Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

David Mourão-Ferreira - E Por Vezes

E por vezes as noites duram meses 
E por vezes os meses oceanos 
E por vezes os braços que apertamos 
nunca mais são os mesmos   E por vezes 

encontramos de nós em poucos meses 
o que a noite nos fez em muitos anos 
E por vezes fingimos que lembramos 
E por vezes lembramos que por vezes 

ao tomarmos o gosto aos oceanos 
só o sarro das noites   não dos meses 
lá no fundo dos copos encontramos 

E por vezes sorrimos ou choramos 
E por vezes por vezes ah por vezes 
num segundo se evolam tantos anos 

David Mourão-Ferreira - Labirinto Ou Não Foi Nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira - Certidão de Nascimento

Tão regaço estas arcadas
Tão de brinquedo os eléctricos
Vejo a cidade parada
no ano de vinte e sete
Dela por vezes me evado
mas sempre a ela regresso
Bem sei eu que não desato
o cordão com que me aperta
Vejo seus gestos de grávida
medidos cautos imersos
nessa jovem gravidade
que só grávidas conhecem
Que frescor de madrugada
no terror com que me espera
Mães têm sempre a idade
que em sonho os filhos decretam
Recordo melhor a data
Até mesmo a atmosfera
É o dia vinte e quatro
de um mês a tremer de febre
com armas grades e o rasto
de um sangue que nunca seca
Só seis decénios passaram
rápidos como seis séculos
Tão pouco Mas neles cabem
cidade arcadas eléctricos
nesta imensa claridade
irmã gémea do mistério

Ontem começou o Silêncio.

Começou ontem o Festival Silêncio e da melhor maneira, com um São Jorge cheio para ouvir José Mário Branco e Camané, acompanhados por músicos de excepção, Carlos Bica no contrabaixo, José Peixoto na guitarra e Filipe Raposo no piano. A isto se somaram, em voz e imagem, Sophia, David Mourão-Ferreira e Mário Cesariny.

Foi um começo com o pé... bom, o esquerdo, que eu sou canhoto e o José Mário também não me parece que prefira o lado direito. O espectáculo cumpriu a proposta em pleno. "A palavra cantada é filha da música e da poesia, uma filha que ganhou vida própria e autonomia a partir dos genes das suas progenitoras."

Até 25 de Junho, a programação promete, com nomes como Arnaldo Antunes ou Lee Ranaldo.

Aqui abaixo ficam dois do momentos altos da noite de ontem, em versões diferentes. Mas dá para ter ideia.