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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Um verão em Westeros.

Ao todo são 4.976 páginas no conjunto das edições inglesas. Li-as todas este verão. Correspondem aos primeiros cinco livros da saga "A Song of Ice and Fire" de George R.R. Martin. Um deles ("A Storm of Swords") foi editado em dois volumes separados. Para aumentar a confusão, a edição em Portugal separa tudo em ainda mais livros. À última contagem ia em nove volumes. De assinalar também, que, das tais quase-cinco-mil páginas, não li todas em papel, pela primeira vez na vida. Algumas foram consumidas em formato Kindle nas várias plataformas em que já o consigo fazer (PC, Mac, iPod Touch). O aparelhinho ainda não tenho. Foi prático, mas não confortável, serviu, mas diminuiu o prazer.

Foram umas férias diferentes, passadas num espaço e no tempo diferente, mas não tão diferente assim daquilo que já foi ou é o nosso, eurocentrico e tendendo para o medieval. Um desperdício de tempo? Talvez ou talvez não. Férias são férias. Sobre os livros já falei aqui. Agora é esperar pelo próximo volume, a ver se não demora mais seis anos. Sempre gostei de fantasia e vício é vício. Daqui a uns dias há-de estrear no SyFy a série de televisão correspondente ao primeiro volume "A Game Of Thrones". Para mim, foi aí que tudo começou. A série é boa, vale a pena.

Mas há limites. Tirando a poesia que sempre se insinua pelo meio de outras leituras, já li entretanto o "Things The Grandchildren Should Know", do Mark Oliver Everett (a.k.a Mr. E) e já avancei umas cinquenta páginas no provável vencedor do Booker, "The Sense of an Ending", do Julian Barnes.

Por mim, passava o resto da vida a ler.

Épico.

Este post vai ser necessariamente um pouco mais longo pois tem por tema "A Song of Ice and Fire", a saga que George R. R. Martin anda a escrever há décadas e que, confesso, só comecei a ler por motivos circunstanciais, a saber, a adaptação do primeiro volume "A Game Of Thrones" à televisão pela mão da HBO e o verão, que me fez querer ler qualquer coisa que me devolvesse ao prazer despretensioso de um género maltratado. Uso a expressão "género maltratado" para descrever aqueles géneros literários em que gostamos de arrumar alguns livros, em muitos casos para não pensar mais neles, o policial, a ficção científica ou, neste caso, a fantasia, para citar alguns.

A escrita começou em 1991 e o primeiro volume saiu em 1996. Originalmente era uma triologia, mas vai em cinco livros escritos, com mais dois planeados. Nos Estados Unidos foram publicados até agora em seis volumes (o terceiro dividido em dois), em Portugal a divisão é maior. É capaz de render mais.

Nunca li nenhuma entrevista de George R.R. Martin, nem vi ou ouvi declarações dele sobre a série, falo por isso, exclusivamente do que escreve.

Criar um mundo, religiões, raças, línguas, dinastias, personagens, tramas, linhas de história paralelas percorrendo anos, décadas, séculos, não é para qualquer um. É para os que têm muito tempo livre, dose suficiente de loucura e obsessão. Quando são bem construídos, é um prazer. O mundo destes livros está bem construído, assente numa estratégia muito comum também na ficção científica, a sua semelhança com o nosso.

O mundo de Martin é medieval e terreno: no norte faz frio, no sul há desertos, para oriente, um mundo de civilizações milenares e exóticas, para ocidente, um mar ainda por descobrir. Existem reis, princesas, guerreiros, cavaleiros, alquimistas, uma massa de povo, as ordens e castas de um mundo no final da Idade Média. A introdução de elementos mágicos é feita aos poucos e com destreza. Existe magia antiga nestes mundos e a possibilidade do seu ressurgimento. A fantasia vai entrando por este mundo como uma ficção sobre a ficção.

Por outro lado, a ambição do texto multiplica-lhe a complexidade. É fácil perdermo-nos nos numerosos reinos, casas maiores e menores, cavaleiros, magos, primos, tios, avós, bisavós, frutos de incesto e de bastardia, ligações familiares dos mais diversos tipos. A isto some-se que o estilo é muitas vezes repetitivo, no detalhe das refeições, das roupas, das armas, dos cavalos, das barbas (sim, das barbas). A escrita é raramente brilhante, mas também é verdade que um estilo sofisticado e um bom contador de histórias não convivem com muita frequência na literatura. E a força desta história não está no estilo, nem sequer na particular inovação do mundo que se constroi. Nisso, por exemplo, Tolkien foi bem mais brilhante.

Onde parece estar a força de Martin é na construção das personagens e da sua evolução. Deixemo-nos de coisas, no Senhor dos Anéis, como em boa parte da fantasia, os bons são bons e os maus são maus e é nesse combate simbólico entre Bem e Mal que se move a intriga. Aqui não, nenhuma personagem deixa de ter motivação, história, passado complexo e tortuoso que a intriga nos vai revelando. Os bons não foram sempre bons nem o serão sempre e mesmo que tomem as suas decisões movidos pela sua (inerente) bondade, o resultado é frequentemente desastroso. Os maus convertem-se, por força da violência das circunstâncias, mas não chegamos a esquecer as suas maldades e encontramo-nos, com eles, em perigosas encruzilhadas morais, emocionais, familiares. E afinal de onde vêm as verdadeiras ameaças? Quem poderá defender o reino delas? E de quem é o legítimo herdeiro desse reino? E estamos a falar só de um reino ou de uma manta de retalhos?

Tal como o mundo de Martin parece uma visão impressionista da Idade Média, também as suas intrigas soam a medieval, a renascentista, a shakesperiano e maquiavélico. E o autor não hesita em matar personagens em que julgávamos ir assentar todo o épico, famílias inteiras até, ou talvez não. Ninguém sabe tudo na intriga, os pontos de vista estão bem separados no tempo e no espaço e esse desconhecimento é essencial na sua evolução.

Ainda vou a pouco menos de meio da saga, algures no começo do quarto livro, mas tenho cada vez mais a impressão que uma abordagem como esta ao universo da fantasia épica só é possível nesta mudança de milénio feita de incertezas. Quando Tolkien escrevia, quando C.S. Lewis inventou Narnia, o mundo parecia mais claramente dividido entre bem e mal e as referências clássicas da cultura europeia mais fáceis de discernir. Quando a ficção científica produziu as suas maiores obras, a guerra fria, o átomo e a corrida ao espaço eram o contexto perfeito. O mesmo para o nascimento dos super-heróis na banda desenhada, embora aí a coisa tenha complexificado cedo.

Voltando ao Martin, acho interessante que o canône que ele tenha escolhido para a sua escrita tenha sido o do final da idade média, do princípio do renascimento, um momento de violenta mudança no hemisfério ocidental. Há lá coisa melhor para fantasiar sobre o momento presente? Bom. Por agora chega, que ainda tenho uns milhares de páginas para ler. E muito provavelmente, mais uns anos para esperar pelo fim.