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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Numi, che veggio

Philippe Jaroussky & Emőke Baráth record Sartorio: 'Numi, che veggio'

With Philippe Jaroussky’s new album, La Storia di Orfeo, the French countertenor realises a long-held dream: to portray the mythic Orpheus – divine musician who ventures into the underworld to retrieve his beloved wife Eurydice from the clutches of death – in his many guises, an inspiration for the very first opera and beyond.

“This project, which was inspired by three key 17th-century operas, was conceived as a kind of opera in miniature or as a cantata for two solo voices and chorus, and features just two characters: Orpheus and Eurydice,” explains Jaroussky.

L’Arpeggiata

Christina Pluhar and L’Arpeggiata, accompanied by soprano Céline Scheen and countertenor Philippe Jaroussky, take you on an exciting journey from German songs by Schütz and Bach to motets by Monteverdi, Cazzati and Sances during the Utrecht Early Music Festival.

 

The musical programme:
Heinrich Schütz: Es steh’ Gott auf SWV356
Tarquinio Merula: Ciaccona
Heinrich Schütz: Erbarm Dich mein, o Herre Gott SWV447 and
Von Gott will ich nicht lassen SWV 366
(from: Symphoniae Sacrae II)
J.C. Bach: Ach, dass ich Wassers g‘nug hätte
J.S. Bach: Cellosuite nr. 2 in d BWV 1008,
Prelude,
Mein Jesu, was vor Seelenweh BWV 487 and
Komm, süsser Tod BWV 478
Schemelli: Per la Santissima Vergine
Heinrich Ignaz Franz von Biber: Sonate nr. 1 in d
Anonymous: Ninna nanna al Bambin Giesù
Maurizio Cazzati: Ciaconna
Ignazio Donati: O gloriosa Domina
Tarquinio Merula: Hor ch’e tempo di dormire
Giovanni Antonio Pandolfi Mealli fl.: La Vinciolina Op. 4 nr. 6
Giovanni Felice Sances: Stabat mater (Pianto della Madonna)
Claudio Monteverdi: Laudate Dominum in sanctis eius SV 287

Teatro D'Amore

Nuria Rial, Philippe Jaroussky,Christina Pluhar, L' Arpeggiata

 

Claudio Monteverdi - Toccata
Barbara Strozzi - Eraclito amoroso
Pandolfo Mealli - La Vinciolina
Claudio Monteverdi - Ohime, ch'io cado
Claudio Monteverdi - Pur ti miro
Claudio Monteverdi - Damigella, tutta bella
Tarquinio Merula - Ciaconna
Giovanni Legrenzi - Lumi, potete piangere
Claudio Monteverdi - Quel sguardo sdegnosetto
Claudio Monteverdi - Adagati, Poppea
Domenico Maria Melli - Dispiegate, guance amate
Andrea Falconiero - Batalla de Barabaso yerno de Santanas
Claudio Monteverdi - Si dolce e'l tormento
Orazio Michi del Arpa - Piangete, afflitti lumi
Luigi Pozzi - Salve Regina
Lorenzo Allegri - Canario
Claudio Monteverdi - Zefiro Torna
Giovanni Felipe Sances - Presso l'onde tranquille
Claudio Monteverdi - Damigella, tutta bella
Claudio Monteverdi - Pur ti miro

Vo solcando un mar crudele

Franco Fagioli canta uma ária de Arbace na ópera L'Artarserse (1730) de Leonardo Vinci. Diego Fasolis dirige o Concerto Köln. Para quem quiser, as três horas e um quarto da ópera completa abaixo.

 

Vo solcando un mar crudele
senza vele e senza sarte:
freme londa e il ciel simbruna,
cresce il vento e manca larte,
e il voler della fortuna
son costretto a seguitar.
Infelice! in questo stato
son da tutti abbandonato:
meco è sola linnocenza
che mi porta a naufragar.

 

O triunfo do humano.

Não me lembro exatamente de tudo o que aconteceu hoje à noite no concerto de Philippe Jaroussky e da orquestra barroca Apollo's Fire dirigida por Jeanette Sorrell.

Lembro-me do contratenor a entrar em palco, sem pausa entre o Allegro do Concerto Grosso em Ré maior, RV 511 de Handel e a «Agitato da due tempeste» da Oreste de Vivaldi. Lembro-me que algures durante a «Frà le procelle» do Tito Manlio de Vivaldi, um homem disse atrás de mim "é formidável!", marimbando-se no ritual de silêncio que costuma acompanhar estes concertos para exprimir o seu amor pela música e pela voz de Jaroussky. Lembro-me que em vários momentos quase me deixei levar pela emoção, quase fiquei de boca aberta, quase flutuei no assento. Lembro-me da festa que foi o Concerto Grosso La Follia, com o público a exigir que Sorrell voltasse ao palco por três vezes para agradecer as palmas efusivas.

A voz de Jaroussky é límpida e cristalina, capaz de proezas técnicas brilhantes. Sim, a música que ele canta tem mais de trezentos anos e é de uma época em que apenas os aristocratas lhe acediam e crianças eram castradas para garantir o futuro da sua voz angelical. Não vale a pena esquecer isso, levados pela emoção da «Alto Giove» composta por Porpora para o mais ilustre dos seus alunos, o castrato Farinelli. Foi um dos encores e está aqui.

 

 

Hoje podemos comprar um bilhete e temos felizmente um segundo (?) Ministério da Cultura na Fundação Calouste Gulbenkian que nos permite chegar à música de forma, apesar de tudo, mais democrática. Sim, mesmo com o preço dos bilhetes e com as limitações da carteira portuguesa, é mais democrática. Hoje, Jaroussky com a sua voz de violino e Sorrell com o seu entusiasmo e prazer evidente (também nos seus músicos) emocionam-nos e fazem-nos crer na música como atividade profundamente humana.

A certa altura fiquei a pensar neste vídeo partilhado pelo José Carlos Baldino no Facebook, em que Eduardo Galeano fala do direito ao delírio e de como a utopia nos serve para ir caminhando rumo ao horizonte. Sim, é isso também a música. Nem me importa muito que horizonte escolhemos. Religioso? Pagão? Humano apenas?

Não me lembro quantos encores houve. Três? Quatro? Foram poucos. E acabaram com chave de ouro, como pedia o Barroco (ainda me lembro das minhas aulas de Português do Secundário), com a maravilhosa "Ombra Mai Fu" de Handel. Aqui abaixo fica a versão de Andreas Scholl, só porque também ele vai pisar o palco da Gulbenkian a 7 de Fevereiro para cantar "o velho Bach".

 

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Via Crucis

Ao longo da Idade Média, a leitura da parte dos evangelhos dedicada à Paixão de Cristo, que acontecia durante a Semana Santa, foi evoluindo para uma interpretação, primeiro "entoada", depois "cantada", num processo que culminou já após a Reforma nos monumentos musicais protestantes que são as Paixões de Bach, segundo São Mateus e segundo São João.

Para além de todo o significado religioso da narração e interpretação dessa última semana de Cristo, a intensidade dessa Paixão prestou-se a ser colocada em música ao longo dos séculos de forma brilhante. Embora ateu, sou um devoto confesso da "Paixão segundo São Mateus" de Bach, não podia deixar de mencionar "As Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz" de Haydn ou a "Passio" de Arvo Part que vai ter interpretação na Gulbenkian por estes dias. Para além destas formas eruditas, as representações musicais da Paixão contudo, tiveram também sempre presença popular na Páscoa. Tradições que ainda hoje subsistem em todo o planeta.

Christina Pluhar (na fotografia), alaudista, com o agrupamento L'Arpeggiata, o brilhante contratenor Philippe Jaroussky e a soprano Nuria Rial, juntou-se a um agrupamento corso de nome Barbara Fortuna, para apresentar o seu caminho da cruz, combinando música erudita do século XVII (composta por Sances e Merula) com música tradicional da Córsega. O resultado é uma Paixão "inventada" de nome "Via Crucis", de uma coerência absolutamente surpreendente, apesar da diversidade das fontes.

Aqui abaixo ficam em exemplo, "Maria (sopra La Carpinese)" pelas vozes corsas e uma canção de embalar napolitana, "Ninna nanna al bambino Gesù (Napoletana)" por Philipe Jaroussky.