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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Os Media do Futuro e o Futuro das Histórias

Ontem estive numa conferência organizada pelo Expresso e pela SIC Notícias sobre o tema "Os Media do Futuro", embora a discussão se tenha centrado mais sobre o Futuro dos Media. A distinção é relevante. Os media do futuro são um enigma que o tempo se encarregará de nos revelar. De momento estão ainda escondidos em laboratórios de I+D e nas estratégias das várias empresas da cadeia de valor. O segredo continua a ser a alma do negócio. E deitarmo-nos a adivinhar é sempre complicado. Como disse Iván de Cristóbal da Accenture, basta pensarmos em "Blade Runner" de 1982 (de onde vieram as imagens que ilustram este post). Há naves espaciais, robots com inteligência artificial mas quando é preciso fazer uma chamada... vão a uma cabine telefónica. Ninguém sonhava há trinta anos como a mobilidade ia ser um eixo tão central das novas tecnologias.

Aliás, a conferência mais interessante foi a de Pacheco Pareira, que assumiu precisamente o telemóvel como a mais inovadora e influente das novas tecnologias, até mais do que a Internet. Interessante porquê? Neste tipo de evento geralmente sobrevoamos as tendências do dia e as preocupações de curto prazo. Como vai ser a privatização da RTP? Que podem os jornais fazer em relação à digitalização? Alguém quer comprar a RTP? Como fazer marketing digital? A privatização da RTP vai matar a democracia? (sim há uma tendência aqui) A melhor de todas ouvi ao almoço: Alguém conhece algum "esquema" para ter mais fãs no Facebook? Sim, o Facebook é só um esquema de marketing.

Pacheco Pereira, homem de cultura, mesmo que politicamente longe das minhas posições, entrou pelas questões societais e culturais das novas tecnologias como tecnologias de controlo e por um dos temas que me é mais caro, a infantilização e adolescentização de uma sociedade que envelhece. Isolamo-nos como adolescentes nos quartos, incertos sobre a nossa identidade, dominados pelos nossos desejos, vítimas fáceis do espectáculo e da demagogia. O problema de Pacheco Pereira é que ao apresentar a queda de um determinado modelo civilizacional nascido nos séculos XVIII e XIX, não consegue ver um caminho para o futuro que nos possa aconselhar. Fica pelo catastrofismo.

É mais interessante, por exemplo, esta visão de Douglas Rushkoff sobre o movimento "Occupy Wall Street" como uma ongoing conversation. É uma visão bem mais moderna, sobretudo quando comparada com a maior parte da cobertura mediática do assunto ou, por exemplo, a demagogia nostálgica de José António Saraiva. Cito-o: "A democracia deve temer esta gente que se manifesta na rua, porque foi assim que acabaram muitas democracias." Como se o primado da Lei que deve dominar em democracia não incluisse a rua e a voz da rua e apenas se manifestasse no voto de quatro em quatro anos.

Nas palavras de Pacheco Pareira, interessou-me também a discussão sobre o futuro do livro, da narrativa, das histórias numa sociedade dominada por um consumo hipertextual, em permanente zapping e o browsing. É um debate que me toca pessoalmente e muitas vezes me pergunto se não estou a escrever num género em extinção, o romance. Melhores do que eu, contudo, a dar uma no cravo e outra na ferradura são Philip Roth e Paul Auster. Deixo-vos com eles em jeito de tese e antítese.

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Tina Brown Asks Philip Roth About the Future of the Novel from The Daily Beast Video on Vimeo.

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