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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A Great Unrecorded History

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"When I am with him, smoking or talking quietly ahead, or whatever it may be, I see, beyond my own happiness and intimacy, occasional glimpses of the happiness of 1000s of others whose names I shall never hear, and know that there is a great unrecorded history."

                         E. M. Forster (ed. M. Lago and P. N. Furbank),
                         Selected Letters of E. M. Forster I: 1879–1920
                         (London 1983), 269

Maravilhas de 2018

Este ano não há Top 10s para ninguém. Este ano há uma lista alfabética de coisas que me maravilharam ao longo deste ano. Livros, discos, filmes, séries, concertos. Lembro-me destas, o que já quer dizer alguma coisa. Outras esqueci, a memória falha-me por vezes. Por ordem alfabética de autor:

  • Alfonso Cuarón - Roma - Se a memória fosse escrita, encenada, representada e filmada com perfeição virtuosística, era este filme. Um tratado sobre a arte do cinema. Com defeitos, claro, criticável, claro, mas isso haja liberdade para fazer sempre.
  • Bruno Nogueira (com Marco Martins e Ricardo Adolfo) - Sara - A melhor coisa que já se fez na ficção televisiva em Portugal. E ainda se consegue ver, creio. Do princípio ao fim, por favor.
  • Deborah Levy - The Cost of Living - Uma das jóias do ano, o confessional e diarístico escrito como deve ser. Já tinha gostado do "Hot Milk" e vou ler mais, estou certo.
  • Hanna Gadsby - Nanette - Sobre o humor, a gargalhada, o trauma, a liberdade e muitas outras coisas em que vale a pena pensar e sentir. Um tema para ler sempre mais.
  • Jon McGregor - Reservoir 13 - Pegar num género e ele ser outro género e deixar passar os anos anos e um livro ser isto.
  • Kore-Eda Hirokazu - Shoplifters - Vamos jogar um jogo de escondidas e descoberta com um amor profundo às nossas personagens. Foi merecida Palma de Ouro.
  • Laurie Anderson - Landfall (com Kronos Quartet)/ All The Things That I Lost In The Flood / ao vivo no Nimas - Um disco, um livro, um espetáculo, a perda, a poesia. Damn, girl.
  • LCD Soundsystem - Ao vivo no Coliseu dos Recreios - Transpirar a sério pelos melhores motivos com todos os meus amigos, mesmo os que não estavam lá.
  • Low - Double Negative - Quase sem querer, um disco que se entranhou. Fiquei surpreendido ao vê-lo em tantas listas de fim de ano, mas isso não me impediu de ouvir de novo.
  • Michael Ondaatje - Warlight - Volto sempre a ele e ele nunca me desilude, na intersecção entre história, indivíduo e poesia onde um dos corações da literatura vive.
  • Nick Cave - Ao vivo no Primavera Sound Porto - O momento, o local, o tempo, os artistas e, é claro, a música, no festival que prefiro, por estes dias.
  • Nick Drnaso - Sabrina - Tão longe chegou a chamada "novela gráfica". Nenhum preconceito deve impedir a leitura deste livro, num estilo tão limpo quanto os temas são graves, um relato minimal de um país caótico.
  • Paul Thomas Anderson / Johnny Greenwood - Phantom Thread - Les beaux esprits se rencontrent. Já tinha acontecido antes mas de novo aqui um filme, uma banda sonora, uma elegância que podemos destruir como nos apetecer.
  • Phoebe Waller-Bridge - Killing Eve - Espias, assassinas, mulheres. Um dos géneros mais antigos do audiovisual pode sempre ser baralhado sobre clichés e tornar-se um prazer.
  • Rosalía - El Mal Querer - Há gente que explica muito melhor que eu como este disco é musicalmente inteligente e viciante.
  • Ryan McGinley - Mirror, Mirror - Sempre a pensar, a sentir, a fotografar, rodeado de amigos e imagens, o Ryan mostra-nos o caminho.
  • Thom Yorke - Suspiria OST - Lá podia o Thom ficar atrás do Johnny. vivemos sobre os ombros de gigantes.
  • Thomas Adès - Concerto de piano com música de Leoš Janáček - Há sítios onde se volta, se é feliz e se descobre coisas que não se conhecia. A Gulbenkian é um deles.

Arte Poética III

A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.

Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.

 

E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética. Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: «Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça.» Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o Sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo. Se em frente do esplendor do mundo nos alegramos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.

 

A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona a poesia do nosso tempo diz: «Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres.» Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.

O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que fale somente de pedras ou de brisas a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: Que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.

Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.

E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.

 

(Palavras ditas por Sophia de Melo Breyner Andresen em 11 de Julho de 1964 no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia atribuido a Livro Sexto.)

Publicado como posfácio da 2ª edição do Livro Sexto, 1964 e publicado com a designação de Arte Poética III em todas as edições da Antologia organizada pela autora. Esta designação foi retomada na edição Obra Poética, Caminho em 2010, edição de Carlos Mendes de Sousa.

San Girolamo di Caravaggio

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Saint Jerome in Meditation (c. 1605) is a painting by the Italian Baroque master Caravaggio, now in the Museum of Montserrat, next to the Monastery of Santa MariaMontserrat (Museu del Monestir de Santa Maria).

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Saint Jerome Writing, also called Saint Jerome in His Study or simply Saint Jerome, is an oil painting by Italian painter Caravaggio. Generally dated to 1605-1606, the painting is located in the Galleria Borghese in Rome.

 

From Michael Ondaatje's 'The English Patient':

The Villa San Girolamo, built to protect inhabitants from the flesh of the devil, had the look of a besieged fortress, the limbs of most of the statues blown off during the first days of shelling. There seemed little demarcation between house and landscape, between damaged building and the burned and shelled remnants of the earth. To Hana the wild gardens were further rooms… In spite of the burned earth, in spite of the lack of water. Someday there would be a bower of limes, rooms of green light.

One Day Late

James Joyce's “Ulysses” is widely considered to be both a literary masterpiece and one of the hardest works of literature to read. It inspires such devotion that once a year, thousands of people all over the world dress up like the characters, take to the streets, and read the book aloud. So what is it about this novel that inspires so many people? Sam Slote uncovers the allure of this epic tome. Lesson by Sam Slote, directed by Paper Panther.

A origem da couve

No paraíso terrestre, no luminoso dia em que as flores foram criadas, antes que Eva fosse tentada pela serpente, o maligno espírito aproximou-se da mais bela rosa, no momento em que esta estendia, à carícia do celeste sol, a encarnada virgindade dos seus lábios.
– És bela.
– Sou – disse a rosa.
– Bela e feliz – prosseguiu o diabo. – Tens a cor, a graça e o aroma. Mas…
– Mas?
– Não és útil. Não vês estas vastas árvores carregadas de bolotas? Além de frondosas, dão alimento a multidões de seres animados, que se detêm sob os seus ramos. Rosa, ser bela é pouco…
A rosa – tentada, como seria depois a mulher – desejou então a utilidade, de tal modo que houve palidez na sua púrpura.
Passou o bom Deus, depois do romper da aurora.
– Pai – disse aquela princesa floral, agitando-se na sua perfumada beleza – quereis fazer-me útil?
– Seja, minha filha – respondeu o Senhor, sorrindo.
E o mundo viu então a primeira couve.

 

Rubén Darío, Curiosidades Literárias e Outros Contos. Colecção Avesso.

Julian Barnes reads from The Only Story

Would you rather love the more, and suffer the more; or love the less, and suffer the less? That is, I think, finally, the only real question.

First love has lifelong consequences, but Paul doesn’t know anything about that at nineteen. At nineteen, he’s proud of the fact his relationship flies in the face of social convention.

As he grows older, the demands placed on Paul by love become far greater than he could possibly have foreseen.