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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Anjos na América. E em Londres.

Devo andar muito distraído porque não me tinha apercebido da produção do National Theatre para o "Angels in America" do Tony Kushner. Ou se calhar até já sabia e tinha-me esquecido. Seja como for, não fosse um post do André Murraças no Facebook, muito menos me tinha apercebido que o elenco contava com Andrew Scott (brevemente num Bond perto de si) e Dominic Cooper (Mamma Mia!).

Nunca vi a peça encenada mas a minissérie do recentemente falecido Mike Nichols é das minhas coisas favoritas de sempre em televisão. E também já li o texto original do Kushner e é realmente brilhante.

A cena abaixo é do princípio da primeira parte "Millennium Aproaches", humor, drama e emoção em palco. Like.

Roy Cohn por Robert Mapplethorpe

Roy Cohn existiu e não foi apenas uma personagem de "Angels in America" de Tony Kushner. Advogado, Republicano, gay, morreu de SIDA, apesar de o negar sempre. Era cancro do fígado. Nasceu no Bronx, ganhou proeminência na era McCarthy, perseguindo alegados comunistas. Ajudou a condenar gente à morte, nomeadamente nos seus esforços de contraespionagem durante a guerra fria.

Robert Mapplethorpe, fotógrafo, gay, morreu de SIDA. Foi namorado de Patti Smith e é personagem central no brilhante "Just Kids". Foi polémico e testou os limites da arte e da pornografia. Fotografou Roy Cohn em 1981, cinco anos antes de o advogado morrer, oito anos antes de ele próprio desaparecer. Ver abaixo. Separados por tudo o resto, unidos por uma fotografia e pela força indelével da sexualidade. Esta fotografia merecia uma história, um conto, um romance, um filme, qualquer coisa.

Angels in America

HARPER: Yes.

I have to go now, get back. something just... fell apart.

Oh God, I feel so sad...

PRIOR: I... I'm sorry. I usually say, "Fuck the Truth," but mostly, the truth fucks you.

HARPER: I see something else about you...

PRIOR: Oh?

HARPER: Deep inside you, there's a part of you, the most inner part entirely free of disease. I can see that.

PRIOR: Is that... That isn't true.

HARPER: Threshold of revelation.

Home...

 

Chegou hoje no correio, o texto integral da peça de teatro "Angels In America" de Tony Kushner que conheci por via da brilhante adaptação televisiva da HBO. Tenho pena de nunca a ter visto em palco. É da série, a imagem acima, com Mary-Louise Parker e Justin Kirk nos papéis, respetivamente, de Harper Pitt e Prior Walter.

O diálogo acima pertence à cena sete da primeira parte, "Millennium Approaches". A segunda parte chama-se "Perestroika". Quem não viu, veja já, pelo menos a série, existe em DVD. Quem quiser, também pode ver esta cena completa aquiThreshold of revelation.

Ah e o Zachary Quinto já fez de Louis Ironson num revival da peça off-Broadway. O nome Ironson aparece num livro meu. Mas esse livro não está publicado.

O tempo das viagens.

Logo no princípio da primeira parte (Millennium Approaches) da peça "Angels in America" de Tony Kushner, o rabi Chemelwitz (uma brilhante Meryl Streep na versão televisiva da HBO) tem uma frase que fica connosco durante todo o tempo da ação e ainda depois. É proferida no funeral de uma mulher judia, uma imigrande do princípio do século XX: "You can never make that crossing she made, for such Great Voyages in this world do not any more exist. But every day of your lives the miles of that voyage between that place and this one you cross. Every day. You understand me? In you that journey is."

Muito ensaio já se terá escrito sobre o aumento da velocidade exterior e a interiorização da viagem ao longo do século XX, mas o tema voltou ao meu pensamento pela leitura do mais recente romance de Michael Ondaatje, "The Cat's Table", ele próprio uma viagem (ou várias): a transatlântica so Sri Lanka até Londres, a da jovem personagem principal, também da sua vida, do seu crescimento, das suas emoções. Vale a pena.

Entretanto descobri na net o mapa abaixo, um mapa das rotas usadas pela American Express no tempo dos transatlânticos, cerca de 1900. Cada rota é um sonho, uma hipótese de uma ou muitas histórias. E sim, também pensei no Titanic.

Da Imagem da América.

Estava eu a ver o vencedor do Oscar para melhor filme de 1974 (esse grande ano) e logo no princípio há um plano breve e fantástico dos grandes veleiros passando pela Estátua da Liberdade no princípio do Século XX (esse século terrível).

Lembrei-me, porque sim, da Meryl Streep no princípio do "Angels in America", na forma de Rabi, falando das grandes viagens que já não se fazem, dos países "outros" e do país América (esse caos em permanente revolução).

Apercebi-me nesse instante dessa imagem da América como país do movimento, da viagem, da chegada e da partida, do coast to coast, do Monument Valley e dos desfiladeiros de cimento, um país todo feito de outros e do seu viajar. Lembrei-me também do "The Searchers" do John Ford.

E já viram o Benjamin Button? Sim, tem o seu quê de Forrest Gump, mas é mais uma vez um filme da viagem, no tempo e no espaço, com actores no seu melhor momento, com imagens deslumbrantes, com todo um país e a sua imagem como movimento de sedução.

Bom, podia ficar aqui o resto da noite, vamos ser honestos, mas no momento histórico em que Obama chega ao poder, ele também um viajante filho de viajantes, apeteceu-me divagar um pouco por este tema, sem grande destino.