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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Chopin Evocations

Daniil Trifonov stands for virtuosity, musical poetry and evocative power. He is the world’s top young pianist today - and the music of Chopin is close to his heart.

His new album "Chopin Evocations" is one of the most exciting recordings of 2017: two-and-a-half hours of music uniting Chopin's two beautiful piano concertos with Chopin solo works and pieces by Mompou, Schumann, Tchaikovsky, Grieg and Barber paying homage to the genius Chopin who, in Trifonov's words, "revolutionized the expressive horizons of the piano."

Música Calada.

Lembrei-me de repente que no Regresso a Barcelona existe um Cafe Mompou que tem esse nome em honra ao compositor catalão Frederico Mompou, compositor da série Musica Callada de que o Bernardo Sassetti toca o nº 1 no Nocturno, primeiro numa versão em trio e depois a solo.

No livro, o Café Mompou cruza-se de alguma forma com o Café Muller da Pina Bausch e com a Traviata. Invenções. Comprei depois um CD só com a música de Mompou, tocada por Javier Perianes, mas foi por causa do Sassetti que o café ficou com esse nome.

Aliás quando sugeri uma banda sonora para Em Silêncio, Amor, já lá estavam o Mompou e o Sassetti.

Aqui abaixo, uma curta dirigida por Mike Lubik inspirada por essa mesma composição. Toca Jenny Lin. Ainda por cima começa num cemitério.

 

Café Muller e Traviata

No "Regresso a Barcelona" criei uma encenação imaginária para "La Traviata" de Verdi. Sonhei que todo o primeiro acto se poderia passar num cenário algures entre o Kit Kat Club do "Cabaret" e o Café Muller da Pina Bausch (aqui ao lado em vídeo). Passo a transcrever:

No Liceu, o pano sobe aos primeiros acordes sobre um estrado no meio do palco, cercado de almofadas enormes, quase uma cama, quase um sofá de veludo vermelho. De cima incide um foco único. Em volta, um sem número de mesas e cadeiras, como se estivéssemos num cabaret. No tampo de cada mesa um candeeiro ilumina um ou dois membros do coro. Ao fundo à esquerda, um bar todo em tons de um azul nocturno e subtil. Do lado direito, uma porta rotativa para além da qual parece piscar um néon. Lembra-me o Café Muller, mas as mesas e cadeiras são exactamente iguais à do Café Mompou, onde passei a tarde. Ikea? Alfredo vira-se para mim, nesse instante de reconhecimento, e os nossos olhares cruzam-se em silêncio.
Quando volto a olhar, um novo quadrado de luz se abriu, em cima, numa janela. Clara num camarim, sentada a uma mesa de maquilhagem. Parece tossir para um lenço feito bola numa mão. Antes da abertura terminar, desapareceu. Todo o café se ilumina e agita, gente levanta-se e encaminha-se para o bar, outros entram fazendo girar a porta, ela própria uma dança de luz. A animação acompanha a música e todos cantam,
Dell'invito Trascorsa È Già L'ora. Clara surge enfim de novo, no pequeno palco, envergando um vestido comprido de lantejoulas vermelhas, luvas brancas acima do cotovelo, pestanas ainda mais longas do que as lembro, olhar sedutor.

Todo o primeiro acto decorre naquele cabaret, o Barão é o mestre de cerimónias e para além dos clientes, também os empregados circulando com bebidas cantam, declaram a sua paixão pelo álcool, brindam ao prazer, rodopiam em festa. Clara vai roçando uma camélia branca de rosto em rosto, enquanto passeia entre as mesas, provoca o desejo de todos, mas é Alfredo Germont quem com ela fica por fim, saindo feliz para o que imaginamos seja uma rua nocturna. Bebo mais um gole de whisky. Conto umas dezenas de pessoas em cena, mas só uma me agarra a atenção.

Banda Sonora para "Em Silêncio, Amor"

Sempre acreditei na porosidade das fronteiras que separam as artes e nunca escrevi sem imaginar as imagens acompanhando as palavras ou a banda sonora que poderia complementá-las.

Para além disto, a música sempre desempenhou um papel fundamental na minha vida, acompanhando-me em todos os momentos e sempre tentei manter os meus horizontes musicais o mais amplos possível.

Por tudo isto e alguns motivos íntimos (apenas discerníveis nas rodas dentadas invisíveis da escrita), a música sempre teve lugar de privilégio na minha escrita, começando por "Aquariofilia", em que a personagem principal é DJ, acabando em "Em Silêncio, Amor", onda a música e o silêncio são quase personagens adicionais na espiral narrativa.

Proponho, assim, do lado esquerdo deste blog, uma banda sonora possível para o livro. Obrigado ao Bruno, que me ajudou nas entranhas técnicas da coisa e alojou o som propriamente dito.

Algumas notas sobre cada faixa:

1 - Frederic (Frederico) Mompou - Musica Callada I - A primeira das variações da "música silenciosa" deste compositor catalão, um piano quase em silêncio, como seria de esperar a abrir esta banda sonora. Toca Javier Perianes.

2 - Bernardo Sassetti - Never Let Me Go - Além da canção ser genial e da interpretação em piano solo de Sassetti ser deliciosamente melancólica, dá o título a um livro perturbante de Kazuo Ishiguro do mesmo nome que li com uma mistura de angústia e prazer sobre as verdadeiras naturezas da amizade e da humanidade.

3 - Johann Sebastian Bach - Partita No. 2 - Sarabande - A Sarabanda que não sai da cabeça de Tom, no livro, interpretada aqui pelo talentoso Cedric Tiberghien, depois de, durante a escrita, me ter acompanhado na versão de Martha Argerich.

4 - Joseph Haydn - Sonata No. 53 - Adagio - O Adagio de uma das chamadas Bossler Sonatas de Haydn, interpretada ao fortepiano por Ronald Brautigam.

5 - Schubert/Liszt - Gretchen Am Spinnrade - Canção da autoria de Schubert a partir do "Fausto" de Goethe, escrita em 1814, que Liszt "reduz" para piano e é interpretada por Domingos António.

6 - Bernardo Sassetti - Alice - Capítulo II - Noite (II) - O assombroso tema que Sassetti compôs para a banda sonora do filme "Alice" de Marco Martins. É outra Alice? A mesma Alice? Que país das maravilhas é aquele subúrbio? Qualquer cidade...

7 - Tom Waits - Alice - Esta é a Alice de Carroll, na versão de Waits e de Bob Wilson, no espectáculo que passou pelo CCB e anos mais tarde viu a sua banda sonora editada em CD. É a voz de Tom Waits que se ouve, quando Thomas Wartet (piscadela de olho) entra na Livraria Branquinho.

8 - Jeff Buckley - Hallelujah - Muitos tentaram encontrar outro registo que não o coral-anos-80, para esta canção de Leonard Cohen, que mistura em poesia, um pouco de tudo o que nos faz humanos. Acredito que nenhum o fez melhor do que o precocemente falecido Buckley. Dá nome a um capítulo.

9 - Smog - Rock Bottom Riser - Smog é um dos projectos do singer songwriter Bill Callahan e o disco "A River Ain't Too Much to Love" um dos mais belos que ouvi. É de lá, esta canção.

10 - Arcade Fire - Ocean of Noise - É a minha favorita do segundo album e traz na sua letra o que parece ser o começo de uma história. Esta? "In an ocean of noise, I first heard your voice".

11 - The National - City Middle - É-me difícil escolher uma canção dos The National, mas esta começa com "Karen take me to the nearest famous city middle..." Vem desta letra, o nome de Karen Bechstein.

12 - Simon and Garfunkel - The Only Living Boy In New York - Apesar de sempre ter sido fã destes dois, a eles voltei por via dos Everything But The Girl e dos Kings of Convenience. Foi então que reparei que a letra começava com "Tom, take your plane right on time..."

13 - Zbignew Preisner - To See More - Tocada por Leszek Mozdzer, esta é uma das Ten Easy Pieces for Piano de Zbignew Preisner, compositor polaco que ganhou fama nas bandas sonoras geniais dos filmes de Krzysztof Kieslowski.

14 - Frederic Chopin - Balada No. 1 Op. 23 em Fá Menor - E ainda outro polaco, com Krystian Zimerman ao piano.

15 - Serguei Rachmaninov - Prelúdio No. 2 em Si Bemol Maior, dos Dez Prelúdios Opus 23. A fúria romântica dos russos, pelas mãos de Boris Berezovsky.

16 - Orlando Gibbons - "Lord Of Salisbury" Pavan and Galliard - Glenn Gould toca aquela que, segundo disse e creio que apenas uma vez, era a sua composição favorita para piano. A gravação é de 1971.

17 - Bernardo Sassetti - Musica Callada I / Piano Solo - Perdoem-me a insistência em Sassetti, mas aqui ainda por cima, voltamos ao princípio, à Musica Callada de Mompou, que tão brilhantemente resume a música que sinto atravessando esta história.