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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Hoje na Gulbenkian

A transposição para a linguagem musical da riqueza de ambientes e culturas inscritos em O Senhor dos Anéis atinge um novo limiar com a apresentação de As Duas Torres, o segundo capítulo da trilogia.

Depois do grande sucesso da projeção do filme A Irmandade do Anel, com a música de Howard Shore a ser interpretada ao vivo pelo Coro e pela Orquestra Gulbenkian, o público poderá repetir esta experiência de alta definição de uma forma ainda mais envolvente, desde logo com a invulgar presença de mais de 200 músicos em palco.

Sobre Bandas Sonoras

Howard Shore não está nomeado para nenhum Óscar este ano mas recentemente tive oportunidade de rever o primeiro filme de "O Senhor Dos Anéis" acompanhado ao vivo pela Orquestra e Coro Gulbenkian e este pequeno vídeo surge, por isso, no momento certo.

Vale, aliás, a pena, ver todos os vídeos do autor, Evan (The Nerdwriter) que se apresenta assim:

Hey everyone! Thanks for coming to my page.

I'm Evan. I'm a novelist, and I do a vlog every wednesday on things that caught my eye that week. I have to confess up front: it's all a shameless ploy to get readers for my book. (Honesty is the best policy.) I figure why not make it interesting in the process? It's fun to do anyway. If you have a youtube account, please subscribe. Otherwise, watch and enjoy!

Mais logo no Gulbenkian.

Após uma primeira apresentação do formato filme-concerto, em maio de 2015, com a projeção de 2001 – Odisseia no Espaço de Stanley Kubrick, é agora a vez de Coro e Orquestra Gulbenkian se juntarem para a interpretação ao vivo da banda sonora de Howard Shore para o filme O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel, realizado por Peter Jackson. Shore pensou a banda sonora como uma partitura operática e quis destacar as línguas criadas por J. R. R. Tolkien no seu épico literário, assim como transportar de imediato o ouvinte para um universo fantástico.

A long time ago in a galaxy far far away.

A discussão sobre questões de direito de autor, cópia privada, partilhas na Internet, pirataria e afins está ao rubro e isso incomoda-me. Incomoda-me porque há uma tendência dominante para, quer na imprensa, quer do lado de alguns dos representantes dos autores, da cultura e da indústria de conteúdos, extremar posições e definir um muro em que de um lado fica a tecnologia e do outro ficam os autores, como se, neste momento como noutros antes na história, não vivessem um do outro.

O Guttenberg, ficava do lado da tecnologia? E os irmãos Lumière? O Georges Meliés? É um momento de mudança acelerada, naturalmente confuso e em que paradigmas e modelos a que estávamos habituados parecem servir-nos mal. Uma altura boa para pensar. Um destes dias volto lá.

Desviando-me deste debate como quem se desvia de uma chuva de setas, de uma bala ou de um sabre de luz, nos últimos tempos anda a interessar-me a discussão sobre os chamados 'universos de fantasia' ou de ficção científica que, também recentemente, têm dominado parte importante do nosso entretenimento, nomeadamente no audiovisual: de 'O Senhor dos Anéis' aos super-heróis da Marvel e da DC, de 'Os Jogos da Fome' a 'Star Trek' e 'Star Wars', partes importantes da nossa atenção e do nosso bolso são seduzidas por estas sereias.

A importância do 'Star Wars' em tudo isto é absolutamente central na história do entretenimento. Foi, eu diria, o primeiro filme da história do cinema em que um autor, George Lucas, percebeu que poderia contruir um negócio (e ambicionar um império, entretanto devorado por outro - a Disney - como é próprio dos impérios) em cima de um universo alargado, para além do(s) filme(s) e da história que contam, do universo que apresentam. Leia-se, neste perfil de Lucas, publicado em 1979:

From the start, Lucas was determined to control the selling of the film, and of its by-products. "Normally you just sign a standard contract with a studio," he says, "but we wanted merchandising, sequels, all those things. I didn't ask for another $1 million-just the merchandising rights. And Fox thought that was a fair trade." Lucasfilm Ltd.,. the production company George Lucas set up in July 1971, "already had a merchandising department as big as Twentieth Century-Fox has. And it was better. When I was doing the film deal, I had already hired the guy to handle that stuff."

Aqui ao lado, um poster da época, publicitando merchandising para 'The Empire Strikes Back'.

O Jason Kottke, com este post, despertou-me a atenção, ao citar o Matt Webb, sugerindo que o universo 'Star Wars' podia ser um género, como o western, aberto, em vez de uma franchise proprietária:

Imagine, imagine if Disney had said: Star Wars isn't a franchise, it's a genre.

The legendary galaxy, a long time ago, far far away, is well understood: What's true is what's in the Holocron continuity database.

Open the Holocron. Show everyone what's in it. Let it become history.

Then let anyone make movies and books that share the Star Wars world. Not like all those other franchises that argue about what's canon and what's not... rise above it, become a new shared set of conventions, formulas, history and myth, just like the western but for the 21st century.

Afinal de contas, períodos históricos específicos como a Inglaterra de Henrique VIII, a conquista do Oeste ou os Anos 70 e 80 são isso mesmo, um conjunto de princípios e regras mais ou menos abertas a que qualquer autor pode aceder, construindo as suas próprias histórias, mundos, invenções - maneiras de falar, roupas, lugares, referências contextuais, acontecimentos documentados, tecnologias específicas. Quer isto dizer que a história é open source e a fantasia é proprietária?

Aqui a coisa torna-se mais confusa. É óbvio que os mundos de fantasia foram criados por um autor ou por um conjunto de autores ao longo do tempo e, nesse sentido, esse(s) autor(es) têm direitos sobre eles. O que se passa é que os mais populares de entre estes mundos tornam-se rapidamente propriedade também dos consumidores, leitores, espetadores. E estes são bastante mais raivosos do que o próprio autor na sua suposta defesa.

É aí também que surge por exemplo o universo apócrifo da 'fan fiction', ela sim, sem limites, mas normalmente não caucionada ou validada pelos detentores da franchise e do canône que sobre ela existe.

O que acontece, contudo, quando a indústria do entretenimento quer 'renovar' um canône, obter novas receitas sobre um mundo que parece completamente cristalizado pela devoção dos seus fãs?

Aqui entra este artigo do The Telegraph com o sugestivo título 'The Hobbit: How the 'clomping foot of nerdism' destroyed Tolkien's dream - and the fantasy genre'. Uma citação:

What nerds are chasing when they get passionate about canon is a fantasy of purity – the idea that a fictional world could be solely dictated by its own internal consistency and not by real-world demands. But they are forgetting how the original, Biblical canon was formed. Like some humming simulation, fantasy canons can be quickly snuffed out if their owners in the real world decree. Star Wars is changing because the people who own it want JJ Abrams to make a new movie and make them more money. They believe he can’t do that if he’s bound and encumbered on every side by the intricate designs of its previous stewards. That, in the end, is that.

Não ponho em causa que seja em primeiro lugar uma questão de dinheiro. A Disney quer ganhar mais dinheiro com o 'Star Wars'. O que é interessante é a escolha de JJ Abrams para o fazer, uma escolha inteligente, visto que estamos a falar de um realizador que fez precisamente isso em relação a 'Star Trek'. E aqui, o círculo fecha-se.

As principais qualidades de JJ Abrams não estão diretamente ligadas à sua capacidade para ser um bom realizador, tomando de barato que o é. As suas principais qualidades têm a ver com a forma como consegue contar uma história sem se desviar muito do que as audiências atuais genéricas esperam de uma história (um percurso de herói seguindo o 'monomito'), satisfazendo ao mesmo tempo o conhecimento obscuro do cânone que os fãs mais raivosos têm e construindo um espetáculo sensorial que apele a todos. It's a bingo!

Ainda não tendo visto o último filme da trilogia 'O Hobbit', desconfio que o artigo do The Guardian tem razão, ao dizer que Peter Jackson prefere ceder ao canône (e à vontade de pôr os fãs a render - salvo seja) em deterimento de uma história bem contada.

Mas no fim de tudo isto, mais uma vez, para mim, o debate está no tema do costume: saber que histórias podemos ainda construir num mundo totalmente mobilizado pela tecnologia, omnipresente em formas de necessidade e controlo mas também liberdade e criatividade. Dito isto, mais uma vez, let's look at the trailer.

 

The Hunt For Gollum.

Já tinha mostrado aqui o trailer deste exemplo máximo de fanfiction, um fenómeno que está algures num território nebuloso entre a admiração, a obsessão e a criatividade. O filme está pronto e até tem umas legendas (lamentáveis) em português, como alguém me avisou num comentário aqui há tempos.

É mais um exercício de imitação de estilo, de reverência, de demonstração de destreza, devidamente inspirado nos originais "Lord of the Rings", mas vale a pena uma espreitadela. Está aqui em HD (ou o que passa por HD na Net).