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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Curiosidade intelectual.

Girolamo Savonarola (aqui à direita) foi um padre dominicano do Renascimento (século XV), nascido em Ferrara ou nos arredores e morto em Florença de forma particularmente brutal. Um homem do seu tempo, mas já também de tempos novos, foi um dos primeiros a atacar com violência a devassidão do papado e a juntar-lhe no mesmo saco grande parte da arte da época. Defendendo um novo ascetismo, queimou livros e outros objectos que considerava "superficiais". A sua Fogueira das Vaidades tornou-se um símbolo e uma referência cultural. Apesar de ser um católico convicto e defender mais um recuo do que um avanço, a sua crítica do reino de Roma tornou-o também um símbolo para os Reformistas que haviam de vir.

Tudo isto lhe custou uma morte dolorosa, porque, como é sabido, Medici, Borgia e os italianos de um modo geral sempre foram gente vaidosa e dada ao lado estético da vida, mais do que ao ascético.

Savonarola foi preso, torturado, desmembrado (parcialmente, mas já lá vamos) e executado pendurado pelo pescoço de uma enorme cruz, usando correntes de ferro. Ao corpo atearam fogo e mesmo as suas cinzas foram queimadas uma e outra vez até nada restar de identificável. Acabaram lançadas ao Arno para que nenhuma relíquia restasse para os seus fanáticos seguidores. De nada serviu, sobreviveram os seus textos, os livros, ele que queimara livros, ironia frequente na história.

Particularmente famosos tornaram-se os seus últimos escritos, já na prisão, fazendo uso do braço que lhe restava, o direito, lamentando-se de ter acabado por assinar uma confissão em que não acreditava. É dessa altura o "Infelix Ego", uma meditação sobre o Salmo 51 (50 na numeração grega), Miserere Mei. Nesse texto, o padre fanático lamenta-se da sua fraqueza e pede perdão a Deus por ter assinado a sua confissão. Mais ou menos assim:

"Desgraçado de mim, desprovido de qualquer ajuda, que ofendi Céu e Terra - para onde irei? Para onde me virarei ainda? A quem poderei ainda recorrer? Quem terá misericórdia de mim? Para os Céus não ouso levantar os meus olhos pois contra eles pequei profundamente; na Terra não encontro refúgio, pois fui-lhe ofensivo. Que posso então fazer? Desesperar? Longe disso. Deus é misericordioso, o meu Salvador é amor. Somente Deus é o meu refúgio..."

O texto tornou-se popular e foi musicado por numerosos compositores da época, Adrian Willaert, Josquin des Prez e William Byrd, por exemplo. Foi precisamente uma gravação de música de William Byrd pelo conjunto vocal inglês The Cardinall's Musick dirigido por Andre Carwood com o título "Infelix Ego", incluindo o tal moteto, que ganhou o prémio Gramophone para Gravação do Ano de 2010. Comprador impulsivo que sou, rapidamente o descobri no iTunes, comprei e tenho ouvido. Sim, comprei.

Ora o último parágrafo deste texto (ou os factos que nele relato) foi precisamente o que me levou a descobrir mais sobre Savonarola e de onde tinha vindo tão celestial música. Nunca defenderei alguém que queima livros por motivos religiosos (ou quaisquer outros), mas quando imagino o padre na sua cela escrevendo sobre a sua infelicidade, torturado até a dor ser quase insuportável, a poucas horas de arder, toda a minha infelicidade contemporânea me parece trivial.