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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O poder dos algoritmos.

Dois artigos chamaram a minha atenção recentemente para a crescente utilização de processos matemáticos e automatizados em contextos comerciais. Dito desta maneira, parece que estou a falar de máquinas registadoras, mas não, estou a falar de algoritmos que interpretam em tempo real sistemas simbólicos altamente complexos e que nunca poderiam ser observados e interpretados a um ritmo humano.

O primeiro artigo, no The Atlantic, chamava a atenção para a coincidência entre o acréscimo de volume de notícias nos media online (que hoje em dia, na verdade, são todos) sobre a actriz Anne Hathaway e a subida das acções da empresa Berkshire Hathaway, do milionário Warren Buffett. A correlação aparente entre os dois factos teria a ver com algoritmos de trading capazes de valorizar a presença do nome Hathaway nos media e traduzir essa valorização em compra de acções. Parece idiota, não?

O segundo artigo tem uma fonte menos respeitável (io9.com), mas inclui uma demonstração cabal de como dois vendedores de livros usados na Amazon usam algoritmos para estabelecer os seus preços e qual a lógica prevalente em cada um deles. Um deles pode até nem ter o livro, mas sabendo que ele existe... põe-lhe um preço na mesma.

Num e noutro caso, a falta de vigilância humana sobre os algoritmos permite que reparemos nestas pequenas (?) aberrações do "normal funcionamento dos mercados". O que me pôs a pensar no que raio é o normal funcionamento de um mercado que, em grande parte, se gere a si mesmo em correlações deste género em que algoritmos se alimentam de outros algoritmos, num equilíbrio ou desequilíbrio sem intervenção humana.

Tudo isto me perturba ainda mais depois de ver o "Inside Job" e assistir à crise dos últimos anos, primeiro do chamado subprime, depois generalizada aos mercados financeiros, às economias e agora à dívida soberana (cada vez que alguém fala no Cristiano Ronaldo, o que acontece aos nossos juros?).

Ah e também li o "Cosmopolis" do Don DeLillo, que o Cronenberg vai começar a filmar, produzido pelo Paulo Branco. Nesse livro, o personagem principal negoceia o futuro sob a forma de títulos financeiros. Já para não falar do "Zero History" do William Gibson, que tem como macguffin a hipótese de prevermos nem que seja os próximos cinco minutos dos mercados.

Existe, por cima do mundo real (?), uma camada que alguns crêem que documenta financeiramente o que esse mundo é e pode vir a ser. Acho cada vez mais que é só mais uma forma de ficção, uma ficção a que nós, humanos, ainda por cima, temos cada vez menos acesso.

Não me espanta que alguns banqueiros se achem deuses.

 

Na imagem está Hades, irmão de Zeus e Poseídon, deus grego do submundo, dos mortos e da riqueza (gosto da ligação). A seu lado, a sua consorte, Perséfone.