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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Pedro Homem de Mello - Véspera

Seríamos dois faunos sobre a praia,
Batidos pelo vento e pelo sal,
Tendo por manto apenas a cambraia
Da espuma
E, por fronteira,
O areal.

Gémeos de corpo e alma,
Ver um era ver outro:
A mesma voz
A mesma transparência,
A mesma calma
De búzio, intacto, em cada um de nós!
Felicidade?
Não.
Inconsciência!

E as nossas mãos brincavam com o lume
À beira da impaciência
E do ciúme...

Pedro Homem de Mello - Solidão

A Eugénio de Andrade

 

Ó solidão! À noite, quando, estranho,

Vagueio sem destino, pelas ruas,

O mar todo é de pedra... E continuas.

Todo o vento é poeira... E continuas.

A Lua, fria, pesa... E continuas.

Uma hora passa e outra... E continuas.

Nas minhas mãos vazias continuas,

No meu sexo indomável continuas,

Na minha branca insónia continuas.

Para com quem foge. E continuas.

Chamo por toda a gente. E continuas.

Ninguém me ouve. Ninguém! E continuas.

Invento um verso... E rasgo-o. E continuas.

Eterna, continuas.

Mas sei por fim que sou do teu tamanho!

 

in O Rapaz da Camisola Verde, 1954