Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Em defesa do aborrecimento.

 

Sou um adepto da contemplação, não no sentido espiritual ou místico do termo, mas no mais prático possível. Quando estive em Londres no Verão, os melhores momentos foram aqueles em que me limitei a sentar e olhar, observar, ver passar, momentos que para muitos seriam descritos como aborrecimento. Espero repetir a dose em breve.

Ando aliás a ler um livro bastante interessante que tem como premissa de base essa defesa do boring como terreno de onde nasce a acção. Não é novidade, mas é interessante na mesma. Até onde é levada essa premissa não sei, digo alguma coisa quando chegar ao fim, mas a violência como contraponto do aborrecimento não augura nada de bom, até agora. Chama-se "The Canal" e é de um estreante de nome Lee Rourke. Esta crítica dá uma ideia do que é.

A isto some-se um artigo que descobri no New York Times sobre a relação cada vez mais difícil entre Ensino e Tecnologia. Eu sei que defendi como Ideia Perigosa, transformar as escolas em media, mas lá está, acho uma ideia perigosa, nada simples, totalmente sujeita a debate. Do tal artigo do New York Times, destaco, por isso três parágrafos:

"Downtime is to the brain what sleep is to the body," said Dr. Rich of Harvard Medical School. "But kids are in a constant mode of stimulation."

"The headline is: bring back boredom," added Dr. Rich, who last month gave a speech to the American Academy of Pediatrics entitled, "Finding Huck Finn: Reclaiming Childhood from the River of Electronic Screens."

Dr. Rich said in an interview that he was not suggesting young people should toss out their devices, but rather that they embrace a more balanced approach to what he said were powerful tools necessary to compete and succeed in modern life.

Ah, Huck Finn... Ah, poder só estar sentado na relva, deitado na relva a deixar passar o tempo. Como diz o Ferreira Gullar, "a miúda algazarra da relva". Já agora, a fotografia acima é de Nicholas Hughes.

Tive uma ideia perigosa...

 

Nem sequer foi uma ideia nova, é a mesma ideia que ando a ter há anos, sob variadíssimas formas. Já teve várias manifestações teóricas e práticas no meu trabalho, mas a última delas, foi parar ao livro "Ideias Perigosas Para Portugal - Propostas Que Se Arriscam A Salvar O País". O subtítulo parece-me pecar por excesso de ambição, mas acontece por vezes, com as frases que vão parar a capas. A coordenação foi do João Caraça e do Gustavo Cardoso, que tiveram a amabilidade de me convidar para contribuir.

 

No livro a ideia que apresentei assumiu um título diferente, mas o texto era o que está abaixo. Ontem, no P2 do Público, li um título que dizia "A Escola Mata a Criatividade". Como não podia discordar mais e como a minha experiência está distante de ser essa, achei que hoje era o dia para passar das palavras aos actos e publicar a minha ideia perigosa na Internet. Ei-la aqui abaixo:

Transformar as Escolas Em Media

A Turma.

Fui aluno durante dezasseis anos consecutivos, segundo os nomes que tinham na altura, da primária, da preparatória, da secundária, da universidade. Antes disso andei em jardim-escola, depois ainda passei uns dois anos em torno da universidade. Mais tarde ainda dei umas aulas numa pós-graduação e pelo meio algumas apenas como convidado.

Fui delegado de turma, representante no conselho pedagógico, convivi com alguns dos meus professores fora da escola (depois de terem sido meus professores), ajudei a criar um jornal escolar, participei em numerosas campanhas para a Associação de Estudantes (nunca ganhei) e ajudei a organizar algumas festas.

Os meus pais são ambos professores, hoje reformados já, desiludidos talvez, mas sempre empenhados e desde sempre, à mesa de jantar e depois, nos convívios familiares de Natal (onde havia sempre pelo menos mais um ou dois professores), que me lembro de ouvir falar do ensino, da escola, dos alunos, do que se passa dentro e fora das paredes daqueles edifícios.

Ver "A Turma", premiado em Cannes com a Palma de Ouro, foi por isso para mim, mais do que uma simples experiência cinematográfica, também uma experiência de memória, uma experiência de recordação racional, emocional, física até por vezes, do que é uma sala de aula, um recreio, um professor, cerca de trinta alunos.

O filme retrata de forma sublime, a tensão do ensino e da aprendizagem, do castigo e da recompensa, da autoridade e da rebeldia, da dúvida, do sentido de missão e dos seus limites, da dinâmica dos grupos e da pulsão dos indivíduos. Nunca se torna meloso ou simples, nunca reforça aquilo que é óbvio no ecrã com efeitos visuais ou sonoros, com música, câmaras lentas, irrequietudes. Tem um lado mais do que assumido de "vérité".

E contudo, conta uma história, conta várias histórias, tem uma dinâmica narrativa brilhante, faz-nos sentir aquelas personagens, torcer por elas, mesmo quando nem para elas nem para nós seja evidente qual poderia ser o caminho "certo". E também nisso nos envolve como cúmplices participantes desse lugar, desse período que, pessoalmente o repito, é dos mais importantes de qualquer vida.

Obrigado.