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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Você decide.

Escrevi um texto sobre Random Access Memories no SAPO Música. Saiu ontem, ei-lo aqui.

- Já ouviste o novo disco de Daft Punk?

- Alguém ainda não ouviu o novo disco de Daft Punk? Está em streaming à borla na net, já leakou em versões oficiais e oficiosas vinte vezes, há covers, versões, remixes, cabras a cantar. Antes de sequer chegar às lojas, teve aquela série de vídeos dos Collaborators, teasers de teasers, um single, capas de revistas sem fim. Até a Pitchfork se rendeu. É só marketing, esse disco.

- Sim, a campanha de lançamento foi genial, mas já ouviste o disco?

- Ouvi sim senhor. E acho uma parvoíce. O hype foi tão grande que estava à espera que a minha cabeça explodisse com a novidade e começasse a sangrar das orelhas. Estava à espera de algo tão inesperado e polémico como quando eles começaram. Afinal, prometeram-nos reinventar a música eletrónica. A verdade é que aquilo soa a anos 70 e 80 requentados e tem lá as múmias que ajudam a isso, o Moroder e o Rodgers e o Williams.

- O Pharrell?

- Não, o Paul.

- Essas múmias como tu lhes chamas foram importantíssimas a definir a pop dos últimos 30, 40 anos, são grandes músicos e produtores, referências bem recuperadas para injetar alguma vida à pop atual em que é tudo parecido. E também há o Casablancas e o Panda Bear e o Pharrell, claro. Esses também são múmias?

- Boas maneiras de vender o disco a mais gente.

- Não sejas assim, são contribuições excelentes. O disco é variado e complexo, exige ser ouvido várias vezes.

- Eu sei que ninguém tem memória hoje em dia. Mais e mais informação, criação, produção humana está disponível de forma quase instantânea. São imensos os casos bizarros que demonstram isto na internet: gente que morre todos os anos só porque alguém volta a publicar a notícia; bandas que fazem covers de originais em que os autores originais são acusados de imitadores, só porque os primeiros têm mais "fãs". É uma confusão. Por isso é natural que haja gente a ouvir isto e a pensar que é novo.

- Mas ouve lá, a música pop sempre viveu da nossa memória curta e da nossa vontade de regressar a lugares sonoramente confortáveis – o digital só o veio reforçar. A reciclagem de acordes, ritmos, arranjos, processos, formações de bandas, o reinventar de sons já inventados, o eterno retorno do rock, do funk, do folk, da soul, deste ou daquele sample, deste ou daquele ritmo fazem parte do dia-a-dia da música popular. O que não é necessariamente mau, se nos soubermos orientar.

- Estás a dar-me razão.

- Nada disso. O que é interessante neste disco é esta reciclagem permanente ser assumida, trabalhada, explicada, demonstrada sem pudor e acabar por se revelar como um nó no contínuo espaço-temporal da música que ouvimos hoje em dia. São trinta, quarenta anos de música reinventados. É uma ambição tremenda. Se o achamos diferente ou igual, cool ou cheesy, chato ou divertido, reacionário ou inovador parece-me ser mais uma questão pessoal.

- Que drogas é que tu andas a tomar?

- No fim, o que vale mesmo a pena é ouvir. Até porque se pode ouvir antes de comprar, antes de decidir recompensar o artista. Por mim gosto muito da "Instant Crush" que me parece melhor que o último álbum de Strokes, da "Lose Yourself To Dance" e da "Get Lucky" que me dão vontade de dançar, da "Doing It Right" mesmo não mencionando o Benfica nem estando na banda sonora de um filme dos anos 80, a "Motherboard" lembra-me Moloko e o delírio final de "Contact" encerra bem o álbum.

- Põe lá isso a tocar outra vez.

Get Lucky. Princípio de um estudo de caso.

Ainda é cedo para conclusões em relação ao processo de lançamento do novo disco dos Daft Punk, "Random Access Memories", ainda não há primeiro single completo, o álbum só sai a 21 de Maio. No entanto, naquilo que é hoje a indústria musical, nos seus processos de promoção e ocupação do território digital, parece-me claro que se está perante um verdadeiro estudo de caso. Para já, apenas uma breve cronologia que o DEC me ajudou a compilar.

 

26 Fev. - Confirmada a transferência dos Daft Punk para a Columbia Records. É relançado o site oficial da banda. Adivinham-se novidades para breve.

 

2 Mar. - Lançamento de um teaser dos Daft Punk, com banda sonora correspondente a uma faixa inédita, durante o intervalo do programa Saturday Night Live. A escolha de um programa que tem um público sobretudo jovem e urbano e grande efeito viral na Net é a escolha perfeita.

 

 

18 Mar. - A Sony Music (detentora da Columbia Records), regista no Reino Unido, 13 faixas musicais do que aparentam pertencer ao possível novo álbum dos Daft Punk.

 

23 Mar. - Anúncio do lançamento do novo álbum dos Daft Punk, Random Access Memories com data de 21 de Maio. Inicia-se a pré-venda online, nomeadamente no iTunes. É lançado um segundo teaser, de novo durante um intervalo do Saturday Night Live.

 

 

3 Abr. - Lançamento do primeiro vídeo da série The Collaborators com entrevista a Giorgio Moroder. Giorgo Moroder, ícone da música eletrónica dos anos 80 será um dos participantes no álbum. A série The Collaborators, aparentemente, apresentará os vários colaboradores. A série é produzida no âmbito de um outro projeto de nome The Creators Project, uma colaboração entre a Intel e a Vice. O projeto apresenta-se como "a global celebration of art and technology (...) celebrates visionary artists across multiple disciplines who are using technology in innovative ways to push the boundaries of creative expression."

 

 

8 Abr. - Lançamento do segundo vídeo da série The Collaborators com Todd Edwards.

 

 

9 Abr. - Anúncio do lançamento global de RAM no Annual Wee Waa Show, a 17 de Maio. O Annual Wee Waa Show é uma feira agrícola, remota, na Austrália. Os Daft Punk continuam a trabalhar o seu posicionamento e o posicionamento do seu novo álbum.

 

11 Abr. - Lançamento do terceiro vídeo da série The Collaborators com Nile Rodgers.

 

 

12 Abr. - Projecção de um teaser de Random Access Memories, com imagens do videoclip do single Get Lucky e lista dos coloboradores que participaram no álbum (Julian Casablancas dos Strokes, Panda Bear dos Animal Collective, Pharrell Williams, Paul Williams, Nile Rodgers, Giorgio Moroder, Chilly Gonzales, DJ Falcon e Todd Edwards), durante o Festival de Coachella. A lista é inesperadamente diversa. Os primeiros vídeos deste teaser aparecem filmados a partir do público no Youtube. Há já mais de um minuto de música, incluindo partes cantadas por Pharrell.

 

 

13 Abr. - Entrevista da Rolling Stone aos Daft Punk, revelando novas informações sobre um álbum. O vídeo que foi projetado em Coachella aparece num novo intervalo de Saturday Night Live sem a lista de colaboradores.

 

 

15 Abr. - Lançamento do quarto vídeo da série The Collaborators com Pharrell Williams.

 

 

16 Abr. - Divulgação do nome das faixas musicais presentes em Random Access Memories através de um vídeo Vine, uma aplicação mobile de vídeo com uma lógica semelhante à do Instagram.

 

Ao dia de hoje, há já no Youtube dezenas de versões falsas do novo single que resultam da colagem em loop da música que se conhece, covers feitas em guitarra acústica e outros instrumentos, remixes da música que já se conhece. E ainda nem sequer existe o single. Uma pesquisa no Youtube a "daft punk get lucky" produz mais de meio milhão de resultados.

De toda esta fan art, a minha favorita é o vídeo abaixo que, num loop muito curto e muito repetido, sobrepõe a música dos Daft Punk a imagens de Emma Watson no novo filme de Sofia Coppola, The Bling Ring. Everything is a remix.