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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Ready Player One.

 

Acabei de ler este fim de semana, "Ready Player One", o primeiro romance de Ernest Cline. Cline é o argumentista de "Fanboys", o filme-homenagem-loucura-de-fã dedicado à saga Star Wars de George Lucas. Cline é também o orgulhoso dono de um DeLorean igual ao de Back To The Future de Robert Zemeckis, com flux capacitor e tudo, uns toques de carrinha de Ghostbusters e as luzes o KITT da série Knight Rider. Está tudo neste site. Chega de referências à cultura pop do final do século passado? Não. Vai mais uma musiquinha? Sim.

 

 

Vamos ao livro, então. Há muito tempo que não lia um romance de ficção científica, mas "Ready Player One" é mais do que isso, é uma exploração extremada de alguns elementos da cultura pop do final do século XX. O romance começa em 2044, com a morte de uma personagem nascido em 1972, ano do meu nascimento. Uma personagem que passou, tal como eu, a infância, a adolescência e parte da idade adulta a absorver o auge da cultura mediática e tecnológica que demorou todo o século a triunfar e a descobrir os seus limites (?).

Estamos a falar de cinema, mas ainda mais de televisão, de música também, de livros (embora com referências mais raras), mas mais do que de tudo isto, de videojogos. Todo o romance é construído aliás como um videojogo. O que não é mau, é bom. Diga-se que sempre me fez impressão aqueles críticos de cinema que criticavam argumentos de filmes dizendo "é simplista, está construído como um videojogo". Há quanto tempo não jogam um jogo? Alguma vez jogaram? Mas sim, se calhar o monomito é simplista.

Ernest Cline constroi uma distopia verosímil, que nos interroga, desenhada como um exagero dos traços correntes de um mundo totalmente mediatizado, virtualizado, alienado. Na boa tradição da ficção científica e em particular do cyberpunk, faz as suas personagens circular entre real e virtual, envolvendo-nos num fetichismo tecnológico fácil de reconhecer. E tudo isto num contexto político que confronta heróis solitários com megacorporações fascistas. A tecnologia que prende, também pode libertar. Mas isso se calhar é só otimismo. Só um exemplo: em vez de servos da gleba, há servos do call center. Soa familiar?

Este texto está a ficar muito sério. Pausa musical.

 

 

Bom, então o que se passa com este livro construído como um jogo é que está também construído como um bom romance de aventuras e como uma boa adaptação a filme (a Warner já comprou os direitos). As personagens evoluem, embora de forma por vezes previsível, os "maus" são realmente maus e conseguem surpreender-nos na sua maldade. Não há particulares subtilezas psicológicas, mas há uma perfeita noção de ritmo, o fator de reconhecimento, o prazer da leitura. E isso chegou-me. Aconselho. E estou em boa companhia.