Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Camané - Já Não Estar (ao vivo no Lux)

Investir na cultura em tempos de crise? Que disparate! Esses chupistas da cultura não fazem nada pelo país e seja como for é só entretenimento, não serve para nada. Comes cultura ao jantar? Pagas com cultura no supermercado? Claro que não! Um país é feito de dinheiro, não é feito de língua, ideias, música, literatura, cinema. Isso são só distrações do que interessa.

 

Scarlatti e o Memorial.

Sabia-se, desde início, que de Mafra iriam ficar só as pedras, da passarola nada... E, ah!, de Scarlatti a música, irmã das palavras, porque a música, mais próxima de deus, mais humana, resiste ao fogo das inquisições, voa. Mas o homem não, mesmo quando já se levantou do chão. Gera-se outra conjugação a cercá-lo e o homem não alcança romper o cerco que ele de si mesmo é.


Maria Almira Soares, "Memorial do Convento — um modo de narrar"

 

José e Pilar

Estreia hoje o filme do ano, pelo menos até agora e na minha modesta opinião. Ainda por cima é um filme português e para além disso, um documentário. O filme é "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes e tive oportunidade de o ver já duas vezes. Representa para mim tudo o que o cinema deve ser e é exemplar daquilo que o cinema português é e pode ser.

Portugal é um país que mal sabe ler, de orgulhos difíceis e mais dado a pompas vácuas do que substanciais, um país que vai pouco ao cinema e prefere o que passar por realidade na televisão e o passeio pelo centro comercial. Quase mentecaptos. Mas Portugal é também o país de Camões, Pessoa, Saramago, de Maria João Pires e Siza Vieira, de Paula Rego, nomes que, felizmente, encontraram lugar no mundo para além dos limites do nosso rectângulo.

"José e Pilar" não é só a comovente história de amor entre um homem tímido e difícil e uma mulher de armas do país do lado, é a história de amor de um planeta por um escritor, deste pelas palavras e pelos livros, pela vida, preso na contradição de não temer a morte enquanto a sente aproximar-se. Pilar, que chegou tarde (mas não demais). Quantos livros ainda para escrever no tempo que resta? O "continuar", a falta de "tempo", a fundação, o futuro na ausência.

Nada disto chega para fazer deste o filme do ano, porque pode não se compreender nem gostar de Saramago e continuar a amar este filme. É o cinema nas suas dimensões mais puras, a visual, a da história, a da emoção, a do olhar e do ouvir, do lugar da câmara e de quem a maneja que estão em cada momento destas duas horas depuradas das duzentas e quarenta filmadas. A esse nível, o que interessa a ficção e o documentário? Interessa a brilhante utilização da matéria do cinema.

Bom, na verdade preferia não falar tanto. Na verdade preferia que fossem ver o filme, que me fizessem esse favor.

Aproveitem e vejam também a pequena entrevista com Pilar e Miguel que o SAPO fez:

Cinema Português e Literatura Portuguesa

Estamos num momento particularmente feliz para a relação entre o Cinema Português e a Literatura Portuguesa.

O "Filme do Desassossego" de João Botelho anda pelo país em exibição. O livro respectivo de Bernardo Soares / Fernando Pessoa exigia uma abordagem corajosa, que lhe garantisse o espírito e a letra e foi exactamente o que aconteceu, em palavra, em imagem, em música. Uma Lisboa encantada filmada como poucas vezes, música de gente como Ricardo Ribeiro, Lula Pena ou Eurico Carrapatoso, visualmente deslumbrante, com Alexandra Lencastre como "Centro de Mesa". E no meio disto tudo, as palavras, sempre as palavras. Não podia pedir mais. Se estiver num cinema perto de vocês, por favor aproveitem.

 

 

Estreia para a semana "Mistérios de Lisboa" de Raul Ruiz, baseado na obra homónima de Camilo Castelo Branco. Tem estado a fazer a ronda dos festivais (Toronto, Nova Iorque, etc.) e tem sido merecidamente coberto de encómios. Nas palavras de Manohla Dargis no New York Times, "one of this year's finest offerings". Tive oportunidade de ver o filme num visionamento há uns tempos, cortesia da distribuidora, e não podia concordar mais.

No filme, como na obra de Camilo Castelo Branco está presente a tradição novelesca portuguesa: filhos bastardos, ricos e pobres, casamentos e des-casamentos, padres, freiras, emigrados no Brasil que regressam, damas francesas misteriosas. É daqui que vêm as telenovelas que hoje pavimentam o panorama audiovisual português e no filme reconhemos delas alguns actores como Ricardo Pereira e Maria João Bastos (nas salas neste momento também na curta "Shoot Me" de André Badalo), mas Raul Ruiz tira deles capacidades de representação que nunca julguei possíveis e encena-as magistralmente com a sua câmara. O resultado está tão longe quanto possível do enlatado televisivo e perto da obra prima.

O filme é longo mas passa a correr. Para quem não quiser ir vê-lo ao cinema, estreará no ano que vem no Arte e na RTP. Mas muito sinceramente, vale a pena ir vê-lo a uma sala escura.

 

 

Por fim, abriu ontem o Doc Lisboa o que é com toda a certeza um dos filmes portugueses do ano, "José e Pilar", de Miguel Gonçalves Mendes. Contra todas as adversidades que servem de escolho habitual ao cinema português mas ainda mais ao documentário português, o realizador de "Autografia" acompanhou José Saramago e Pilar Del Rio durante quatro anos, filmou cerca de 240 horas e passou um ano e meio a montá-las. O resultado é um retrato íntimo de um amor, de uma vida que se aproxima do final, de um escritor cuja literatura vai permanecer, de um homem e de uma mulher movidos pela vontade de deixar uma marca no mundo com as suas ideias, a sua emoção, a sua obra.

O sentido de humor de Saramago, de Pilar, de Miguel, a perfeição do olhar documental, a música do David Santos (noiserv), tudo contribui para criar um objecto cinematográfico como há poucos.

Nunca fui um Saramaguiano. Li pouco do que ele escreveu, não mais que dois ou três livros, nunca me envolvi na discussão da defesa da sua obra ou do seu confronto com outros, mas o retrato que "José e Pilar" me oferece, universalista, português, lutador, permeado de uma ética inabalável e de um amor de pedra, só me podem fazer recomendar o filme sem reservas. Portugal não é este canto assolado pela tormenta da nossa depressão, Portugal é uma língua no mundo e uma vontade de ficar.