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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

A. S. J. Tessimond - The Man In The Bowler Hat

I am the unnoticed, the unnoticable man:
The man who sat on your right in the morning train:
The man who looked through like a windowpane:
The man who was the colour of the carriage, the colour of the mounting
Morning pipe smoke.
I am the man too busy with a living to live,
Too hurried and worried to see and smell and touch:
The man who is patient too long and obeys too much
And wishes too softly and seldom.

 

I am the man they call the nation's backbone,
Who am boneless - playable castgut, pliable clay:
The Man they label Little lest one day
I dare to grow.

 

I am the rails on which the moment passes,
The megaphone for many words and voices:
I am the graph diagram,
Composite face.

 

I am the led, the easily-fed,
The tool, the not-quite-fool,
The would-be-safe-and-sound,
The uncomplaining, bound,
The dust fine-ground,
Stone-for-a-statue waveworn pebble-round

Le Fils De L'Homme - René Magritte (1964)

A propósito do sumo de laranja.

Há largos anos na faculdade, um professor disse-me (a mim e a quem o ouvia) que o mundo que se aproximava, o da viragem do milénio, era um mundo de muros, de fronteiras, de decisões e que, como Humpty Dumpty, íamos ter dificuldade em equilibrar-nos em cima do muro sem cair para um dos lados.

Triste sina a nossa, têm sido décadas de extremismos e fundamentalismos, de fé no invísivel, sejam as virgens prometidas por Alá aos jihadistas, seja a famosa mão do mercado, seja o literalismo cristão americano, seja a de uma vida inteiramente mediatizada e dominada pela tecnologia. Dos muitos muros que se nos oferecem, há um que me faz sempre bastante confusão, aquele que supostamente separaria o tecnológico do natural.

A natureza, a nossa ideia da natureza, tanto quando a vivemos quando somos, como eu, urbanos, é uma construção romântica, política, ficcional em alguns casos. A civilização foi inventada para nos defender da natureza, não para que por ela suspirássemos a cada esquina. Por outro lado, o tecnológico tem cada vez mais de natural, rodeia-nos, condiciona-nos, cria-nos necessidades, está onde estamos, sempre.

Para o marketing, tudo isto é irrelevante visto que, como é sabido, é um contexto em que a realidade não existe. Descobrir que a Coca-Cola Company usa, para garantir a fórmula do seu sumo de laranja 100% natural vendido nos Estados Unidos, o mesmo algoritmo que a Delta Airlines usa para maximizar a receita por milha voada, foi apenas a confirmação disto. Está tudo neste artigo da BusinessWeek.

Se querem sumo de laranja natural, espremam laranjas. Tudo o resto terá sido produzido industrialmente, oxigénio extraído, sabor ajustado ao pormenor, conservação garantida em tanques de milhões de litros. É claro que as laranjas que espremerem poderão também já ter seguido um percurso nada natural, através dos insondáveis caminhos da globalização do frio. Podem sempre ter uma laranjeira no quintal. Mas para isso precisam de ter quintal.

Dito tudo isto, não tendo laranjeira nem quintal, se calhar prefiro abraçar a capacidade da tecnologia para inventar de raiz um sumo, um sabor, uma composição química mais interessante do que um suposto sumo natural que é tão artificialmente produzido como este. Ou isso ou bebo um vodka. Sem sumo de laranja.

 

O quadro que ilustra este post é 'Filho do Homem com uma Laranja (inspirado por Magritte)', da artista polaca Emilia Ewa Kwiatkowska, que trabalha na Finlândia como Engenheira Informática. Tudo a ver com o conteúdo.

Richter e Struth

Ontem li, numa entrevista ao fotógrafo Thomas Struth, como tinha sido o artista Gerhard Richter a convencê-lo a deixar a pintura e a dedicar-se à fotografia. Em boa hora. A ver se vou ver a exposição em Serralves. Struth gosta particularmente de fotografar a arquitetura como manifestação humana, além de fotografar as pessoas no espaço. Tomemos o exemplo, abaixo, pessoas num museu, observando Las Meninas de Diego Velazquez. Já não bastava toda a modernidade do quadro, com as infantas olhando-nos, a presença do pintor, a figura misteriosa ao fundo, a interrogação sobre o lugar do espectador, Struth ainda o enquadra com as suas próprias meninas à frente, com os olhares dos visitantes, mesmo aqueles que não olham o quadro.

Diga-se que também gosto de fotografar pessoas no espaço, usando o espaço para as definir. Claro que não com a inteligência de Struth. Lembrei-me de quatro fotografias que tirei em Nova Iorque, de pessoas observando L'Evidence Eternelle de René Magritte, no Met. Dois homens e duas mulheres observam esse nu feminino fragmentado em cinco ou talvez cinco janelas sobre um nu uno. A última mulher fotografa-o, enquanto eu a fotografo a ela. Mais jogos de espelhos.

   
   

Talvez, contudo, todo este post sirva só para dizer que tenciono ver a retrospetiva de Gerhard Richter em Londres, na Tate Modern. Um trailer (sim, as exposições também começam a ter disso) abaixo.