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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Generation A - Douglas Coupland

Se eu não gostasse do Douglas Coupland, podia dizer que ele era uma espécie de Paulo Coelho para licenciados com a mania, capazes de digerir um sem-número de referências culturais pop por minuto e de dormir mais descansados ao identificarem-se com a tendência alegórica que a sua escrita sempre teve. Se eu não gostasse realmente dele, diria que o facto de o seu último romance "Generation A" se situar algures num futuro próximo, acentuou essa tendência para a parábola pretensiosa, ao desligar-nos da percepção precisa do nosso presente a que nos habituou para reforçar o lado simbólico com uns pós de futurismo ficcionado.

A questão é que eu gosto dele e embora possa admitir que ele caminha por vezes perigosamente na fronteira do acima descrito, não chega a realmente ultrapassá-la.

Como um bom escritor de ficção científica, política, social que percebe que o nosso presente é cada vez mais difuso, Coupland avança-nos uns anos no futuro, para uma sociedade que se limita a acentuar tendências actuais. Esse acentuar, contudo, parece-nos fazer resvalar para um abismo sem retorno possível. Reconhecemo-nos nesse futuro, mas percebemos que fomos mais longe do que desejávamos. Esse pessimismo subjacente é sem dúvida o mais interessante no livro, mas tentar resolvê-lo é talvez precipitado.

Não estou certo se não há uma dose de nostalgia tendendo para um optimismo pouco fundamentado no desenlace do enredo, à volta da fogueira, à volta de histórias, um pouco neo-tribal-narrativo.

Logo se vê.

Voltou a acontecer.

Voltou a acontecer. Estou a ler quatro livros ao mesmo tempo. A saber, "The Complete Plays" de Sarah Kane, "Journeying Boy - The Diaries of the Young Benjamin Britten 1928-1938", seleccionados e editados por John Evans, "A Single Man" de Christopher Isherwood" e "Generation A" de Douglas Coupland.

É claro que são leituras muito diferentes e por isso compatíveis em momentos diversos do tempo livre que tenho.

As peças de Kane são uma descoberta e um choque (obviamente). Devo a sua descoberta a este post da Poesia Incompleta e a porta que ele abriu revelou uma violência visceral que ainda ando a explorar entre o fascínio e o medo. O tema da violência e da sua relação com a humanidade em nós seguirá um destes dias com um volume do senhor William T. Vollmann que me espera na estante.

Quanto aos diários de Britten, são deliciosos. Comecei por folhear ao de leve, li uma, outra entrada, depois alguns dias seguidos, na escola, com os pais, em Londres, com Auden e demais notáveis, criticando compositores e intérpretes contemporâneos, agarrado à BBC, passeando, conversando, compondo, tomando chá e comecei a viajar, a querer viajar. Vão ser muitas horas de prazer, explorar assim, intimamente, dez anos da vida de um génio musical em formação.

Christopher Isherwood, curiosamente, aparece referido amiúde em determinada fase dos diários de Britten. Isherwood viveu aliás em quase todo o lado, incluindo Sintra e Berlim ("cabaret, anyone?"). "A Single Man" foi tornado filme por Tom Ford e há-de estrear um destes dias, abunda em mim a curiosidade. Enquanto isso não acontece, vou descobrindo esse inglês viúvo na Califórnia do princípio dos anos 60.

Douglas Coupland é uma paixão literária antiga que me chega do início da vida adulta e a ele finalmente volto depois de algum tempo de ausência, num romance que nos coloca alguns anos no futuro, estratégia que muito tenho apreciado em outros autores (Kazuo Ishiguro, William Gibson, David Mitchell e Michael Cunningham, para citar alguns), como forma de explorar a velocidade do presente sem entrar deliberadamente no universo da ficção científica. E começa de uma forma deliciosa:

 

How can we be alive and not wonder about the stories we use to knit together this place we call the world?

Douglas Coupland.

Não li (ainda) o "JPod", mas li os outros todos. Pode, por isso, dizer-se que sou fã de Douglas Coupland (aqui ao lado), desde que lhe conheço as obras. A "Geração X" disse-me muito, embora eu seja já meio Y, mas aquele de que guardo melhores memórias continua a ser "A Vida Depois de Deus". Agora, Coupland atira-se de novo às gerações, com o novíssimo "Generation A".

A propósito disso, o The Guardian entrevistou-o e foi-lhe fazendo um perfil pelo caminho. Vale a pena ler o texto todo, mas tomem lá uma citação que muito me agradou: "I like it that people are smarter, that every-one can find facts quicker, and it does make people more interesting. But what happens – and this is the thing I'm not really sure about – when it comes to the point where people don't actually do anything any more? They just cut and paste from things that happened in the past. You can't download getting your hands dirty. Younger people don't think that way, they wouldn't mourn the passing of a manual universe – it's just ridiculous to even think about for them – so they'll miss something you and I have experienced. But they'll have something else they've experienced too, so, um . . ." He tails away, lost in thought. "You've got me in this loop now, about whether I should be moral about being amoral – which is the crisis of modernism in one sentence."

E pronto, já estou entre três gerações, a X, a Y e a A, mas o livro já vem a caminho.