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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O Críquete.

Há coisa de dez anos entrei num Pub com o Frank Boyd, um amigo inglês, e num ecrã gigante ao fundo estava a ser projectado um jogo de críquete. Era o fim da tarde e todas as caras no local estavam fixadas na acção que, para mim, era um total enigma. Homens vestidos de branco, de equipas para mim indistintas, atarefavam-se num relvado impecável.

Perguntei ao Frank se me conseguiria finalmente explicar aquele jogo com pontuações centenárias, jogos cuja duração eu não conseguia perceber e equipas quase exclusivamente reduzidas ao mundo da Commonwealth. Ele riu-se e disse-me que era impossível de explicar, era preciso ter nascido com o desporto, tê-lo seguido desde sempre para o perceber.

Sendo adepto de desportos de regras relativamente simples (se bem que nem sempre bem cumpridas) como o futebol, invejei o lado iniciático daquela espécie de basebol mais terreno, mais campestre. Mesmo o basebol é para mim bastante incompreensível, percebo apenas que tem aquele ritmo muito americano de momentos de acção frenética alternando com esperas para consumo de comida e bebida.

Vem isto a propósito de andar a ler o "Netherland" do Joseph O'Neill (capa aqui ao lado) em que precisamente o críquete atravessa o romance como uma alegoria desse sentimento muito americano de ser uma terra numa terra estranha e, mesmo assim, ansiar por uma pertença total a um sonho de miscigenação. O que é brilhante no O'Neill (e parece de repente que tenho uma predilecção por autores com este apelido) é como, mesmo para o leigo no críquete, esta alegoria passa inteira numa escrita também ela muito americana.

Diz-me o blog da LER que o livro será publicado em português lá para depois do Verão. Longa se torna a espera.