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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Larry Clark - The Smell Of Us

In Paris, every day, the same crew of kids meets up at The Dome - behind the Museum of Modern Art, opposite the Eiffel Tower - skateboarding, goofing off or getting stoned as they ignore the smart crowd of art lovers. Bound by complicated family ties, they are inseparable. Boredom, the lure of easy money and the anonymity of the Internet will all play a role in tearing their world apart.

Legends Never Die.

Não deve haver crítica de Spring Breakers de Harmony Korine que não referencie, cite, compare o filme com Kids, de 1995. Korine tinha dezanove anos quando escreveu Kids e o fotógrafo Larry Clark o realizou. Tenho acompanhado mais a obra de Clark que a de Korine, em particular durante o meu interesse dos últimos anos sobre fotografia em geral e a fotografia das margens da sociedade em particular.

Isto tudo para dizer que descobrir este artigo de Caroline Rothstein no Narrative.ly foi um prazer. Do lançamento das carreiras de Chloë Sevigny e Rosario Dawson aos suicídios de Harold Hunter e Justin Pierce, ao desaparecimento e reaparecimento de Leo Fitzpatrick (no The Wire), estão lá todos.

Interessam-me cada vez mais estes artigos mais longo que parecem tentar escapar ao frenesim imediatista da net. Até o BuzzFeed já tem uma área de longreads. Ainda por cima, o dito artigo é acompanhado de uma "espécie de making of" que merece também ser lido.

Abaixo está a imagem das filmagens que abre o artigo (com o grupo de miúdos que dá nome ao filme) e o trailer da altura, sensacionalista como seria de esperar.

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Larry Clark no The Talks.

Não me lembro se já falei aqui do The Talks, um site de entrevistas curtas, diretas ao assunto e com qualidade. Quase tanta qualidade como os entrevistados escolhidos, cada um melhor que o outro. O mais recente é o fotógrafo Larry Clark, que diz coisas como "I think that almost any part of the human experience is the human experience and why can't we reflect it?". Vale a pena ler tudo e é rápido.

A foto abaixo é Richard Blanshard para a Getty Images.

Desire / Despair

Chegou-me ontem às mãos a retrospectiva das obras de Jack Pierson entre 1985 e 2005 em forma de livro, sob o título "Desire / Despair", nome de uma das suas obras.

Jack Pierson é um artista que trabalha múltiplos materiais: em primeiro lugar a fotografia, mas também colagens, instalações, desenhos e esculturas de palavras, como a que dá nome ao livro e está aqui ao lado em forma de fotografia. Nasceu em 1960 em Plymouth, Massachusetts, a mesma terra onde os peregrinos do Mayflower fundaram a primeira colónia americana anglo-saxónica em 1620, fugidos da velha Europa em busca de "liberdade religiosa".

Com estratégias diferentes e plasticamente mais diversificadas do que as de Larry Clark, Jack Pierson ronda por vezes os mesmos temas, não se detendo tanto contudo na obsessão pela adolescência que permeia as obras de Clark.

Tudo isto, não sei porquê, lembra-me o caso Castro / Seabra: a relação entre desejo e desespero, a sede da fama, a tentativa de usar uma visão aberrante de moral sexual como justificação para o crime, a insidiosa presença da religião como se servisse de razão seja para o que for. Nisto tudo, vale a pena pedir paz para os mortos e julgamento para os culpados, mais nada.

Não deixo de me arrepiar com as ondas de choque e o que revelam sobre a sociedade portuguesa. E não deixo de continuar à espera que a poderosa máquina do desejo e do desespero, que nos move muitas vezes como indivíduos e que os media amplificam para além do razoável, faça as suas próximas vítimas.

A propósito da fotografia do Ryan.

Em tempos, havia duas maneiras de fotografar pessoas, ou elas davam por isso, ou não. Fotografar era um processo complexo e demorado, envolvendo tecnologias físicas e químicas, mais que isso, era um processo caro e o negativo, sobretudo para o principiante, tinha um valor precioso, podia estragar-se, podia desperdiçar-se.

O resultado deste labor custoso não era visível imediatamente e implicava um laboratório, um processo de revelação, uma mística do negativo versus positivo, da ampliação, do aparecimento da imagem no papel. Hoje não.

A digitalização do processo fotográfico implicou duas coisas (pelo menos): uma drástica redução dos custos envolvidos e uma simplificação do processo que o tornou praticamente instantâneo. Passámos a poder tirar quantas fotos quiséssemos, sem medo de "estragar o rolo", sem medo de "ficar mal", o verdadeiro império do instantâneo nasceu.

Efeitos secundários? A morte da Polaroid, a overdose de imagens (sobretudo as tiradas por turistas - quantas fotos existem hoje da Torre Eiffel, alguém sabe?), a banalização da fotografia até limites impensáveis e a transformação do processo fotográfico tradicional em algo de artesanal, devidamente valorizado.

Desconheço em profundidade o processo de trabalho de fotógrafos como Wolfgang Tillmans, Ryan McGinley, Larry Clark e é, em muitos casos, abusivo da minha parte partir do princípio que a digitalização faz parte desse processo. Aquilo de que quero falar é da maneira como os seus modelos surgem na imagem.

Desfocados, em movimento, de repente, em contra luz, sem se importarem, inconscientes da presença da objectiva ou mesmo plenamente conscientes, mas, ainda assim, absolutamente indiferentes à sua presença. A imagem tem uma intimidade despreocupada, tem um à vontade que, em grande parte dos casos, é a nudez que melhor transmite.

Nestas fotos não estamos a fotografar a nudez, estamos a usar a nudez para demonstrar a intimidade, para demonstrar o seu valor de ligação, de relação. Não estamos à procura do enquadramento perfeito, de ter tudo lá dentro de acordo com uma regra de ouro, mas sim de percebê-lo pelo seu valor de instantâneo, quase aquilo que se vê pelo canto do olho quando estamos com alguém.

Esta maneira de fotografar e, sobretudo, de ser fotografado, ela sim, pertence a uma idade digital, de hiper-abundância das imagens, de cumplicidade total com todas as formas de representação imagética de nós próprios e dos nossos corpos. São assim, estes modelos.