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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Ode Triunfal

À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica

Tenho febre e escrevo.

Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,

Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.

 

Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!

Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!

Em fúria fora e dentro de mim,

Por todos os meus nervos dissecados fora,

Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!

Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,

De vos ouvir demasiadamente de perto,

E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso

De expressão de todas as minhas sensações,

Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!

 

Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —

Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —

Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,

Porque o presente é todo o passado e todo o futuro

E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas

Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,

E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,

Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,

Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,

Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,

Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.

 

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!

Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento

A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

 

Fraternidade com todas as dinâmicas!

Promíscua fúria de ser parte-agente

Do rodar férreo e cosmopolita

Dos comboios estrénuos,

Da faina transportadora-de-cargas dos navios,

Do giro lúbrico e lento dos guindastes,

Do tumulto disciplinado das fábricas,

E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!

 

Horas europeias, produtoras, entaladas

Entre maquinismos e afazeres úteis!

Grandes cidades paradas nos cafés,

Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas

Onde se cristalizam e se precipitam

Os rumores e os gestos do Útil

E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!

Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!

Novos entusiasmos de estatura do Momento!

Quilhas de chapas de ferro sorrindo encostadas às docas,

Ou a seco, erguidas, nos planos-inclinados dos portos!

Actividade internacional, transatlântica, Canadian-Pacific!

Luzes e febris perdas de tempo nos bares, nos hotéis,

Nos Longchamps e nos Derbies e nos Ascots,

E Piccadillies e Avenues de L’Opéra que entram

Pela minh’alma dentro!

 

Hé-lá as ruas, hé-lá as praças, hé-lá-hô la foule!

Tudo o que passa, tudo o que pára às montras!

Comerciantes; vários; escrocs exageradamente bem-vestidos;

Membros evidentes de clubes aristocráticos;

Esquálidas figuras dúbias; chefes de família vagamente felizes

E paternais até na corrente de oiro que atravessa o colete

De algibeira a algibeira!

Tudo o que passa, tudo o que passa e nunca passa!

Presença demasiadamente acentuada das cocotes

Banalidade interessante (e quem sabe o quê por dentro?)

Das burguesinhas, mãe e filha geralmente,

Que andam na rua com um fim qualquer;

A graça feminil e falsa dos pederastas que passam, lentos;

E toda a gente simplesmente elegante que passeia e se mostra

E afinal tem alma lá dentro!

 

(Ah, como eu desejaria ser o souteneur disto tudo!)

 

A maravilhosa beleza das corrupções políticas,

Deliciosos escândalos financeiros e diplomáticos,

Agressões políticas nas ruas,

E de vez em quando o cometa dum regicídio

Que ilumina de Prodígio e Fanfarra os céus

Usuais e lúcidos da Civilização quotidiana!

 

Notícias desmentidas dos jornais,

Artigos políticos insinceramente sinceros,

Notícias passez à-la-caisse, grandes crimes —

Duas colunas deles passando para a segunda página!

O cheiro fresco a tinta de tipografia!

Os cartazes postos há pouco, molhados!

Vients-de-paraître amarelos como uma cinta branca!

Como eu vos amo a todos, a todos, a todos,

Como eu vos amo de todas as maneiras,

Com os olhos e com os ouvidos e com o olfacto

E com o tacto (o que palpar-vos representa para mim!)

E com a inteligência como uma antena que fazeis vibrar!

Ah, como todos os meus sentidos têm cio de vós!

 

Adubos, debulhadoras a vapor, progressos da agricultura!

Química agrícola, e o comércio quase uma ciência!

Ó mostruários dos caixeiros-viajantes,

Dos caixeiros-viajantes, cavaleiros-andantes da Indústria,

Prolongamentos humanos das fábricas e dos calmos escritórios!

 

Ó fazendas nas montras! Ó manequins! Ó últimos figurinos!

Ó artigos inúteis que toda a gente quer comprar!

Olá grandes armazéns com várias secções!

Olá anúncios eléctricos que vêm e estão e desaparecem!

Olá tudo com que hoje se constrói, com que hoje se é diferente de ontem!

Eh, cimento armado, beton de cimento, novos processos!

Progressos dos armamentos gloriosamente mortíferos!

Couraças, canhões, metralhadoras, submarinos, aeroplanos!

Amo-vos a todos, a tudo, como uma fera.

Amo-vos carnivoramente.

Pervertidamente e enroscando a minha vista

Em vós, ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,

Ó coisas todas modernas,

Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima

Do sistema imediato do Universo!

Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!

 

Ó fábricas, ó laboratórios, ó music-halls, ó Luna-Parks,

Ó couraçados, ó pontes, ó docas flutuantes —

Na minha mente turbulenta e encandescida

Possuo-vos como a uma mulher bela,

Completamente vos possuo como a uma mulher bela que não se ama,

Que se encontra casualmente e se acha interessantíssima.

 

Eh-lá-hô fachadas das grandes lojas!

Eh-lá-hô elevadores dos grandes edifícios!

Eh-lá-hô recomposições ministeriais!

Parlamentos, políticas, relatores de orçamentos,

Orçamentos falsificados!

(Um orçamento é tão natural como uma árvore

E um parlamento tão belo como uma borboleta).

 

Eh-lá o interesse por tudo na vida,

Porque tudo é a vida, desde os brilhantes nas montras

Até à noite ponte misteriosa entre os astros

E o mar antigo e solene, lavando as costas

E sendo misericordiosamente o mesmo

Que era quando Platão era realmente Platão

Na sua presença real e na sua carne com a alma dentro,

E falava com Aristóteles, que havia de não ser discípulo dele.

 

Eu podia morrer triturado por um motor

Com o sentimento de deliciosa entrega duma mulher possuída.

Atirem-me para dentro das fornalhas!

Metam-me debaixo dos comboios!

Espanquem-me a bordo de navios!

Masoquismo através de maquinismos!

Sadismo de não sei quê moderno e eu e barulho!

 

Up-lá hô jockey que ganhaste o Derby,

Morder entre dentes o teu cap de duas cores!

 

(Ser tão alto que não pudesse entrar por nenhuma porta!

Ah, olhar é em mim uma perversão sexual!)

 

Eh-lá, eh-lá, eh-lá, catedrais!

Deixai-me partir a cabeça de encontro às vossas esquinas.

 

E ser levado da rua cheio de sangue

Sem ninguém saber quem eu sou!

 

Ó tramways, funiculares, metropolitanos,

Roçai-vos por mim até ao espasmo!

Hilla! hilla! hilla-hô!

Dai-me gargalhadas em plena cara,

Ó automóveis apinhados de pândegos e de putas,

Ó multidões quotidianas nem alegres nem tristes das ruas,

Rio multicolor anónimo e onde eu me posso banhar como quereria!

Ah, que vidas complexas, que coisas lá pelas casas de tudo isto!

Ah, saber-lhes as vidas a todos, as dificuldades de dinheiro,

As dissensões domésticas, os deboches que não se suspeitam,

Os pensamentos que cada um tem a sós consigo no seu quarto

E os gestos que faz quando ninguém pode ver!

Não saber tudo isto é ignorar tudo, ó raiva,

Ó raiva que como uma febre e um cio e uma fome

Me põe a magro o rosto e me agita às vezes as mãos

Em crispações absurdas em pleno meio das turbas

Nas ruas cheias de encontrões!

 

Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,

Que emprega palavrões como palavras usuais,

Cujos filhos roubam às portas das mercearias

E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! —

Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa

Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.

Maravilhosamente gente humana que vive como os cães

Que está abaixo de todos os sistemas morais,

Para quem nenhuma religião foi feita,

Nenhuma arte criada,

Nenhuma política destinada para eles!

Como eu vos amo a todos, porque sois assim,

Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,

Inatingíveis por todos os progressos,

Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida!

 

(Na nora do quintal da minha casa

O burro anda à roda, anda à roda,

E o mistério do mundo é do tamanho disto.

Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente.

A luz do sol abafa o silêncio das esferas

E havemos todos de morrer,

Ó pinheirais sombrios ao crepúsculo,

Pinheirais onde a minha infância era outra coisa

Do que eu sou hoje...)

 

Mas, ah outra vez a raiva mecânica constante!

Outra vez a obsessão movimentada dos ónibus.

E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios

De todas as partes do mundo,

De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,

Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.

Ó ferro, ó aço, ó alumínio, ó chapas de ferro ondulado!

Ó cais, ó portos, ó comboios, ó guindastes, ó rebocadores!

 

Eh-lá grandes desastres de comboios!

Eh-lá desabamentos de galerias de minas!

Eh-lá naufrágios deliciosos dos grandes transatlânticos!

Eh-lá-hô revoluções aqui, ali, acolá,

Alterações de constituições, guerras, tratados, invasões,

Ruído, injustiças, violências, e talvez para breve o fim,

A grande invasão dos bárbaros amarelos pela Europa,

E outro Sol no novo Horizonte!

 

Que importa tudo isto, mas que importa tudo isto

Ao fúlgido e rubro ruído contemporâneo,

Ao ruído cruel e delicioso da civilização de hoje?

Tudo isso apaga tudo, salvo o Momento,

O Momento de tronco nu e quente como um fogueiro,

O Momento estridentemente ruidoso e mecânico,

O Momento dinâmico passagem de todas as bacantes

Do ferro e do bronze e da bebedeira dos metais.

 

Eia comboios, eia pontes, eia hotéis à hora do jantar,

Eia aparelhos de todas as espécies, férreos, brutos, mínimos, Instrumentos de precisão, aparelhos de triturar, de cavar,

Engenhos brocas, máquinas rotativas!

 

Eia! eia! eia!

Eia electricidade, nervos doentes da Matéria!

Eia telegrafia-sem-fios, simpatia metálica do Inconsciente!

Eia túneis, eia canais, Panamá, Kiel, Suez!

Eia todo o passado dentro do presente!

Eia todo o futuro já dentro de nós! eia!

Eia! eia! eia!

Frutos de ferro e útil da árvore-fábrica cosmopolita!

Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!

Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me.

Engatam-me em todos os comboios.

Içam-me em todos os cais.

Giro dentro das hélices de todos os navios.

Eia! eia-hô! eia!

Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!

 

Eia! e os rails e as casas de máquinas e a Europa!

Eia e hurrah por mim-tudo e tudo, máquinas a trabalhar, eia!

 

Galgar com tudo por cima de tudo! Hup-lá!

 

Hup-lá, hup-lá, hup-lá-hô, hup-lá!

Hé-la! He-hô! H-o-o-o-o!

Z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z-z!

 

Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!

 

                        Londres, 1914 — Junho.

Pessoa (Campos) em Novela

Osmar Prado recitando "Poema em linha reta" (Fernando Pessoa), em cena de O Clone (2002)

 

POEMA EM LINHA RECTA

 

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.

Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

 

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,

Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,

Indesculpavelmente sujo,

Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,

Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,

Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,

Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,

Que tenho sofrido enxovalhos e calado,

Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;

Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel,

Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,

Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,

Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,

Para fora da possibilidade do soco;

Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,

Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

 

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo

Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu enxovalho,

Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida...

 

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana

Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;

Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!

Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.

Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?

Ó príncipes, meus irmãos,

 

Arre, estou farto de semideuses!

Onde é que há gente no mundo?

 

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

 

Poderão as mulheres não os terem amado,

Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!

E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,

Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?

Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,

Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

 

Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993). - 312.

Álvaro de Campos - Barrow-On-Furness

                I

 

Sou vil, sou reles, como toda a gente,

Não tenho ideais, mas não os tem ninguém.

Quem diz que os tem é como eu, mas mente.

Quem diz que busca é porque não os tem.

 

É com a imaginação que eu amo o bem.

Meu baixo ser porém não mo consente.

Passo, fantasma do meu ser presente,

Ébrio, por intervalos, de um Além.

 

Como todos não creio no que creio.

Talvez possa morrer por esse ideal.

Mas, enquanto não morro, falo e leio.

 

Justificar-me? Sou quem todos são...

Modificar-me? Para meu igual?...

— Acaba lá com isso, ó coração!

 

                II

 

Deuses, forças, almas de ciência ou fé,

Eh! Tanta explicação que nada explica!

Estou sentado no cais, numa barrica,

E não compreendo mais do que de pé.

 

Porque o havia de compreender?

Pois sim, mas também porque o não havia?

Água do rio, correndo suja e fria,

Eu passo como tu, sem mais valer...

 

Ó universo, novelo emaranhado,

Que paciência de dedos de quem pensa

Em outra coisa te põe separado?

 

Deixa de ser novelo o que nos fica...

A que brincar? Ao amor?, à indiferença?

Por mim, só me levanto da barrica.

 

                III

 

Corre, raio de rio, e leva ao mar

A minha indiferença subjectiva!

Qual «leva ao mar»! Tua presença esquiva

Que tem comigo e com o meu pensar?

 

Lesma de sorte! Vivo a cavalgar

A sombra de um jumento. A vida viva

Vive a dar nomes ao que não se activa,

Morre a pôr etiquetas ao grande ar...

 

Escancarado Furness, mais três dias

Te aturarei, pobre engenheiro preso

A sucessibilíssimas vistorias...

 

Depois, ir-me-ei embora, eu e o desprezo

(E tu irás do mesmo modo que ias),

Qualquer, na gare, de cigarro aceso...

 

                IV

 

Conclusão a sucata!... Fiz o cálculo,

Saiu-me certo, fui elogiado...

Meu coração é um enorme estrado

Onde se expõe um pequeno animálculo...

 

A microscópio de desilusões

Findei, prolixo nas minúcias fúteis...

Minhas conclusões práticas, inúteis...

Minhas conclusões teóricas, confusões...

 

Que teorias há para quem sente

O cérebro quebrar-se, como um dente

Dum pente de mendigo que emigrou?

 

Fecho o caderno dos apontamentos

E faço riscos moles e cinzentos

Nas costas do envelope do que sou...

 

                V

 

Há quanto tempo, Portugal, há quanto

Vivemos separados! Ah, mas a alma,

Esta alma incerta, nunca forte ou calma,

Não se distrai de ti, nem bem nem tanto.

 

Sonho, histérico oculto, um vão recanto...

O rio Furness, que é o que aqui banha,

Só ironicamente me acompanha,

Que estou parado e ele correndo tanto...

 

Tanto? Sim, tanto relativamente...

Arre, acabemos com as distinções,

As subtilezas, o interstício, o entre,

A metafísica das sensações —

 

Acabemos com isto e tudo mais...

Ah, que ânsia humana de ser rio ou cais!

Ruído Vário

A convite da Casa Fernando Pessoa, Ana Deus e Luca Argel concebem em 2017 o espectáculo Ruído Vário. Desta parceria surgem as 15 canções aqui publicadas, escritas quase todas sobre poemas do Fernando Pessoa ortónimo. As vozes de Ana e Luca transformam e actualizam o génio de Pessoa, passando por diversas das suas facetas, da solenidade trágica ao escárnio humorístico, sempre acompanhadas pela guitarra de Luca e por ruídos outros que ampliam a atmosfera dos poemas. Ao disco associa-se agora o songbook.

Patti Smith lê Álvaro de Campos

"Saudação a Walt Whitman” / “Salutation to Walt Whitman” de / by Álvaro de Campos por /by Patti Smith from Cecília Folgado on Vimeo.

Em visita à Casa Fernando Pessoa (Lisboa, 21 de Setembro de 2015), Patti Smith lê excerto do poema "Saudação a Walt Whitman”de / by Álvaro de Campos (tradução de Richard Zenith).
Patti Smith reads “Salutation to Walt Whitman” by Álvaro de Campos (translated by Richard Zenith) whilst visiting Casa Fernando Pessoa (21 September 2015).

Fernando Pessoa - Chuva Oblíqua

I

 

ATRAVESSA esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...

 

O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...

 

Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...

 

Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...

 

II

 

Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...

 

Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...

 

O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...

 

A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...

 

E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...

 

III

 

A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...

 

Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo...

 

Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...

 

Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...

 

Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...

 

IV

 

Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...

 

De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...

 

V

 

Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,

 

E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...

 

De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..

 

VI

 

O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe... Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...

 

Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...

 

Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)

 

Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...

 

Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...

 

E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...

 

E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...

 

Lisbon Revisited (If you've got the truth, you can keep it.)

TRIBUTE TO FERNANDO PESSOA - LISBON REVISITED by Hilmar Örn Hilmarsson EXP 2" (2014) from JumpCut on Vimeo.

Não: Não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conclusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me fallem em moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) —
Das ciências, das artes, da civilização moderna!

Que mal fiz eu aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

Sou um técnico, mas tenho técnica só dentro da técnica.
Fora disso sou doido, com todo o direito a sê-lo.
Com todo o direito a sê-lo, ouviram?

Não me macem, por amor de Deus!

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho para o diabo!
Para que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

Ó céu azul — o mesmo da minha infância —
Eterna verdade vazia e perfeita!
Ó macio Tejo ancestral e mudo,
Pequena verdade onde o céu se reflete!
Ó mágoa revisitada, Lisboa de outrora de hoje!
Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta.

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

Fernando Pessoa - Antinous

It rained outside right into Hadrian's soul.

 

The boy lay dead

On the low couch, on whose denuded whole,

To Hadrian's eyes, that at their seeing bled,

The shadowy light of Death's eclipse was shed.

 

The boy lay dead and the day seemed a night

Outside. The rain fell like a sick affright

Of Nature at her work in killing him.

Through the mind's galleries of their past delight

The very light of memory was dim.

 

O hands that clasped erewhile Hadrian's warm hands,

That now found them but cold!

O hair bound erstwhile with the pressing bands!

O eyes too diffidently bold!

O bare female male-body like

A god that dawns into humanity!

O lips whose opening redness erst could strike

Lust's seats with a soiled art's variety!

O fingers skilled in things not to be named!

O tongue which, counter-tongued, the throbbed brows flamed!

O glory of a wrong lust pillowed on

Raged conciousness's spilled suspension!

These things are things that now must be no more.

The rain is silent, and the Emperor

Sinks by the couch. His grief is like a rage,

For the gods take away the life they give

And spoil the beauty they made live.

He weeps and knows that every future age

Is staring at him out of the to-be.

His love is on a universal stage.

A thousand unborn eyes weep with his misery.

 

Antinous is dead, is dead forever,

Is dead forever and the loves lament.

Venus herself, that was Adonis' lover,

Seeing him again, having lived, dead again,

Lends her great skyey grief now to be blent

With Hadrian's pain.

 

Now is Apollo sad because the stealer

Of his white body is forever cold.

In vain shall kisses on that nippled point

Covering his heart-beats' silent place implore

His life again to ope his eyes and feel her

Presence along his veins this fortress hold

Of love. Now no caressing hands anoint

With growing joy that body's lusting lore.

 

The rain falls, and he lies like one who hath

Forgotten all the gestures of his love

And lies awake waiting their hot return.

But all his vices' art is now with Death:

He lies with her, whose sex cannot him move,

Whose hand, were't not cold, still ne'er his could burn.

Lilies were on his cheeks and roses too.

His eyes were sad in joy sometimes. He said

Oft in his close abandonments, that woo

Love to be more love than love can be, «Kiss

My eyelids till my closed eyes seem to guess

The kiss they feel laid in my heart's breast-bed.»

 

O Hadrian, what shall now thy cold life be?

What boots it to be emperor over all?

His absence o'er thy visible empery

Throws a dim pall.

Now are thy nights widowed of love and kisses,

Now are thy days robbed of the night's awaiting,

Now are thy lips purposeless and thy blisses

No longer of the size of thy life, mating

Thy empire with thy love's bold tendernesses.

 

Now are thy doors closed upon beauty and joy.

Throw ashes on thy head!

Lo, lift thine eyes and see the lovely boy!

Naked he lies upon that memoried bed;

By thine own hand he lies uncovered.

There was he wont thy dangling sense to cloy,

And uncloy with more cloying, and annoy

With newer uncloying till thy senses bled.

 

His hand and mouth knew gamuts musical

Of vices thy worn spine was hurt to follow.

Sometimes it seemed to thee that all was hollow

In sense in each new straining of sucked lust.

Then still new crimes of fancy would he call

To thy shaken flesh, and thou wouldst tremble and fall

Back on thy cushions with thy mind's sense hushed.

 

«Beautiful was my love, yet melancholy.

He had that art, of love's arts most unholy,

Of being lithely sad among lust's rages.

Now the Nile gave him up, the eternal Nile.

Under his wet locks Death's blue paleness wages

Now war upon our pity with sad smile».

 

Even as he thinks, the lust that is no more

Than a memory of lust revives and takes

His senses by the hand, and his flesh quakes

Till all becomes again what 'twas before.

The dead body on the bed gets up and lives

Along his every nerve ripped up and twanged,

And a love-o'er-wise and invisible hand

At every body-entrance to his lust

Utters caresses which flit off, yet just

Remain enough to bleed his last nerve's strand,

O sweet and cruel Parthian fugitives!

 

He rises, mad, and looks upon his lover,

That now can love nothing but what none know.

Then his cold lips run all the body over—

His lips that scarce remember their warmth, now

So blent with feeling the death they behold;

And so ice-senseless are his lips that, lo!,

He scarce tastes death from the dead body's cold,

But it seems both are dead or living both

And love is still the Presence and the Mover.

Then his lips cease on the other lips' cold sloth.

 

But there the wanting breath reminds his lips

That between him and his boy-love the mist

That comes out of the gods has crept. The tips

Of his fingers, still idly tickling, list

To some flesh-response to their purple mood.

But their love-orison is not understood.

The god is dead whose cult was to be kissed!

 

He lifts his hand up to where heaven should be

And cries on the mute gods to know his pain.

Lo, list!, o divine watchers of our glee

And sorrow!, list!, he will yield up his reign.

He will live in the deserts and be parched

On the hot sands, he will be beggar and slave;

But give again the boy to be arm-reached!

Forego that space ye meant to be his grave!

 

Take all the female beauties of the earth!

Take all afar and rend them if ye will!

But, by sweet Ganymede, that Jove found worth

And above Hebe did elect to fill

His cup at his high festivals, and spill

His fairer vice wherefrom comes newer birth—,

The clod of female embraces resolve

To dust, o father of the gods!, but spare

This boy and his white body and golden hair.

Maybe thy newer Ganymede thou meanst

That he should be, and out of jealous care

From Hadrian's arms to thine his beauty steal'st.

 

He was a kitten playing with lust, playing

With his own and with Hadrian's, sometimes one

And sometimes two, now splitting, now one grown,

Now leaving lust, now lust's high lusts delaying,

Now eyeing lust not wide, but from askance

Jumping round on lust's half-unexpectance;

Then softly gripping, then with fury holding,

Now playfully playing, now seriously, now lying

By the side of lust looking at it, now spying

Which way to take lust in his lust's withholding.

 

Thus did the hours slide from their tangled hands

And from their mixed limbs the moments slip.

Now were his arms dead leaves, now iron bands,

Now were his lips cups, now the things that sip,

Now were his eyes too closed, and now too open,

Now were his ways such as none thought might happen,

Now were his arts a feather and now a whip.

 

That love they lived as a religion

Offered to gods that do to presence bend.

Sometimes he was adorned and made to don

Half-costumes, now a posing nudity

That imitates some god's eternity

Of body statue-known to craving men.

Now was he Venus, risen from the seas;

And now was he Apollo, white and golden;

Now as Jove sate he in mock-judgment over

The presence at his feet of his slaved lover;

Now was he an acted rite, by one beholden,

In ever-repositioned mysteries.

 

Now he is something anyone can be.

O white negation of the thing it is!

O golden-haired moon-cold loveliness!

Too cold! too cold! and love as cold as he.

Love wanders through the memories of his vice

As through a labyrinth, in sad madness glad,

And now calls on his name and bids him rise,

And now is smiling at his imaged coming

That is i'th'heart like faces in the gloaming—

Mere shining shadows of the forms they had.

 

The rain again like a vague pain arose

And put the sense of wetness in the air.

Suddenly did the Emperor suppose

He saw this room and all in it from far.

He saw the couch, the boy and his own frame

Cast down against the couch, and he became

A clearer presence to himself, and said

These words unuttered, save to his soul's dread:

 

«I shall build thee a statue that will be

To the astonished future evidence

Of my love and thy beauty and the sense

That beauty giveth of infinity,

Though death with subtle uncovering hands remove

The apparel of life and empire from our love,

Yet its nude statue-soul of lust made spirit

All future times, whether they will't or not,

Shall, like a curse-seeming god's boon earth-brought,

Inevitably inherit.

 

«Ay, this thy statue shall I build, and set

Upon the pinnacle of being-thine. Let Time

By its subtle dim crime

Eat it from life, or with men's violence fret

To pieces out of unity and presence.

Ay, let that be! Our love shall stand so great

In thy statue of us, like a god's fate,

Our love's incarnate and discarnate essence,

That, like a trumpet reaching over seas

And going from continent to continent,

Our love shall speak its joy and woe, death-blent,

Over infinities and eternities!

 

«The memory of our love shall bridge the ages.

It shall loom white out of the past and be

Eternal, like a Grecian victory,

In every heart the future shall give rages

Of not being our love's contemporary.

 

«Yet oh that this were needed not, and thou

Wert the red flower perfuming my life,

The garland on the brows of my delight,

The living flame on altars of my soul!

Would all this were a thing thou mightest now

Smile at from under thy death-mocking lids

And wonder that I should so put a strife

Twixt me and gods for thy lost presence bright;

Were there nought in this but my empty dole

And thy awakening smile half to condole

With what my dreaming pain to hope forbids».

 

Thus went he, like a lover who is waiting,

From place to place in his dim doubting mind.

Now was his hope a great bulk of will fating

Its wish to being, now felt he he was blind

In some point of his seen wish undefined.

 

When love meets death we know not what to feel.

When death foils love we know not what to know.

Now did his doubt hope, now did his hope doubt.

Now what his wish dreamed the dream's sense did flout

And to a sullen emptiness congeal.

Then again the gods fanned love's darkening glow.

 

«Thy death has given me a newer lust—

A flesh-lust raging for eternity.

On my imperial will I put my trust

That the high gods, that made me emperor be,

Will not annul from a more real life

My wish that thou shouldst live for e'er and stand

A fleshly presence on their better land,

More beautiful and as beautiful, for there

No things impossible our wishes mar

Nor pain our hearts with change and time and strife.

 

«Love, love, my love! thou art already a god.

This thought of mine, which I a wish believe,

Is no wish, but a sight, to me allowed

By the great gods, that love love and can give

To mortal hearts, under the shape of wishes—

Of wishes strong, having imperial reaches—

A vision of the real things beyond

Our life-imprisoned life, our sense-bound sense.

Ay, what I will thee to be thou art now

Already. Already on Olympic ground

Thou walkest and art perfect, yet art thou,

For thou needst no excess of thee to don

To perfect be, being perfection.

 

«My heart is singing like a morning bird.

A great hope from the gods comes down to me

And bids my heart to subtler sense be stirred

And think not that strange evil of thee

That to think thee mortal would be.

 

«My love, my love! My god-love! Let me kiss

On thy cold lips thy hot lips now immortal,

Greeting thee at Death's portal's happiness,

For to the gods Death's portal is Life's portal.

 

«Thus is the memory of thee a god

Already, already a statue made of me—

Of that part of me that, like a great sea,

Girds in me a great red empire more broad

Than all the lands and peoples that are in

My power's reach. Thus art thou myself made

In that great stretch Olympic that betrays

The true-wholed gods present in river and glade

And hours eternal in its different days.

 

«So strong my love is that it is thyself,

Thy body as it was ere death was it,

Towering above the silence infinite

That girds round life and its unduring pelf.

Even as thou wert in life, thy corporal shade

Is in the presence of the gods. My love

Permits not that its carnal being fade

Or one whit false to fleshly presence prove.

Creeds may arise and pass, and passions change,

Other ways may be born out of Time's dream,

But this our love, made but thy body, 'll range

On deathless meads from happy stream to stream.

 

«Were there no Olympus for thee, my love

Would make thee one, where thou sole god mightst prove,

And I thy sole adorer, glad to be

Thy sole adorer through infinity.

That were a divine universe enough

For love and me and what to me thou art.

To have thee is a thing made of gods' stuff

And to look on thee eternity's best part.

 

«O love, my love! Awake with my strong will

Of loving to Olympus and be there

The latest god, whose honey-coloured hair

Takes divine eyes! As thou wert on earth, still

In heaven bodifully be and roam,

A prisoner of that happiness of home,

With elder gods, while I on earth do make

A statue for thy deathlessness' seen sake.

 

«That deathless statue of thee I shall build

Will be no stone thing, but my great regret

By which our love's eternity is willed.

My sorrow shall make thee its god, and set

Thy naked presence on the parapet

That looks over the seas of future times.

Some shall say all our love was vice and crimes.

Others against our names, as stones, shall whet

The knife of their glad hate of beauty, and make

Our name a pillory, a scaffold and a stake

Whereon to burn our brothers yet unborn.

Yet shall our presence, like eternal morn,

Ever return at Beauty's hour, and shine

Out of the East of Love, and be the shrine

Of future gods that nothing human scorn.

 

«My love for thee is part of what thou wert

And shall be part of what thy statue will be.

Our double presence unified in thee

Shall make to beat many a future heart.

Ay, were't a statue to be broken and missed,

Yet its stone-perfect memory

Would, still more perfect, on Time's shoulders borne,

Overlook the great Morn

From an eternal East.

 

«Thy statue is of thyself and of me.

Our dual presence has its unity

In that perfection of body, which my love,

In loving it, did out of mortal life

Raise into godness, set above the strife

Of times and changing passions far above.

 

«The end of days, when Jove is born again,

And Ganymede again pour at his feast,

Shall see our dual soul from death released

And recreated unto love, joy, pain,

Life—all the beauty and the vice and lust,

All the diviner side of flesh, flesh-staged.

And, if our very memory wore to dust,

By the giant race of the end of ages must

Our dual presence once again be raised.»

 

It rained still. But slow-treading night came in

Closing the weary eyelids of each sense.

The very consciousness of self and soul

Grew, like a landscape through dim raining, dim.

The Emperor lay still, so still that now

He half forgot where now he lay, or whence

The sorrow that was still salt on his lips.

All had been something very far, a scroll

Rolled up. The things he felt were like the rim

That haloes round the moon when the night weeps.

 

His head was bowed into his arms, and they

On the low couch, foreign to his sense, lay.

His closed eyes seemed open to him and seeing

The naked floor, dark, cold, sad and unmeaning.

His hurting breath was all his sense could know.

Out of the falling darkness the wind rose

And fell. A voice swooned in the courts below.

And the Emperor slept.

 

                        The gods came now

And bore something away, no sense knows how,

On unseen arms of power and repose.

LISBON, 1915.