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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Do aborrecimento.

Domingo à noite é talvez o momento ideal da semana para fazer um post sobre o aborrecimento, a chatice, o tédio. Em particular depois de um fim de semana excelente, de dias e noites plenos de sorriso. Com a noite a acentuar a inevitabilidade da segunda-feira (aquela coisa que o Garfield odeia), os sunday night blues batem com mais força.

É por isso a altura perfeita para falar de um textinho genial do Joseph Brodsky que está aqui. É um excerto de uma adaptação de um commencement address de uma universidade americana (Dartmouth) - pausa para aconselhar outros dois, um de Steve Jobs em Stanford e outro de Seth McFarlane em Harvard. Vão ver que vale a pena. Tudo isto me lembra também o "Into The Wild" e um poema de Sharon Olds, mas adiante.

Diz o genial senhor Brodsky: "you'll be bored with your work, your friends, your  spouses, your lovers, the view from your window, the furniture or wallpaper in your room, your thoughts, yourselves. Accordingly, you'll try to devise ways of escape. (...) you may take up changing your job, residence, company, country, climate; you may take up promiscuity, alcohol, travel, cooking lessons, drugs, psychoanalysis."

E mais adiante: "When hit by boredom , let yourself be crushed by it; submerge, hit  bottom. In general, with things unpleasant, the rule is: The sooner you hit bottom, the faster you surface."

Não me apetece dizer mais nada, depois de ler isto, mas também me lembrei de uma música, o "Rock Bottom Riser", de Smog, porque sempre achei que era uma música sobre isto, bater no fundo e voltar à superfície. É este vídeo aqui abaixo.

Seth MacFarlane

Seth MacFarlane é autor de algum do humor mais corrosivo que tomou conta da televisão americana nos últimos anos. É ele a mente criativa por trás das séries "Family Guy" e "American Dad" e em breve um spin off da primeira, "Cleveland".

Mais até a primeira que a segunda, são uma espécie de Simpsons com ácidos. As piadas são esticadas ao limite do aceitável; todos os preconceitos (raciais, sexuais, xenófobos) são usados como tema de comédia; o american way of life é arrasado e reconstruído, frequentemente várias vezes por episódio; o humor mais escatológico ou flatulento tem presença frequente. Aceitar que o humor possa ir assim tão longe é, suponho, uma questão de gosto. Por mim acho que essa é uma das funções do humor, testar os limites do nosso riso, neste caso, pelo excesso.

Não é só isto que é interessante, contudo. A construção narrativa dos episódios, a sua permanente hipertextualidade, agarram um público absolutamente contemporâneo, que agarra as referências e a sua desconstrução, o ritmo delirante da história e dos seus apartes, o serpentear entre géneros, estilo, modos de mostrar e de contar, no que podia ser só mais um sitcom animado.

Não vou discutir se veio primeiro o ovo ou a galinha, mas este tipo de humor e construção tem aparecido cada vez mais na comédia televisiva, dos eternos Simpsons ao premiado 30 Rock, para já não falar do supra-sumo Robot Chicken.

Da imaginação deste mesmo senhor sai a série "Cavalcade of Cartoon Comedy", um conjunto de vídeos curtos para a Web, pouco mais que sketches ou anedotas, perfeitamente adaptadas ao meio em causa e com o mesmo registo das séries. Está um exemplo aqui ao lado.