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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Runner

This captivating short documentary profiles the young Canadian long-distance runner Bruce Kidd at 19 years old. Kidd eventually went on to win a gold and bronze medal at the 1962 Commonwealth Games, and was a competing member of the 1964 Canadian Olympic team. Directed by Don Owen (Nobody Waved Good-bye, Toronto Jazz), the film is luminously photographed by John Spotton and features poetic commentary composed and spoken by the great Anglo-American poet W.H. Auden. The camera follows Kidd’s sprightly movements as he runs on piers, practice tracks, and finally, in an international race. Oblivious to the clapping crowds and the flash of cameras, he knows full well that in the long run it is the cold stopwatch that tells the truth.

 

All visible visibly
Moving things
Spin or swing,
One of the two,
Move, as the limbs
Of a runner do,
To and fro,
Forward and back,
Or, as they swiftly 
Carry him
In orbit go
Round an endless track:
So, everywhere, every
Creature disporting
Itself according
To the law of its making
In the rivals' dance
Of a balanced pair
Or the ring-dance
Round a common centre,
Delights the eye
By its symmetry
As it changes place
Blessing the unchangeable
Absolute rest
Of the space all share

 

The camera's eye
Does not lie
But it cannot show
The life within,
The life of a runner,
Of yours or mine,
That race which is neither
Fast nor slow,
For nothing can ever
Happen twice,
That story which moves
Like music when
Begotten notes
New notes beget
Making the flowing 
Of time a growing
Till what it could be
At last it is,
Where Fate is Freedom,
Grace, and Surprise.

Sobre o futuro da televisão.

O desporto é provavelmente o conteúdo mais 'premium' da televisão e aquele em que a televisão como a conhecemos ainda vai fazendo algum sentido. Qualquer adepto de futebol do Benfica ou do Sporting poderá explicar facilmente o valor do direto no próximo domingo, quando as oito horas da noite se forem aproximando.

Por isso é que este vídeo é uma aula de televisão e do seu futuro. Não passa muito das generalidade, é verdade, mas coloca todas as questões que todos os canais vão ter de enfrentar num futuro mais próximo do que desejavam: digitalização total, alta definição, espaço mobile, redes sociais, múltiplas plataformas de distribuição, tecnologias em cooperação e competição, independências dos operadores, fidelização dos espectadores. Boa sorte.

O futuro foi esta semana.

Sempre achei que os Estados Unidos eram um país onde cabia tudo e isso era a sua principal qualidade e o seu principal defeito. Mas talvez  a palavra 'tudo' revele sempre um preocupante parentesco com a sua deriva para o 'total' e daí a 'totalitário' vai só uma sufixação. Além de que 'tudo' é daquelas palavras que invoca o círculo como forma geométrica e se devora em 'nada' na cauda da serpente.

Estes disparates pretensiosos vêm na sequência de uma série de histórias que, por efeito de uma qualquer gravidade mediática, se parecem ter conluiado nos últimos dias para me fazer perguntar em que estado de facto está esse país do outro lado do Atlântico. A resposta não me interessa particularmente ou antes interessa naquele espaço tendendo para o infinito que vai da realidade à ficção.

Li nos últimos meses alguns livros que informam ou deformam a minha visão: "The Year of the Flood" e "The Handmaid's Tale" de Margaret Atwood, "Nineteen Eighty-Four" de George Orwell, "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, "The Flame Alphabet" de Ben Marcus, "Kingdom Come" de J.G. Ballard, além das histórias de Donald Barthelme e George Saunders e, num registo mais pulp, Guillermo Del Toro com Chuck Hogan e Justin Cronin. Uma boa dose de distopia. Estou certo que se já tivesse lido o "Brave New World" do Huxley, este post seria mais inteligente, mas continua numa pilha à espera de vez.

No princípio da semana vi imagens do que rodeia a Super Bowl, o momento mais visto e mais caro da televisão americana. Não vi nada do desporto mas é mais ou menos como os americanos gostam: disparos de adrenalina alternados com pausas para publicidade - e na publicidade, muita tecnologia, muito entretenimento e até alguma meta-publicidade (ah, somos um anúncio a brincar aos anúncios).

Chamou-me mais a atenção o momento do hino antes do jogo e as suas componentes: uma cantora de ópera, um género claramente no fundo do balde do gosto musical americano mas que fica bem como jóia decorativa (Renée Fleming, que muito aprecio - na foto); uma marching band militar; uma bandeira americana gigante esticada sobre o relvado; dezenas de milhares nas bancadas inchados de patriotismo; fogo de artifício; ecrãs, muitos ecrãs, ecrãs muito grandes; depoimentos de tropas nos ditos ecrãs e na emissão; para fechar, caças e helicópteros de combate sobrevoando o estádio. O estádio tem o nome de uma companhia de seguros, a MetLife, e fica em New Jersey, a 'outra banda' de Nova Iorque, a babilónia americana. New Jersey, estado nativo de Frank Sinatra e Tony Soprano. E o Seinfeld reencontrou o George Constanza no intervalo. Bom, estão a ver a coisa.

 

 

Nem vou sequer entrar na polémica sobre o anúncio da Coca-Cola com o 'outro' hino americano, "America The Beautiful", fala por si.

Hoje, vi uma notícia sobre Jesse Ventura que foi wrestler profissional e depois governador do Minnesota ("Only in America!" como diz Al Pacino no "Angels in America" de Tony Kushner). Jesse Ventura agora vive no México e diz que o faz porque se quer manter fora da rede (da matriz, se quiserem) e garantir que "os drones não o encontram". Nesta era pós-Snowden nada disto nos parece particularmente paranóico, se pensarmos uns segundos. A parte divertida é que o senhor tem um programa de televisão chamado precisamente "Off The Grid". Fora. Mas dentro. Na televisão. E a lógica deu um nó.

A tudo isto apetece-me acrescentar que a Google anda a comprar empresas de inteligência artificial depois de ter comprado empresas de robótica e de automação doméstica. Skynet, anyone? E como é natural, a concorrência não anda a dormir e o Facebook até faz dez anos e devolve-nos a nossa vida em vídeo na melhor veia nostálgica delicodoce.

Acho que se qualquer um dos autores ali acima quisesse descrever uma sociedade vivendo numa espécie de distopia eufórica, totalmente tomada pela tecnologia, devorada pela vontade de não ter memória ou permanentemente modificá-la, dominada pelo desejo absurdo de entretenimento e de consumo, não encontraria melhor que a sociedade americana contemporânea. Acho que o momento merece uma pausa para ouvir Laurie Anderson.

 

 

No fim disto tudo lembrei-me que William Gibson, meu autor de ficção científica de eleição, deixou há uns anos por opção de escrever livros passados no futuro para se dedicar ao presente. Até porque o presente é neste momento claramente uma espécie de futuro bizarro. Haverá outro motivo para termos cientistas a procurar viajantes no tempo na Internet?

O prazer do esforço

Esta é provavelmente a minha favorita das fotografias de mergulhadores nos Campeonatos do Mundo em Xangai. A série foi publicada no Telegraph e se na maior parte documenta a agonia do esforço de alta competição, aqui parece haver quase um prazer, quase um descanso. O mergulhador em questão é Sergej Baziuk da Lituânia e a fotografia é de Ezra Shaw, trabalhando para a Getty Images.

O Críquete.

Há coisa de dez anos entrei num Pub com o Frank Boyd, um amigo inglês, e num ecrã gigante ao fundo estava a ser projectado um jogo de críquete. Era o fim da tarde e todas as caras no local estavam fixadas na acção que, para mim, era um total enigma. Homens vestidos de branco, de equipas para mim indistintas, atarefavam-se num relvado impecável.

Perguntei ao Frank se me conseguiria finalmente explicar aquele jogo com pontuações centenárias, jogos cuja duração eu não conseguia perceber e equipas quase exclusivamente reduzidas ao mundo da Commonwealth. Ele riu-se e disse-me que era impossível de explicar, era preciso ter nascido com o desporto, tê-lo seguido desde sempre para o perceber.

Sendo adepto de desportos de regras relativamente simples (se bem que nem sempre bem cumpridas) como o futebol, invejei o lado iniciático daquela espécie de basebol mais terreno, mais campestre. Mesmo o basebol é para mim bastante incompreensível, percebo apenas que tem aquele ritmo muito americano de momentos de acção frenética alternando com esperas para consumo de comida e bebida.

Vem isto a propósito de andar a ler o "Netherland" do Joseph O'Neill (capa aqui ao lado) em que precisamente o críquete atravessa o romance como uma alegoria desse sentimento muito americano de ser uma terra numa terra estranha e, mesmo assim, ansiar por uma pertença total a um sonho de miscigenação. O que é brilhante no O'Neill (e parece de repente que tenho uma predilecção por autores com este apelido) é como, mesmo para o leigo no críquete, esta alegoria passa inteira numa escrita também ela muito americana.

Diz-me o blog da LER que o livro será publicado em português lá para depois do Verão. Longa se torna a espera.