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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Ezra.

"I'm queer. I have a lot of really wonderful friends who are of very different sexes and genders. I am very much in love with no one in particular. I've been trying to figure out relationships, you know? I don't know if it's responsible for kids of my age to be so aggressively pursuing monogamous binds, because I don't think we're ready for them. The romanticism within our culture dictates that that's what you're supposed to be looking for. Then [when] we find what we think is love -- even if it is love -- we do not yet have the tools. I do feel that it's possible to be at this age unintentionally hurtful, just by being irresponsible -- which is fine. I'm super down with being irresponsible. I'm just trying to make sure my lack of responsibility no longer hurts people. That's where I'm at in the boyfriend/girlfriend/zefriend type of question."

in OUT Magazine

We need to talk about Ezra Miller.

É o próprio Ezra Miller que confessa gostar de personagens difíceis e complexas onde a maldade parece borbulhar. É só procurar as entrevistas sobre o seu papel em "We Need To Talk About Kevin" de Lynne Ramsay, onde contracena com uma brilhante Tilda Swinton e um John C. Reilly que me lembra o papel que desempenhou no "The Hours".

Que se danem os óscares e aquela exploração nostálgica do cinema, de costas para o futuro, suspirando pelo passado. Filmes como este sacodem-me muito mais que os nomeados, os premiados e os restantes frequentadores da cerimónia. Todas as imagens têm intenção e profundidade, na cor, na luz, na composição, os vermelhos, aquela casa vazia, mesmo quando habitada, aquele país desconexo e anómico. Todos os atores estão num patamar de inspiração superlativo e é mesmo provável que, depois do seu papel em "Afterschool", Ezra Miller seja dos adolescentes mais assustadores da história do cinema, em cada olhar, borbulha, cicatriz, corpo magro relaxado na certeza da sua crueldade. Talvez apenas no fim... Faz dezanove anos em abril.

Aqui abaixo o trailer e a música do final, "Mother's Last Word To Her Son" de Washingotn Phillips, 1927.

 

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Afterschool - O anti-Clube dos Poetas Mortos.

Em 1989, estava eu ainda a um ano de entrar na faculdade, estreava um daqueles filmes inspiradores sobre o poder da liberdade na educação, na literatura, um feel good movie, um coming of age movie de nome "Clube dos Poetas Mortos". Era servido por um excelente Robin Williams e por uns aprendizes de nome Ethan Hawke e Robert Sean Leonard.

O contexto era o mesmo de "Afterschool", longa metragem de estreia de Antonio Campos, um colégio interno algures na costa leste dos Estados Unidos, povoado sobretudo por filhos de famílias ricas ou famílias sacrificadas para que os filhos tivessem as melhores oportunidades, as melhores companhias, eventualmente a melhor educação, de um determinado ponto de vista.

Nesse sentido, são filmes radicalmente diferentes das explorações da adolescência de Larry Clark ou de Gus Van Sant, mais urbanos, mais classe média, mas as afinidades do filme de Campos são muito maiores com estes do que com aquele. O colégio de Bryton, onde Campos situa a acção é da mesma natureza moderna da escola do "Elephant" de Van Sant e os seus alunos são mais os adolescentes típicos de Clark, num mundo de sexo, violência, drogas e tecnologia.

Formalmente, Campos explora o ritmo de Van Sant mas leva-o mais longe, trabalhando o fora-de-campo, o desenquadramento, o foco, a textura do vídeo no telemóvel ou na webcam, a plasticidade da imagem que desenha a radical alienação da adolescência perante o mundo dos adultos. Se esta separação foi sempre o que definiu a adolescência, neste universo claustrofóbico ela acentua-se. Os professores e os adultos são "outros", sempre "outros", tontos, perdidos, desinteressados.

É nos limites da experiência que podem surgir filmes como este, que nos interrogam a força de soco no estômago disfarçado de lentos travellings sobre a paisagem, mas apeteceu-me ir ver de novo o "Clube dos Poetas Mortos", só para tentar descobrir se ainda há um ponto de equilíbrio possível entre tese e antítese.

Seja como for, o senhor Campos promete, tem uma visão própria e fulgurante do que é o seu cinema e deixa-me com vontade de mais.

Trailer abaixo.