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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

High-Rise.

The new film from acclaimed director Ben Wheatley in UK cinemas March 18th.

Adapted from J.G. Ballard’s visionary novel by screenwriter Amy Jump, HIGH - RISE stars Tom Hiddleston, Jeremy Irons, Sienna Miller, Luke Evans, Elisabeth Moss.

1975. Two miles west of London, Dr. Robert Laing moves into his new apartment seeking soulless anonymity, only to find that the building’s residents have no intention of leaving him alone. Resigned to the complex social dynamics unfolding around him, Laing bites the bullet and becomes neighbourly. As he struggles to establish his position, Laing’s good manners and sanity disintegrate along with the building. The lights go out and the lifts fail but the party goes on. People are the problem. Booze is the currency. Sex is the panacea. Only much later, as he sits on his balcony eating the architect’s dog, does Dr. Robert Laing finally feel at home…

William Gibson's London.

Não me canso do William Gibson porque ele diz em entrevistas, coisas destas:

We can attempt to legislate technology after the fact, but it keeps on coming. Its nature is to be completely out of control. Nobody legislates technology into being. They don’t legislate the birth of the Internet or cellphones or anything. They’re called forth into the market, and the people who call them forth often have absolutely no idea how these things they've thought of will most change society. It’s impossible to tell until people have the things, and they’re using them.

Mas o motivo mais imediato para este post é uma polémica londrina. No seu último romance, 'The Peripheral', parte importante da ação situa-se numa Londres futura (mais ou menos um século no futuro) pontuada por shards, nostalgia do passado, tecnologia fora de controlo e uma classe de super ricos.

O que está a acontecer em Londres, por estes dias, aponta com certeza para este caminho. Um anúncio da Redrow London, promotor imobiliário gerou a polémica. Os autores do anúncio achavam, cito a partir deste artigo do The Guardian:

“We tried to do something a bit new and different from the typical property videos out there, but we accept that maybe we didn’t get it quite right with this one!”

O anúncio é este:

Rapidamente a Internet, nomeadamente por via do Twitter, pegou na coisa e revelou-lhe a alma. Também li o 'Kingdom Come', último romance do J.G. Ballard, o ano passado e lembrei-me dele, claro, mas nada como a versão abaixo, que pega nas imagens do anúncio da Redrow e lhes sobrepõe falas de Patrick Bateman, o psicopata ficcional de Brett Easton Ellis.

É como aquelas versões de músicas que revelam a verdade que a música original parecia não ter conseguido.

O futuro foi esta semana.

Sempre achei que os Estados Unidos eram um país onde cabia tudo e isso era a sua principal qualidade e o seu principal defeito. Mas talvez  a palavra 'tudo' revele sempre um preocupante parentesco com a sua deriva para o 'total' e daí a 'totalitário' vai só uma sufixação. Além de que 'tudo' é daquelas palavras que invoca o círculo como forma geométrica e se devora em 'nada' na cauda da serpente.

Estes disparates pretensiosos vêm na sequência de uma série de histórias que, por efeito de uma qualquer gravidade mediática, se parecem ter conluiado nos últimos dias para me fazer perguntar em que estado de facto está esse país do outro lado do Atlântico. A resposta não me interessa particularmente ou antes interessa naquele espaço tendendo para o infinito que vai da realidade à ficção.

Li nos últimos meses alguns livros que informam ou deformam a minha visão: "The Year of the Flood" e "The Handmaid's Tale" de Margaret Atwood, "Nineteen Eighty-Four" de George Orwell, "Fahrenheit 451" de Ray Bradbury, "The Flame Alphabet" de Ben Marcus, "Kingdom Come" de J.G. Ballard, além das histórias de Donald Barthelme e George Saunders e, num registo mais pulp, Guillermo Del Toro com Chuck Hogan e Justin Cronin. Uma boa dose de distopia. Estou certo que se já tivesse lido o "Brave New World" do Huxley, este post seria mais inteligente, mas continua numa pilha à espera de vez.

No princípio da semana vi imagens do que rodeia a Super Bowl, o momento mais visto e mais caro da televisão americana. Não vi nada do desporto mas é mais ou menos como os americanos gostam: disparos de adrenalina alternados com pausas para publicidade - e na publicidade, muita tecnologia, muito entretenimento e até alguma meta-publicidade (ah, somos um anúncio a brincar aos anúncios).

Chamou-me mais a atenção o momento do hino antes do jogo e as suas componentes: uma cantora de ópera, um género claramente no fundo do balde do gosto musical americano mas que fica bem como jóia decorativa (Renée Fleming, que muito aprecio - na foto); uma marching band militar; uma bandeira americana gigante esticada sobre o relvado; dezenas de milhares nas bancadas inchados de patriotismo; fogo de artifício; ecrãs, muitos ecrãs, ecrãs muito grandes; depoimentos de tropas nos ditos ecrãs e na emissão; para fechar, caças e helicópteros de combate sobrevoando o estádio. O estádio tem o nome de uma companhia de seguros, a MetLife, e fica em New Jersey, a 'outra banda' de Nova Iorque, a babilónia americana. New Jersey, estado nativo de Frank Sinatra e Tony Soprano. E o Seinfeld reencontrou o George Constanza no intervalo. Bom, estão a ver a coisa.

 

 

Nem vou sequer entrar na polémica sobre o anúncio da Coca-Cola com o 'outro' hino americano, "America The Beautiful", fala por si.

Hoje, vi uma notícia sobre Jesse Ventura que foi wrestler profissional e depois governador do Minnesota ("Only in America!" como diz Al Pacino no "Angels in America" de Tony Kushner). Jesse Ventura agora vive no México e diz que o faz porque se quer manter fora da rede (da matriz, se quiserem) e garantir que "os drones não o encontram". Nesta era pós-Snowden nada disto nos parece particularmente paranóico, se pensarmos uns segundos. A parte divertida é que o senhor tem um programa de televisão chamado precisamente "Off The Grid". Fora. Mas dentro. Na televisão. E a lógica deu um nó.

A tudo isto apetece-me acrescentar que a Google anda a comprar empresas de inteligência artificial depois de ter comprado empresas de robótica e de automação doméstica. Skynet, anyone? E como é natural, a concorrência não anda a dormir e o Facebook até faz dez anos e devolve-nos a nossa vida em vídeo na melhor veia nostálgica delicodoce.

Acho que se qualquer um dos autores ali acima quisesse descrever uma sociedade vivendo numa espécie de distopia eufórica, totalmente tomada pela tecnologia, devorada pela vontade de não ter memória ou permanentemente modificá-la, dominada pelo desejo absurdo de entretenimento e de consumo, não encontraria melhor que a sociedade americana contemporânea. Acho que o momento merece uma pausa para ouvir Laurie Anderson.

 

 

No fim disto tudo lembrei-me que William Gibson, meu autor de ficção científica de eleição, deixou há uns anos por opção de escrever livros passados no futuro para se dedicar ao presente. Até porque o presente é neste momento claramente uma espécie de futuro bizarro. Haverá outro motivo para termos cientistas a procurar viajantes no tempo na Internet?