Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Fernando Costa - Auto

Sou-me num ser impossível
Como se fosse outro alguém
Talvez por saber com certeza
Que ser eu é só isto
Sem antes, depois, entretanto
Sem espanto e sem querer
Talvez se me soubesse antes de ser
Não seria
Mas sou e vou
Por ir
Subo sempre de olhos na descida
Em frente sem perder a cauda do olhar
Falo da forma correta
Como quem não sabe o que diz
Porque eu só sou, e sou só
Isto,
Eu

Fernando Costa - Exorcismo

Uma urgência sufocante de desfazer o nevoeiro
De atar as horas com cordas e viver um dia inteiro
Desenhar o caminho para fora do bosque
Usando apenas rascunhos das tuas pegadas
Uma banda-sonora transversal aos sonhos
Acutilante que nem realidade
Confortante que nem tristeza em tenra idade

 

Uma corda bamba de cinzento
Precipícios de preto e branco
Maratonista de passo lento
Corpo arde em lume brando

 

Um frio que vem de dentro, que não abranda ao Sol
Um acordar no hipocentro, cego que nem olhar de mongol
Um morrer de amor por tudo o que não parece ser justo amar
Um calar...

 

um levantar, e recomeçar.

 

Balançar o mundo num só levantar de cabeça
Largar o corpo das nuvens,
Mergulhar que nem pedra que afunda
Só até que o céu desapareça
(Só até que o céu desapareça)

 

Um dormir acordado, uma oração para sonhar
Uma ode em jeito de afronta, um tentar não largar
Uma mão que nos serve de chão, e teto e estrada
Um mundo cheio e dois olhos que não tocam em nada

Fernando Costa - Rascunho #8 (Mais Atrás)

Não é preguiça,
É falta de razão
Não é sinal de luz
É dar de intenção
Não é hora de partir
É não ter porque ficar
Não é um momento de silêncio
É calar.


Não é desleixo
É só um dia menos bom
Não é um direito
Mas há que tentar mudar o tom
Não é esperar
Que esperar é morrer
É dar mais que o corpo
E não querer desaparecer


Não é só um degrau
Para quem rastejar
Não é mais do que um dia
Para quem viver a contar
Não é só uma afronta
Se for eleito por quem o diz
Não é caminho direto ao fundo
Se houver razão para ser feliz

Fernando Costa - Dor Fantasma

Ainda me dóis como membro fantasma
Ainda te sinto como se estivesses aqui
Ainda faço incêndios das beatas
E sento, no centro, a vê-los espalhar

 

Ainda guardo o mundo debaixo do meu chapéu
Ainda falho o alvo quando forço o tentar
Ainda me escondo quando a chuva me bate
E ainda fico a ver o monstro tentar entrar

 

Ainda escrevo a cinzento meus sonhos
Com medo de os eternizar
Ainda carrego a nuvem chuvosa às costas
Ainda teimo em precipitar

 

Ainda construo pontes, de olhos pelo ombro
E sei que constrois as tuas de olhos em frente
Ainda penso que não valem de nada
Se as construimos em rios diferentes

Fernando Costa - Rascunho #7 ( "d'Homem")

É quase perto
Uma visão caleidoscópica

 

Somos que nem simulacro de chuva
Num mar já farto de gente
Temos pressa de presa,
Pernas de cadeira a quebrar,
Temos rugido de leão faminto
E unhas demasiado roídas para caçar

 

Rasgamos invólucros
Com a urgência de quem quer ver mais dentro
Amordaçamos o tempo
E guardámo-lo em restos na garganta
Fazemos do hábito a satisfação
E espalhamos ao vento o valor da intenção

 

Não sei se é mais de Homem
Pintar-me o corpo em cores de diferentes
Ou rever-me a cara na tua

 

Não sei se é mais de Homem
Lamber-te o chão, que me ofereceste como cama
Ou embrulhar-me num pedaço de rua

Fernando Costa - Deixa Chover

Deixa-me ir assim
Devagar como a chuva que bate
Em vão, como todo o debate
Sobre mim
Deixa-me olhar o espelho
E esperar pelo fim com medo
Porque alguém guarda o amanhã
Em segredo

 

Deixa-me ir assim
Em silêncio como o que sabe bem
A deambular como quando se é ninguém
Algures em nós
Deixa-me querer algo mais
Já que o vento é uma voz
E há conforto em estarmos sós
É um segredo

 

Deixa-me ir assim
Mas deixa-me algum dia voltar
Porque a distância é um punhal
E a ansiedade é um silêncio sepulcral
Que aperta
Deixa chover

 

Mais, aqui.