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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Mesmo que o filme seja mau...

...a campanha que o precede é excelente. Quanto mais não seja porque demonstra à saciedade o falso puritanismo dos nossos novos grandes espaços públicos virtuais, com os seus trailers (censurados no YouTube) e os posters (o abaixo no Facebook). Redes que fazem do desaparecimento da privacidade a sua bandeira, impõem-nos uma moral muito retrógrada americana em relação a um dos atos privados por excelência, o sexo. Não tenho ilusões, contudo. Não é uma verdadeira questão de moral, é uma questão de dinheiro, de manter a maior parte do seu mercado e, sobretudo, dos seus anunciantes, satisfeitos e seguros.

Dito tudo isto, continuo com curiosidade para ver o novo Lars Von Trier, 'Nymphomaniac'.

A obsessão pelo Mal.

A palavra Mal no título deste post está com letra maiúscula e não é por acaso. Lars Von Trier tem andado a aguçar a sua obsessão pelo Mal que percorre parte importante senão toda a sua filmografia. Assim de cor lembro-me de "Dogville", "Dancer in the Dark", "Anticristo" claro. Em "Melancolia" atinge um novo extremo de destruição porque, como diz a personagem Justine (piscar de olho a Sade), "the Earth is Evil".

Chegou-me agora em Blu-Ray o filme e vi-o finalmente. De novo um prefácio em câmara lenta, belíssimo, assombrado como toda a história pelo "Tristão e Isolda" de Wagner. Nada no filme é inocente, nenhuma imagem, nenhum nome de personagem (ou cavalo), nenhum instante, como não é inocente a escolha dos atores americanos, a profissão de Justine, a boçalidade do seu patrão e respetivo discípulo, aquela velha Europa aborrecida do que é formal e no meio disto tudo aquela ameaça divina e o sentimento que dá nome ao conjunto.

Conheci "A Anatomia da Melancolia" de Robert Burton por Bruce Chatwin a citar como modelo distante e nunca emulado da sua "Anatomia da Errância". A obra de Burton é retrato de uma ambição desmedida, com as suas quase 1400 páginas (numa edição paperback moderna - o original é de 1621), a de Chatwin intimista e fragmentária, peripatética também nas palavras.

A melancolia de Von Trier é solenemente assustadora, desconcertante como é seu timbre, esteticamente muito cuidada, uma melancolia europeia, a quem o presente e o futuro parecem escapar, com uma resignação triste.

No SAPO Cinema tivemos também uma viagem pela mente de Lars Von Trier, noutro vídeo, ao realizador juntam-se Kirsten Dunst e Charlotte Gaisnbourg e Irene Oestrich, psicóloga. Além, é claro, do trailer abaixo.