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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A realidade ainda existe?

Ontem, por acaso, revi "The Matrix", o filme de 1999 dos irmãos (agora irmãs) Wachowski. O filme alterna entre sequências de ação visualmente inovadoras, uma interessante mistura de várias ideias que o cinema, a banda desenhada e a televisão andavam a trabalhar há anos e discursos pomposos de filosofia pop sobre a natureza da realidade. É esta última parte que parece ter envelhecido pior e me parece, contudo, mais necessária que nunca.

Há uns dias, tinha lido um texto ("I'm With The Banned" de Laurie Penny) sobre Milo Yiannopoulos, o troll de extrema direita suspenso pelo Twitter. Tinha-me assustado e deprimido.

Hoje, por acaso também, cruzei-me com dois textos que partindo do momento informativo e político atual (Trump, Brexit, Putin, terrorismos vários e crise dos media tradicionais), tentam uma análise de uma realidade pós-facto e pós-verdade em que vivemos, um mundo dominado pela irrelevância da aderência do discurso à realidade.

O primeiro está no site da Granta, toma um caminho mais filosófico e aponta o momento presente como consequência natural e inevitável do pós-modernismo. Fala ainda da importância da nostalgia no presente, um tema que me é particularmente caro. O título é "Why We're Post-Fact" e o autor é Peter Pomarentsev.

O segundo é do The Guardian, tem como título "How technology disrupted the truth" e a autora é Katharine Viner. Aqui o discurso é mais colado à atualidade e à realidade dos media. Acaba assim:

We are privileged to live in an era when we can use many new technologies – and the help of our audience – to do that. But we must also grapple with the issues underpinning digital culture, and realise that the shift from print to digital media was never just about technology. We must also address the new power dynamics that these changes have created. Technology and media do not exist in isolation – they help shape society, just as they are shaped by it in turn. That means engaging with people as civic actors, citizens, equals. It is about holding power to account, fighting for a public space, and taking responsibility for creating the kind of world we want to live in.

O que me preocupa é perceber que textos longos, informados, documentados, responsáveis como estes podem facilmente ser ignorados, arrumados como mais uma diatribe de intelectuais queixinhas que estão a ver o seu mundo acabar e só se sabem lamentar. Até porque um dos links abaixo do artigo do The Guardian é de um artigo sobre novas descobertas relacionadas com "o mistério do orgasmo feminino". Muito melhor.

Eu sei, são textos longos, dão trabalho a ler e perceber e nem sequer nos deixam a sentir bem no fim da leitura.

Tenho cada vez mais a sensação de viver numa ficção entre os clássicos distópicos de Orwell, Huxley e Atwood (et alia) e episódios de Mr Robot ou Black Mirror. Se a realidade vai deixar de interessar, o mundo vai implodir sob o peso da sua própria mentira. E eu ainda devo estar vivo.

A ilustração abaixo vem do artigo do The Guardian e é de Sébastien Thibault.

truth.jpg

Sarah O'Connor vs The Robot

From an experiment at the Financial Times Robot Week:

Quoting the Journalist involved:

One day last week at 9.29am I hunched nervously over my keyboard and prepared to do battle with an entity called Emma. We were each primed to write about the official UK employment data at 9.30am and file our stories to my editor. I was sure Emma would be quicker than me, but I really hoped I would be better.

Full Article Here

 

Da criatividade automatizada.

Vivemos aqui num canto pequeno da Europa mas também já temos a nossa Big Data, nomeadamente sobre o que os clientes/espectadores/utilizadores vêem, lêem, clicam. Se o que se passa do outro lado do Atlântico é medida das coisas, o futuro (ou parte dele) pode ser... estranho. Que é a função do futuro.

De um artigo chamado ""House of Cards" and Our Future of Algorithmic Programming":

Will screenplays some day be written to meet the whims of data-driven media streaming companies? Will an algorithm direct writers to produce content to appeal to niche audience profiles on Netflix?

Bom, nada de escandaloso. Alguém tem olhado para Hollywood nos últimos anos? Sequelas, prequelas, derivados, spin offs, reboots, franchises, licenciamentos. E lá no meio, de vez em quando, alguma criatividade. Isto para já não falar da indústria musical nas suas fábricas mais agressivas, como a da K-Pop.

De um outro artigo chamado "Can Creativity be Automated?" vem mais uma pérola:

Bots can't yet script prose worthy of awards, but on some metrics of economic importance to publishers—such as number of page views a site registers—bots can be far more productive than any journalist. They can write articles in seconds, even about events that no journalist attended.

Mas... então já não estamos só a falar de entretenimento e ficção? Também de jornalismo? E a realidade, ainda existe? A ver vamos...

Verdade, mentira, ficção.

Este texto não é sobre a situação política atual. Sobre esse assunto, continuo a achar que há outra gente a dizer coisas que vale a pena ler e ouvir. Até a Manuela Ferreira Leite, of all people, que por acaso um amigo em tempos me disse que era uma pessoa de bom senso condicionada pelas circunstâncias. Este texto é sobre coisas ao lado.

Michael Ondaatje sempre foi dos meus escritores favoritos e dos poucos de que li (quase) tudo. É impossível ler tudo o que um escritor escreve, muito fica sempre apenas para ele. Tudo começou com a adaptação ao cinema de "O Paciente Inglês". Depois fui lendo poesia, prosa, até ao mais recente "The Cat's Table".

No que Ondaatje escreve, duas coisas sempre me tocaram mais que tudo o resto: o lirismo da escrita, burilando frases, colhendo palavras, e uma visão política do mundo, no sentido nobre da palavra, paficista, internacionalista. Ondaatje é ele próprio um cruzamento de oriente e ocidente, norte e sul, quer pela sua biografia, quer pela forma como isso transparece nas suas histórias e na forma como as conta.

"O Paciente Inglês", contudo, como outras, é uma história que tem um contexto histórico real e se inspira numa figura real, László Ede Almásy de Zsadány et Törökszentmiklós, um fascista húngaro que colaborou com os serviços secretos alemães durante a Segunda Guerra Mundial. Nada que se recomende. O romancista pega-lhe no nome, em alguns factos e constroi uma história de amor que poderia justificar alguém fazer as coisas que faz. Muito mais haveria a dizer, mas já lá vamos.

Entretanto descobri também a escrita de Anne Michaels, também ela canadiana, em forma e em conteúdo com muitas semelhanças a Ondaatje. Gostei particularmente da sua poesia e de um romance de nome "The Winter Vault" que tem como contexto a mudança de lugar do templo de Abu Simbel (na foto) por causa da construção da barragem de Assuão no Nilo.

Passado algum tempo, descobri uma conversa entre Terry Rigelhof e Gordon Lockheed precisamente sobre estes dois autores e embora a discussão e a agressividade na abordagem do assunto não me tenham feito gostar menos de Ondaatje ou Michaels, fizeram-me, é claro pensar. Só uma citação: "Michaels is a poet and her prose works, Fugitive Pieces (1996) and The Winter Vault (2009), aren't novels. Not in my books. What are they then? I'd say propaganda – misleading publicity, deceptive information, distorted educational tracts." "That's harsh."

Não conheço suficientemente a literatura canadiana, nem tenho conhecimentos e capacidade analítica suficiente para entrar na discussão, mas vale a pena ler toda a conversa e ficar a pensar sobre um assunto bem antigo, o lugar da verdade histórica na ficção.

E agora sim, entro eu.

Quando entrei na faculdade, fi-lo convencido de que o meu futuro era o jornalismo, de que contar histórias sobre a realidade, procurar a verdade do mundo e dos seus momentos eram missões que me recompensariam pessoalmente mais do que qualquer outra. Depois aconteceram duas coisas: uma, li a "Conversa na Catedral" do Mario Vargas Llosa; outra, numa aula, um professor disse que "o jornalismo não era uma atividade para pensar, mas sim para fazer". E eu sempre gostei muito de pensar. Pior do que isso, sempre gostei muito de inventar. Não podia ser jornalista.

É claro que estes meus pruridos morais não impediram muitos outros jornalistas de achar que a fronteira entre a verdade e a sua manipulação inventiva era uma barreira fácil de ultrapassar com frequência.

Saí da faculdade, aliás, um pouco sofista, achando que se podia dizer, argumentar, inventar quase tudo sobre quase tudo. E pus-me a escrever ficção a sério. Resultaram cinco romances.

Hoje, contudo, neste mundo completamente mobilizado pela tecnologia do espetáculo, pela tecnologia da invenção, da representação sem que precise de existir o objeto representado, parece-me cada vez mais importante perceber onde está a verdade, o que é que a realidade confirma, com a sua olímpica indiferença ao que podemos dizer sobre ela.

Vou continuar a escrever ficção, vou continuar à procura de verdades íntimas e universais, de disparates e sentidos, mas queria só pedir, modestamente, aos que têm ou deveriam ter o ofício da verdade (jornalistas, políticos, biógrafos, historiadores, documentaristas) que se preocupem com ela. Até porque o que resta da história, da memória, é aquilo que contámos, que dissemos, e por muito que goste de ficção, preferia que não fosse tudo inventado.

Dos Heróis.

Desde a Antiguidade a figura do herói mobiliza multidões, civilizações. Li recentemente uma biografia ficcionada de Aquiles dos pés velozes e tenho relido partes da Ilíada só por causa disso. Aquiles, o melhor dos gregos, mimado por uma deusa, o melhor guerreiro de entre os seus, arrogante, desafiando o destino e pagando pelo seu desafio.

Os meus heróis desde sempre foram músicos, escritores, cineastas, atores mas também políticos, jornalistas, filósofos. Os meus heróis sempre foram pessoas inteligentes e talentosas, de preferência com a coragem suficiente para fazerem o que realmente queriam da sua vida. Nunca me senti herói de mim mesmo, mas sempre olhei para cima e tentei trepar para os ombros desses gigantes. Usei o masculino porque essa é a regra da língua, há evidentemente mulheres também entre os meus heróis.

Num mundo em que a tecnologia democratizou o acesso aos media, em que os gatekeepers perderam influência, em que as redes e a visibilidade instantânea e permanente dominam, parece que qualquer um pode ser herói, num vídeo no Youtube, num post no Facebook, num qualquer concurso de talento ou disparate. E isso é uma coisa boa. Haja o que houver, o acesso democrático é bom. A pergunta é outra. De entre tantos possíveis heróis, como podemos no fim distinguir realmente os verdadeiros, aqueles que nos podem inspirar e ter vontade de ser melhores?

Gosto muito de futebol mas, lamento, nenhum jogador é um herói para mim. E lamento também, mais rapidamente seria Messi do que Ronaldo, só porque Ronaldo é mais Aquiles que Messi. É uma personagem muito melhor, claro, com a sua arrogância, a sua emoção à flor da pele e a sua obsessão pelo trabalho. Mas eu prefiro os meus heróis um pouco mais humildes, com pinta de anti-heróis, na verdade. Não o louro Aquiles, mas Pátroclo na sua sombra. 

Como é frequente quando escrevo coisas destas, mesmo com futebol pelo meio, este texto era apenas para dizer que Aaron Sorkin é um dos meus heróis. Tal como Alan Ball ou Tony Kushner. São algumas das pessoas que me fazem ainda acreditar que a ficção televisiva pode desempenhar uma função social e política. "The Newsroom" é a nova série da autoria de Sorkin, produzida claro pela HBO, e tem ainda um escasso episódio, coisa curta para a podermos avaliar, mas espero que seja mais "West Wing" do que "Studio 60 on the Sunset Strip".

Ficando-me ainda por esse primeiro episódio, não o podia aconselhar mais. Na fotografia, Jeff Daniels, que desempenha o papel principal, herói a contragosto, figura de Don Quixote, ou talvez seja apenas o seu cavalo. Mas não era um burro? Vejam e percebam.

Ó tempo volta para trás.

No meu tempo, que ainda é este mas já foi outro, e apesar da relatividade e outras invenções do Século XX, o tempo de cada um de nós era estreito e linear, movia-se como aquele anúncio da Xbox, disparado da barriga da mãe até aterrar numa sepultura ou forno crematório. Neste tempo de agora, que é ainda meu mas parece ser de mais gente, o tempo parece-me uma coisa cada vez mais confusa. Era fenómeno que se adivinhava, quando a Laurie Anderson perguntava no "Same Time Tomorrow" que eu tanto gosto de citar "is time long or is it wide?". Cheguei a fazer um trabalho de faculdade sobre isso, mas perdeu-se nos idos dos anos noventa, infelizmente.

Vem isto tudo a propósito de ter visto aparecer no Facebook este fim de semana, lamentos numerosos pela morte de Vasco Granja, acontecida no dia 5 de Maio, sim, mas há três anos, em 2009. Além de prova de curta memória, demonstra também o frenesim dos dedos na partilha, que clicam antes de ler, a data que seja. A notícia partilhada tinha dia, mês e ano no cabeçalho.

Não é exclusivo português e acontece com sensacionalismos variados. A primeira vez que dei por isso foi com a notícia da morte de um ator da série Harry Potter, do Guardian, acho. Notícia sobre algum secundário ou figurante até, mas que com um atraso de meses ou anos fez a ronda das redes.

Que o utilizador comum seja distraído, apressado, frenético parece-me normal, se bem que um pouco tonto. Que o mesmo aconteça a um jornal ou, para ser mais preciso, ao site de um jornal (ver a foto que ilustra este post) já é menos justificável. Mas quem pode censurar quem, neste tempo de pressas, velocidades, simultaneidades que é o nosso.

Cada vez me intrigam mais as possibilidades da lentidão como contrapoder. Talvez seja por isso que gosto ainda tanto de livros, com o seu tempo lento de apreensão e compreensão. Mas mesmo nos livros... bom, vou esperar para ver.

Prémios Pulitzer

Gosto desta notícia, porque o New York Times tem sido um dos meus jornais de referência. A notícia refere a presença de um único portal entre os nomeados, mas acho a questão sinceramente irrelevante. Até porque sendo lisboeta, se posso tomar o New York Times como referência, é devido à existência da Internet.

Quanto aos prémios na área de Ficção, Teatro e Música, confesso a minha ignorância sobre as obras vencedoras, embora goste bastante de algumas coisas de Steve Reich. Lista completa dos vencedores aqui.

Da reportagem para o cinema.

Esta e esta histórias da Wired tiveram já os seus direitos comprados para cinema e se ultrapassarem o inferno do processo de desenvolvimento hollywoodesco, poderão vir a ser filmes. São histórias que logo na leitura nos convocam à memória imagens que vêm directamente do cinema, com personagens marcadas, enredo bem construído.

Não são só as histórias que são interessantes, é a maneira como são contadas. O estilo não é novo, claro, o Capote fez um livro assim, mas é o estilo de jornalismo que eu eventualmente considerei um dia fazer, aquele mais próximo da ficção.