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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Casta Diva

The priestess Norma leads her people in a prayer for piece. Sonya Yoncheva sings the title role in Bellini's masterpiece, with the Royal Opera Chorus and the Orchestra of the Royal Opera House conducted by Antonio Pappano, recorded September 2016. Find out more at http://www.roh.org.uk/norma

Bellini’s bel canto masterpiece Norma had its premiere at La Scala, Milan, on Boxing Day 1831. After a muted initial response the opera quickly became popular, and is now a mainstay of the repertory. Norma is perhaps most acclaimed as a vehicle for the lead soprano, most famously now by such 20th-century greats as Maria Callas, Montserrat Caballé and Joan Sutherland. Indeed, Bellini provides some astonishing vocal fireworks for his title character – most famously ‘Casta diva’, Norma’s Act I hymn to the chaste moon, and Act II’s ‘Dormono entrambi’, as she contemplates the unthinkable act of killing her children. But the opera’s dramatic potency rests in its breathtaking ensembles, most strikingly in Norma’s duets with Pollione and Adalgisa, the Act I trio ‘Vanne, sì: mi lascia, indegno’ and the blistering Act II finale.

This new production of Norma was The Royal Opera’s first in nearly thirty years. Directing is Àlex Ollé, of the Catalan collective La Fura dels Baus, reunited with the creative team behind his acclaimed production of Oedipe. They give Norma a contemporary setting against a backdrop of a cruel civil war, and focus on the opera’s exploration of the conflict between an individual’s own desires and those of her society – and of religion as a force for unity and for destruction.

"Ah, eu rio de me ver tão bela neste espelho..."

Li há uns anos dois livros que me despertaram curiosidade em relação a uma figura que nunca me tinha chamado particular atenção, a da “diva” de palco. O primeiro livro foi “Bel Canto” de Ann Patchett, em que uma estrela da ópera é feita involuntária refém numa embaixada e a sua música acaba por servir de fio condutor dramático a um belo relato das relações humanas e dos seus limites. O segundo foi “In America”, de Susan Sontag, em que a personagem principal é actriz e não cantora, mas para todos os efeitos estamos a falar do mesmo universo.

Quando eu era criança, a imagem que tinha das estrelas de ópera era Bianca Castafiore cantando vezes sem conta a Ária das Jóias do Fausto de  Gounod para atormentar o Capitão Haddock nos livros de Tintin. Lembro-me de ver Elizabeth Schwarzkopf ensinar um jovem a cantar a ária do catálogo do Don Giovanni de Mozart na televisão por essa altura e a imagem parecia-me colar-se perfeitamente ao que tinha em mente: uma senhora de meia idade, nariz no ar e voz poderosa. Hoje a ideia da diva de ópera como matrona foi substituída por uma nova geração de estrelas que em nada ficam a dever às de cinema e televisão.

Um dos mitos sobre a vida de Maria Callas é que quando decidiu emagrecer, perdeu capacidade vocal e a sua carreira definhou. É contudo a imagem de uma Maria Callas elegante ao lado de Onassis que sobrevive nos media e na nossa memória. E parece-me apropriado, visto que a palavra Diva é italiano para Deusa e as Deusas que veneramos hoje em dia são necessariamente elegantes e belas, mais próximas de uma Mimi de La Bohème do que de uma Valquíria de Wagner.

Cecilia Bartoli, Angela Gheorghiu, Natalie Dessay são algumas das divas que hoje preenchem o imaginário e os ouvidos dos amantes de ópera no mundo todo. A Bartoli está frequentemente nos tops explorando a história do género nos seus CDs de luxo, como “Opera Proibita” e “Maria”, uma homenagem à primeira das divas, Maria Malibran. Angela Gheorghiu casou com o brilhante tenor Roberto Alagna e estou certo que fazem duetos maravilhosos em conjunto. Aliás, fiel à imagem da diva caprichosa, Angela foi despedida de uma produção de “La Bohème” por ter faltado a dez ensaios. A justificação? Queria ir a Nova Iorque ver o marido em “Romeu e Julieta“.

O caso que mais me fascina actualmente, contudo, é o de Natalie Dessay. Francesa de nascimento, iniciou a sua carreira antes dos vinte anos, novíssima, se pensarmos que a voz atinge o seu potencial máximo por volta dos trinta e tal anos. Não tem sido uma carreira fácil, contudo, e foi já operada às cordas vocais por duas vezes e por duas vezes regressou triunfalmente. Tem já concertos marcados até... 2014. Já tinha feito um post com a sua brilhante interpretação da ária da Rainha da Noite, da “Flauta Mágica” de Wolfgang Amadeus Mozart, mas podemos vê-la e ouvi-la aqui ao lado em “Glitter and Be Gay”, uma ária da ópera “Candide” de Leonard Bernstein, um dos mais brilhantes compositores do século XX.

Bernstein é dos meus compositores americanos favoritos por via do musical West Side Story, de que foi feita recentemente uma edição comemorativa com a histórica gravação de José Carreras e Kiri Te Kanawa (mais uma diva, neo-zelandesa).

“Candide” é uma ópera baseada no texto de Voltaire e “Glitter and be Gay” é uma ária que só uma virtuosa consegue cantar, pois além de exigir uma voz capaz de notas agudíssimas, exige igualmente técnica respiratória apurada (sobretudo para as gargalhadas) e uma coisa que costuma faltar a muitos cantores de ópera... capacidade para representar, entre a desilusão, o humor e o sarcasmo.
Curiosamente é uma espécie de “Material Girl” no tema e deve ser cantada no meio de jóias, um pouco como a ária com que Castafiore atormentava as restantes personagens de Hergé.