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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Rango.

Uma amiga com quem eu comentava noutro dia, que "Toy Story 3" era um dos grandes filmes do ano passado, dizia-me que tinha dificuldade em ver animação hoje em dia, porque visualmente, os filmes lhe pareciam todos ter o mesmo tom lustroso e plástico, como se em todos, todas as personagens fossem brinquedos. O caso do filme de Lee Unkrich é provavelmente dos únicos onde isso se perdoa facilmente.

Isto serve, contudo, de introdução para dizer que "Rango" de Gore Verbinski é diferente. A paleta de cores e texturas, o estranho elenco de personagens do deserto, os secundários de peso (entre eles Alfred Molina, Bill Nighy e Harry Dean Stanton) e um coro grego de mochos mariachi dão o tom. O filme ganha-se, claro, no brilhante Johnny Depp, que muitas vezes me soou saído directamente do "Fear and Loathing in Las Vegas". Aliás, não é o Hunther S. Thompson que vai naquele descapotável, quase no início? Mas isto sou eu, se calhar é só o Depp em modo cowboy delirante em vez de pirata delirante, pelas mãos do mesmo realizador.

O argumento bebe do que há de mais clássico entre os westerns e as raízes são mais que assumidas. Atenção ao Eastwood (não é ele, é o Tymothy Oliphant, mas que se lixe, é ele mesmo). Tudo o resto é bom divertimento com um ritmo impecável. E raios, que o filme dá sede...



Michael Mann

Há anos, quando eu ainda não distinguia um "executive producer" de quem serve os cafés, lembro-me de ter uma conversa com o dr Bakali em que ele me dizia que o Michael Mann conseguia meter em todos os episódios do "Miami Vice", um momento de cinema de qualidade, um toque de diferença no que era, a todos os títulos, uma série policial típica dos anos 80.

Vem isto, claro, a propósito do "Inimigos Públicos" em que, embora recuando a 1933, Michael Mann se continua a divertir a filmar personagens de um lado e de outro da leia que gostam de roupas caras e carros rápidos, como o próprio Dillinger diz a certa altura. Outros temas da obra de Mann voltam a estar presentes no filme, nomeadamente na forma feminina como hipótese de redenção de uma vida de crime, de salvação não concretizada, ou no duelo entre lei e crime, personalizado em figuras carismáticas de um lado e de outro, dificultando a identificação ao espectador. E a noite, claro, que Mann continua a explorar cinematograficamente, usando agora a alta definição digital como matéria plástica de eleição, na cidade ou nos bosques.

Para quem conhece a obra de Mann, "Public Enemies" é sobretudo isso, uma obra de maturidade de um autor que explora e aprofunda alguns dos seus temas favoritos, num universo que já trabalhou inúmeras vezes, agora recuando três quartos de século. Não deixa de ser mais um filme excepcional, entre a acção e o trabalho das personagens, que vale a pena ver.