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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Dia Mundial da Música.

É apenas a segunda vez na vida que vou ouvir Clara ao vivo. O meu fulgurante namoro com ela, que haveria de ser a grande diva Barahona Athayde, terminou umas duas semanas depois de a ver em palco pela primeira vez.

Era um recital de alunos no salão nobre do Conservatório, já na altura a cair de velho. Eu e Art éramos os mais nervosos, mais que ela, mais que os seus colegas irrequietos, correndo entre famílias orgulhosas e amigos trocistas, ansiosos pela sua vez no palco. Remexíamo-nos nas cadeiras de pau da plateia, depois de um almoço regado a sangria e encerrado com cafés. Fazíamos piadas parvas e ríamos baixinho como crianças com medo de ser apanhadas no mundo dos adultos. Art estava cómico só pela roupa, camisa aos quadrados apertada até ao colarinho, coisa que eu nunca tinha visto.

– Estás um palhaço.

– Vê lá se não te vou aos cornos.

Clara tinha já um estatuto próprio, era convidada de honra do recital, uma jovem estudante do eminente professor Jaume Hereu-Risques do Conservatório do Liceu na ilustre Barcelona. Nesse dia cantou duas árias italianas de Händel. Eu, que arrumara o canto lírico no baú das memórias de infância que não tencionava abrir, arrepiei-me, emocionei-me, orgulhei-me, mas no fim sentia apenas uma agitação, um medo sem nome que me sacudia o corpo. Era como se tivesse amado uma deusa disfarçada de forma humana nos últimos meses e recebesse agora um aviso do Olimpo de que a ia perder. De novo os deuses a iam resgatar aos meus frágeis braços humanos. Virei-me para Art, tentando confortar-me com o meu amigo, mas por baixo de um cabelo que lhe escorria para os olhos à Kurt Cobain, tinha a cara lavada em lágrimas e o corpo tenso de transe.

Ele sabia o mesmo que eu, pensava eu. Como poderíamos nós, meros mortais alguma vez aspirar a possuí-la? Clara era uma extraterrestre nas nossas vidas. Dignara-nos com a honra de uma breve visita, mas em breve partiria numa nave prateada em direcção às estrelas. Seria ela própria um ponto no firmamento. Olharíamos para cima nas noites quentes a apontá-la numa constelação. O Verão preparava-se para acabar e eu respirava com dificuldade.

Passada uma meia hora, eu e Art disfarçávamos bem essas emoções intensas e confusas. Eu beijava-a, Art abraçava-nos, já três botões da camisa desapertados, descíamos a Rua dos Caetanos agarrados, a caminho de ir ter com Edgardo que nos esperava numa tasca adiante a comer amendoins e a beber ginjinha enquanto via futebol na televisão. A minha ansiedade acalmava um pouco, mas uma alcateia de lobos parecia rondar-me o coração onde antes só houvera uma certeza sem contenda.

Em Outubro, Clara planeava voltar a Barcelona, desta vez quase por um ano e já me convidara para a acompanhar. Sem grande convicção, parecia-me, enquanto pisava os paralelepípedos de basalto, olhava a roupa estendida das varandas, a cor nas sardinheiras, a sujidade nas fachadas, os carros mal estacionados, o grande braço de Art que atravessava os ombros de Clara para tocar no meu pescoço, para acariciar o meu pescoço?

Sentia-me uma vez mais mero espectador de uma vida que por acaso devia ser a minha. Havia uma diferença, contudo: deixara de ser simultaneamente protagonista. Tentava sacudir esse pensamento para longe, mas lá à frente ele escondia-se nas esquinas para se rir escarninho e de novo se insinuar na minha distracção.

– Que tens?
– Que tenho? Como?
– Pareces aluado.
Que tenho?

– É a tua voz. Ainda a ouço, ainda me arrepia.

– É verdade, estava todo arrepiadinho, ele. Uma verdadeira galinha com limão.

– Cala-te chorão.

– Galinha à maricas, com o limão enfiado no...

– Bebé chorão.

– Vê lá se não te arranco os olhos.

– Meninos, meninos, tanta violência.

– É o que a tua música faz, pior que trash metal.

E ríamo-nos como se tudo fosse igual.

 

 

in "Regresso a Barcelona"

"Ah, eu rio de me ver tão bela neste espelho..."

Li há uns anos dois livros que me despertaram curiosidade em relação a uma figura que nunca me tinha chamado particular atenção, a da “diva” de palco. O primeiro livro foi “Bel Canto” de Ann Patchett, em que uma estrela da ópera é feita involuntária refém numa embaixada e a sua música acaba por servir de fio condutor dramático a um belo relato das relações humanas e dos seus limites. O segundo foi “In America”, de Susan Sontag, em que a personagem principal é actriz e não cantora, mas para todos os efeitos estamos a falar do mesmo universo.

Quando eu era criança, a imagem que tinha das estrelas de ópera era Bianca Castafiore cantando vezes sem conta a Ária das Jóias do Fausto de  Gounod para atormentar o Capitão Haddock nos livros de Tintin. Lembro-me de ver Elizabeth Schwarzkopf ensinar um jovem a cantar a ária do catálogo do Don Giovanni de Mozart na televisão por essa altura e a imagem parecia-me colar-se perfeitamente ao que tinha em mente: uma senhora de meia idade, nariz no ar e voz poderosa. Hoje a ideia da diva de ópera como matrona foi substituída por uma nova geração de estrelas que em nada ficam a dever às de cinema e televisão.

Um dos mitos sobre a vida de Maria Callas é que quando decidiu emagrecer, perdeu capacidade vocal e a sua carreira definhou. É contudo a imagem de uma Maria Callas elegante ao lado de Onassis que sobrevive nos media e na nossa memória. E parece-me apropriado, visto que a palavra Diva é italiano para Deusa e as Deusas que veneramos hoje em dia são necessariamente elegantes e belas, mais próximas de uma Mimi de La Bohème do que de uma Valquíria de Wagner.

Cecilia Bartoli, Angela Gheorghiu, Natalie Dessay são algumas das divas que hoje preenchem o imaginário e os ouvidos dos amantes de ópera no mundo todo. A Bartoli está frequentemente nos tops explorando a história do género nos seus CDs de luxo, como “Opera Proibita” e “Maria”, uma homenagem à primeira das divas, Maria Malibran. Angela Gheorghiu casou com o brilhante tenor Roberto Alagna e estou certo que fazem duetos maravilhosos em conjunto. Aliás, fiel à imagem da diva caprichosa, Angela foi despedida de uma produção de “La Bohème” por ter faltado a dez ensaios. A justificação? Queria ir a Nova Iorque ver o marido em “Romeu e Julieta“.

O caso que mais me fascina actualmente, contudo, é o de Natalie Dessay. Francesa de nascimento, iniciou a sua carreira antes dos vinte anos, novíssima, se pensarmos que a voz atinge o seu potencial máximo por volta dos trinta e tal anos. Não tem sido uma carreira fácil, contudo, e foi já operada às cordas vocais por duas vezes e por duas vezes regressou triunfalmente. Tem já concertos marcados até... 2014. Já tinha feito um post com a sua brilhante interpretação da ária da Rainha da Noite, da “Flauta Mágica” de Wolfgang Amadeus Mozart, mas podemos vê-la e ouvi-la aqui ao lado em “Glitter and Be Gay”, uma ária da ópera “Candide” de Leonard Bernstein, um dos mais brilhantes compositores do século XX.

Bernstein é dos meus compositores americanos favoritos por via do musical West Side Story, de que foi feita recentemente uma edição comemorativa com a histórica gravação de José Carreras e Kiri Te Kanawa (mais uma diva, neo-zelandesa).

“Candide” é uma ópera baseada no texto de Voltaire e “Glitter and be Gay” é uma ária que só uma virtuosa consegue cantar, pois além de exigir uma voz capaz de notas agudíssimas, exige igualmente técnica respiratória apurada (sobretudo para as gargalhadas) e uma coisa que costuma faltar a muitos cantores de ópera... capacidade para representar, entre a desilusão, o humor e o sarcasmo.
Curiosamente é uma espécie de “Material Girl” no tema e deve ser cantada no meio de jóias, um pouco como a ária com que Castafiore atormentava as restantes personagens de Hergé.