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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Hardy Amies.

Não sei se a Monocle já falou disto mas parece completamente a praia deles. A Hardy Amies Ltd., de Saville Row, alfaiate e pronto-a-vestir para as elites londrinas, cujo fundador (falecido em 2003) foi responsável pelo guarda-roupa de 2001 de Stanley Kubrick, está a produzir uma série de vídeos sobre bairros de Londres, centrados sobre figuras específicas de artesões que neles habitam.

Isto parece saído da cabeça de Tyler Brûlé: a cidade, Londres, a vida local dos bairros, o regresso à preocupação individual da manufatura, a moda elegante e discreta, a qualidade dos conteúdos. Haja quem neles invista. Calculo que a roupa que os senhores vendem seja cara.

Abaixo os dois primeiros episódios, um sobre um senhor cuja especialidade é torrar café e mora em Hackney, outro sobre um soprador de vidro de Bermondsey.

 

Hardy Amies Neighbourhood Portraits: Hackney - Mikey Sorbello from Present Plus on Vimeo.

 

Neighbourhood Portraits - Layne Rowe from Hardy Amies on Vimeo.

Da língua.

Há um pequeno rectângulo no mosaico de ilustrações da capa da última Monocle que menciona Portugal. Mesmo antes do final da revista, descobre-se uma reportagem em texto e imagem de umas 15 páginas (creio) sobre os Jogos da Lusofonia. É interessante perceber como, vistos de fora, os Jogos da Lusofonia são uma grande festa multicutural, parte de uma opção política de influência global baseada na língua.

Vista daqui, a política portuguesa para a língua respectiva é um caos político de ministérios que adoram embirrar uns com os outros e raramente se entendem: Cultura, Negócios Estrangeiros e Educação, só para mencionar os mais importantes. Perde-se mais tempo nas minudências e implicações com o Acordo Ortográfico (na maior parte dos casos com desconhecimento de causa) do que a discutir o que raio é essa coisa de "uma política da língua". E há sempre a proposta de fazer um museu e arrumar o assunto.

Não tenho nenhuma ideia mirabolante para a política da língua, mas algumas coisas parecem-me evidentes. Portugal, país de origem da dita língua, é cada vez mais o país com menos falantes da dita. Há sempre qualquer coisa de neo-colonial numa política transnacional da língua. A língua portuguesa é rica, vibrante, plena de invenção e mutação, nomeadamente ao nível da escrita, do romance, da poesia, da canção. Os media (os portugueses, os outros não sei) tratam a língua abaixo de cão, nem sequer a sabendo falar, muito menos escrever. É talvez consequência de um sistema educativo que se marimba cada vez mais na dita língua.

Eventos como os Jogos da Lusofonia, políticas abertas e cruzadas de emigração, promoção da cultura e da educação miscigenada, global e admitindo a diferença dentro da língua portuguesa, das múltiplas culturas que tocou, parecem-me ser o mais interessante, divertido e produtivo caminho de futuro. Entendam-se, por favor.

Lisboa na Monocle.

A Dom Pedro V (e cercanias) é a rua escolhida no último número da Monocle, na série dedicada a ruas interessantes em grandes cidades. Interessantes pelo comércio e pelo espírito dos que vivem e fazem o seu negócio por aí. É a segunda que conheço a sério, das que têm abordado, depois da Lamb's Conduit Street. Já tinha aliás falado da zona aqui. A eles faltou-lhe um salto à Poesia Incompleta (se calhar já é um pouco longe) e o artigo online é só para subscritores.

Poesia e Chocolate

O Tyler Brûlé (por via sobretudo da Monocle) anda a tentar convencer-me (a mim e a todos os que a lêem) de que um novo tipo de comércio tradicional e de manufactura poderá ser instrumento essencial para o salvamento dos centros desertificados, peça do puzzle para o futuro das cidades.

A ideia é simples de aparência: lojas pequenas, com empregados dedicados e simpáticos, profundos conhecedores do seu mister, envolvendo os seus clientes com uma atenção genuína na venda e na compra. Um upgrade de um comércio tradicional envelhecido, com qualidade, longe de um mundo de centros comerciais e franchises.

Nesse contexto tem dedicado a sua atenção a ruas específicas de cidades escolhidas onde esse espírito parece permanencer ou renascer. É o caso da Lamb's Conduit Street que visitei em Dezembro - acabei a comprar um belíssimo livro de Laurie Anderson, numa loja de livros de fotografia onde o empregado era português (!). Foi prenda de natal ideal para uma amiga.

Talvez uma das próximas possa ser a Rua Cecílio de Sousa, em Lisboa, embora seja talvez cedo para isso.

No número 11 fica a Livraria Poesia Incompleta, especializada, como seria de esperar em todas as formas de lírica. O Mário, à mesa, entre inúmeros volumes, latas de Coca-Cola cheias e vazias, cinza e maço de tabaco, boas recomendações e opiniões definidas, foi um poeta em forma de empregado de loja, ou talvez o contrário. Saí de lá mais pobre e mais rico. Sobre essa poesia, falarei mais tarde.

Mais acima, no número 85, fica a loja de chocolate, cacau e café de Claudio Corallo, de que o Daniel já me tinha falado. Tem site internacional (curiosamente não em português, apesar das plantações em São Tomé e da loja em Lisboa), mas também isso é provavelmente um sinal de visão, de uma pequeníssima loja na velha Lisboa, para o mundo. Pelas mãos da simpática senhora por trás do balcão, saí de lá guloso, com chocolate a 80% de cacau.

Numa pausa de sol na manhã de sábado em Lisboa, num dia próximo de perfeito (a companhia ajudou), estes lugares e o seu comércio renovaram a minha paixão pela cidade, de onde saíram também as fotografias abaixo.

 

Prix Pictet

A missão do Prix Pictet é promover a excelênica em fotografia, centrada em torno do tema da sustentabilidade ambiental. Não sabemos se vair haver segundo ano (o prémio é financiado por um banco suíço e os ventos não estão amenos para esses lados), mas no primeiro ano, o vencedor foi o fotógrafo canadiano Benoit Aquin, com uma reportagem fotográfica sobre o dust bowal chinês, resultado de anos de agricultura não-sustentável.

Vale a pena ver abaixo o vídeo da Monocle sobre o prémio e a sua entrega em Paris, pelo ex-secretário geral da ONU, Kofi Annan.Quem reporta é Robert Bound, o editor de cultura da Monocle.

Monocle

A última (e única) revista que me lembro de assinar foi a Wired, quando a Wired era uma referência da revolução digital e do futuro que nos esperava ao virar do milénio. Ainda guardo alguns exemplares dessa era, mais por nostalgia do que qualquer outra coisa.

Agora voltei a assinar uma revista, a Monocle, do senhor Tyler Brûlé, que entre outras coisas, inventou a Wallpaper (cuja venda o tornou incrivelmente rico) e o The Desk, um programa da BBC Four.

A Wallpaper tinha como projecto ser uma revista sobre a superfície das coisas, um certo estilo de vida aspiracional, onde o lado visível fazia toda a diferença. Esse é ainda o espírito que mantém, creio, com inúmeras imitações no mundo editorial.

A Monocle é uma revista sobre tudo ou quase, não só o que está à superfície, mas também o que se passa em termos de sustentabilidade, política, globalização, viagens, tudo um pouco. Mesmo o que eu preciso.