo a enumerar: as estrelas certas a desempenhar os papéis certos; um argumento bem construído capaz de sustentar a adrenalina; uns toques de sentimentalidade para quem se sentir a isso inclinado; um uso inteligente da tecnologia que justifica a ida à sala em desprimor de ecrãs mais pequenos; uma banda sonora entre o sinfónico e o operático; uma montagem irrepreensível e uma inteligência e sensibilidade visuais que embrulham o conjunto com brilhantismo.

Apesar dos esforços da indústria, parece haver cada vez menos filmes americanos que justifiquem a dimensão da sala escura e o custo acrescido dos bilhetes. Como dizia ontem o João Lopes na apresentação do filme, Gravidade é daqueles filmes que nos lembram de novo que vamos ao cinema para ver coisas que não conseguimos ver em mais sítio nenhum.