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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Parabéns, Gulbenkian!

'E Tudo Era Possível', poema de Ruy Belo. Imagens do autor e voz de Elisabete Caramelo

 

As comemorações dos 60 anos da Fundação, iniciadas a 23 de junho com o programa Jardim de Verão, terminam a 20 de julho com o Dia Calouste Gulbenkian. Depois dos vários eventos que juntaram a arte, a música, a literatura e o cinema, é a vez de assinalar o dia da morte de Calouste Gulbenkian com a entrega do Prémio Internacional com o seu nome, numa cerimónia presidida por Marcelo Rebelo de Sousa. Neste dia, o Anfiteatro ao ar livre recebe ainda o concerto da Orquestra Gulbenkian com Mário Laginha. O maestro Pedro Neves dirigirá o programa composto pelo Concerto para piano e orquestra de Mário Laginha e a Sinfonia n.º 5 de Beethoven. A entrada é livre, sujeita à lotação do espaço.

Logo na RTP2, a chegar à meia-noite.

Filme documentário sobre a obra e vida do poeta Ruy Belo, um dos maiores poetas da segunda metade do século XX

 

Filme documentário sobre a obra e vida do poeta Ruy Belo. Depoimentos, conversas, leituras e locais, que muito contribuíram e inspiraram a sua vasta obra.
De S. João da Ribeira, onde nasceu, até Paris para ouvir Chico Buarque de Holanda ler 2 poemas seus, passando por Madrid onde foi leitor de português, o filme retrata a sua obra e vida, através das pessoas que com ele conviveram e viveram amizades, sonhos e ilusões.
Também quem o lê, interpreta e estuda nos ajuda a compreender e a ir ao encontro, de um dos maiores poetas da segunda metade do século XX. O nosso poeta URGENTE!

 

Um filme de Fernando Centeio e Nuno Costa Santos.

Três Poemas de Ruy Belo

 

O Portugal Futuro

 

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

 

 

Poema Quotidiano

 

É tão depressa noite neste bairro 
Nenhum outro porém senhor administrador 
goza de tão eficiente serviço de sol 
Ainda não há muito ele parecia 
domiciliado e residente ao fim da rua 
O senhor não calcula todo o dia 
que festa de luz proporcionou a todos 
Nunca vi e já tenho os meus anos 
lavar a gente as mãos no sol como hoje 
Donas de casa vieram encher de sol 
cântaros alguidares e mais vasos domésticos 
Nunca em tantos pés 
assim humildemente brilhou 
Orientou diz-se até os olhos das crianças 
para a escola e pôs reflexos novos 
nas míseras vidraças lá do fundo 

Há quem diga que o sol foi longe demais 
Algum dos pobres desta freguesia 
apanhou-o na faca misturou-o no pão 
Chegaram a tratá-lo por vizinho 
Por este andar... Foi uma autêntica loucura 
O astro-rei tornado acessível a todos 
ele que ninguém habitualmente saudava 
Sempre o mesmo indiferente 
espectáculo de luz sobre os nossos cuidados 
Íamos vínhamos entrávamos não víamos 
aquela persistência rubra. Ousaria 
alguém deixar um só daqueles raios 
atravessar-lhe a vida iluminar-lhe as penas? 

Mas hoje o sol 
morreu como qualquer de nós 
Ficou tão triste a gente destes sítios 
Nunca foi tão depressa noite neste bairro 

 

 

E Tudo Era Possível

 

Na minha juventude antes de ter saído
da casa de meus pais disposto a viajar
eu conhecia já o rebentar do mar
das páginas dos livros que já tinha lido

 

Chegava o mês de maio era tudo florido
o rolo das manhãs punha-se a circular
e era só ouvir o sonhador falar
da vida como se ela houvesse acontecido

 

E tudo se passava numa outra vida
e havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

 

Só sei que tinha o poder duma criança
entre as coisas e mim havia vizinhança
e tudo era possível era só querer

Ruy Belo - Morte ao meio dia

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

Que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer