Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Comecei a ler o "H is for Hawk"...

...da Helen McDonald, que já está felizmente traduzido em português como "A de Açor". Ganhou o Samuel Johnson Prize que distingue não-ficção e o Costa Book of the Year, ambos em 2014. Mistura biografia, memória e natureza. É tão boa a mistura que à página 50 já estou obcecado por falcões, açores e etc.. Ainda por cima depois de ter lido o ano passado o igualmente brilhante (embora muito, muito diferente) "Grief Is The Thing With Feathers" de Max Porter. Outra vez a dor da perda e pássaros.

Abaixo uns vídeos, só porque... ver.

 

 

 

Este último, merece introdução. É uma adaptação da BBC de "The Goshawk", de T.H. White, a que Helen McDonald dedica especificamente o quarto capítulo do seu livro. Produzida e realizada em 1969 por David Cobham.

A propósito do sumo de laranja.

Há largos anos na faculdade, um professor disse-me (a mim e a quem o ouvia) que o mundo que se aproximava, o da viragem do milénio, era um mundo de muros, de fronteiras, de decisões e que, como Humpty Dumpty, íamos ter dificuldade em equilibrar-nos em cima do muro sem cair para um dos lados.

Triste sina a nossa, têm sido décadas de extremismos e fundamentalismos, de fé no invísivel, sejam as virgens prometidas por Alá aos jihadistas, seja a famosa mão do mercado, seja o literalismo cristão americano, seja a de uma vida inteiramente mediatizada e dominada pela tecnologia. Dos muitos muros que se nos oferecem, há um que me faz sempre bastante confusão, aquele que supostamente separaria o tecnológico do natural.

A natureza, a nossa ideia da natureza, tanto quando a vivemos quando somos, como eu, urbanos, é uma construção romântica, política, ficcional em alguns casos. A civilização foi inventada para nos defender da natureza, não para que por ela suspirássemos a cada esquina. Por outro lado, o tecnológico tem cada vez mais de natural, rodeia-nos, condiciona-nos, cria-nos necessidades, está onde estamos, sempre.

Para o marketing, tudo isto é irrelevante visto que, como é sabido, é um contexto em que a realidade não existe. Descobrir que a Coca-Cola Company usa, para garantir a fórmula do seu sumo de laranja 100% natural vendido nos Estados Unidos, o mesmo algoritmo que a Delta Airlines usa para maximizar a receita por milha voada, foi apenas a confirmação disto. Está tudo neste artigo da BusinessWeek.

Se querem sumo de laranja natural, espremam laranjas. Tudo o resto terá sido produzido industrialmente, oxigénio extraído, sabor ajustado ao pormenor, conservação garantida em tanques de milhões de litros. É claro que as laranjas que espremerem poderão também já ter seguido um percurso nada natural, através dos insondáveis caminhos da globalização do frio. Podem sempre ter uma laranjeira no quintal. Mas para isso precisam de ter quintal.

Dito tudo isto, não tendo laranjeira nem quintal, se calhar prefiro abraçar a capacidade da tecnologia para inventar de raiz um sumo, um sabor, uma composição química mais interessante do que um suposto sumo natural que é tão artificialmente produzido como este. Ou isso ou bebo um vodka. Sem sumo de laranja.

 

O quadro que ilustra este post é 'Filho do Homem com uma Laranja (inspirado por Magritte)', da artista polaca Emilia Ewa Kwiatkowska, que trabalha na Finlândia como Engenheira Informática. Tudo a ver com o conteúdo.