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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Manuel António Pina

Vê se há mensagens
no gravador de chamadas; 
rega as roseiras; 
as chaves estão 
na mesa do telefone; 
traz o meu 
caderno de apontamentos 
(o de folhas 
sem linhas, as linhas distraem-me). 
Não digas nada 
a ninguém, 
o tempo, agora, 
é de poucas palavras, 
e de ainda menos sentido. 
Embora eu, pelos vistos, 
não tenha razão de queixa. 
Senhor, permite que algo permanença, 
alguma palavra ou alguma lembrança, 
que alguma coisa possa ter sido 
de outra maneira, 
não digo a morte, nem a vida, 
mas alguma coisa mais insubstancial. 
Se não para que me deste os substantivos e os verbos, 
o medo e a esperança, 
a urze e o salgueiro, 
os meus heróis e os meus livros? 
Agora o meu coração 
está cheio de passos 
e de vozes falando baixo, 
de nomes passados 
lembrando-me onde 
as minhas palavras não chegam 
nem a minha vida 
Nem provavelmente o Adalat ou o Nitromint.


Poema pilhado ao Carlos Vaz Marques no Facebook. In 'Cuidados Intensivos'.

Carta a Mário Cesariny no dia da sua morte.

Hoje soube-se uma coisa extraordinária,
que morreste. Talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

 

Algo, de facto, deve ter acontecido
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume; quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.

 

Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

 

Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disto de repente
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

 

Manuel António Pina

Zapping.

Ao mesmo tempo na televisão: a versão hollywoodesca da guerra de Tróia, o inenarrável Rodrigues dos Santos, o Braga contra o Leixões, Dinacroc vs. Supergator, três meios neurónios de amarelo na TVI, Dancin' Days, o Malato, póquer, moda, Joyce DiDonato a cantar a Cenerentolla do Rossini na Royal Opera House, o prédio do Vasco, Crimes Imperfeitos em italiano, João Soares a falar de economia, barcos à vela, motas, carros... e o magnífico documentário "Um Sítio Onde Pousar a Cabeça" de Ricardo Espírito Santo sobre Manuel António Pina.

A poesia vai acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –