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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Eucanaã Ferraz - Quando Eu Morrer

Pai, quando eu morrer,
ficarei rosa como uma menina
(você não deve ralhar ou querer que eu minta
porque tudo será exato, sem mesmo carecer de ensaio).

Quando eu morrer sou tranqüilo
como um príncipe que beijasse 
a boca do nada (você vai achar bonito
esse quadro de tintas longínquas).

Pensarão que sou uma menina, um barco,
um pombo. Todo o meu doce virá à tona.
Veja pai, sou um mineral,
intacto e sem passado.

Eucanaã Ferraz - Romântico (For H.)

Amar noutro mundo
que não este. 
Poder equilibrar – perfeito – 
um prato sobre um alfinete.
Equilibrar um livro, uma casa,
sobre um alfinete.
Outro mundo. Sua maquete:
palavra e cavalete.
Outro: este, mas
em falsete. Sete vezes
mais belo, mil mais leve.
Setecentos o mesmo gesto – amar – 
e, no entanto, não se complete. 
Um rio que se repetisse,
um Tibete ameno, translúcido – e seu fundo, 
em que não se chegasse, 
era jamais a morte.

Eucanaã Ferraz - Um Fio de Luz...

Um fio de luz:
tesoura que baste
para tornar nítido
o que

sobre a cômoda,
sobre a mesa:
um lápis, uma pera,
um cálice,

que nossos olhos
podem anotar
sem complicação,
sem gula ou fastio.

Mesmo da morte a repentina 
ternura, se vista de tal modo:
num vaso, haste, pétala
que cede.

Sobre a cômoda, sobre a mesa,
belezas que um nosso gesto
pode anexar ao peito
sem grande peso.

Ou, ainda, o peso nenhum
de quando nenhum atavio:
tábua 
sem nada em cima.