Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Argumentos.

Interessa-me particularmente a escrita, no que ao cinema diz respeito, por todos os motivos e mais algum.

Dos nomeados para o Oscar de melhor argumento, suscita-me sinceras dúvidas o Wall-E. Sim, o filme é bom, mas a originalidade é quase toda visual e não me parece que seja da escrita que vem o valor da experiência envolvente que proporciona.

O contrário vale a pena dizer de "In Bruges" (na imagem) que, de um quase nada de história, desenha pela palavra um filme no "shithole" que é Bruges, quase uma jóia, com alguns dos melhores diálogos que passaram recentemente por uma sala de cinema. Os actores servem perfeitamente este brilhantismo e se houvesse um Oscar só para o diálogo, este estava garantido.

O "Slumdog Millionaire" é, por outro lado, um primor de construção, fazendo pleno uso do tempo e do espaço da Índia, do micro ao macrocosmos, com um aproveitamento inteligente de todos os mecanismos de envolvimento do espectador à sua disposição. É como se tudo na vida fosse, de facto, um concurso.

Já "O Curioso Caso de Benjamin Button" assume um tom narrativo que, se dispensarmos a originalidade da premissa do conto de F. Scott Fitzgerald, não é particularmente arrojado ou inovador. Está certamente mais bem servido de actores, de realização, de direcção de arte, do que de um argumento que seja particularmente penetrante.

Quanto ao "Milk" e ao "Frozen River", espero ter tempo este fim de semana para os ver e logo opino. Os outros a seu tempo.

Nomeados.

Os Oscares valem o que valem. São menos a celebração de uma arte e mais a celebração de uma indústria de entretenimento, mas... eu gosto muito de entretenimento. E por acaso até já vi dois dos filmes mais nomeados, "O Estranho Caso de Benjamin Button" e o "Slumdog Millionaire". Por muito que goste do Fincher e do seu fresco digital, continuo fã do Slumdog. A ver se vejo os outros...

Dev Patel do Slumdog Millionaire.

Quando vi o Skins, gostei muito. Sobretudo depois de conhecer o conservadorismo e colete de forças criativo geral que circula por aqui, da publicidade à televisão. Em Dezembro, quando passeava por Londres, algures pelo Trocadero, assisti de lado a um diálogo. O Dev Patel, um dos miúdos do Skins ia passeando pela rua e um grupo meteu-se com ele que devia ser milionário. Na altura nem me bateu, pensei que era só por causa da série. Mas não, o rapaz é a estrela do já premiado e muito esperado "Slumdog Millionaire". Olha uma entrevistazinha aqui ao lado.

Slumdog Millionaire

A data prevista para a estreia em Portugal é 19 de Fevereiro, mas cortesia da award season, já vi "Slumdog Millionaire" de Danny Boyle. Baseado no livro de contos "Q & A" de Vikas Swarup, o filme é um conto de fadas, uma história de amor, uma saga familiar, uma declaração política, bom... é um filme, antes de mais.

Eu nunca fui à India. Ler Salman Rushdie, Anita Desai, Kiran Desai, Arundhati Roy, Jhumpa Lahiri deu-me apenas um conhecimento infinitesimal do que é o sub-continente, a sua cultura e aquilo que, no filme é mais forte, o inundar dos sentidos.

Diz o autor do argumento, Simon Beaufoy, que a experiência da Índia o libertou para uma escrita operática, uma sensação do excesso, na minha opinião, perfeitamente adaptada ao estilo do realizador.

O cruzamento com uma referência pop global, como é o "Quem Quer Ser Mlionário?", a utilização da própria mecânica do concurso para fazer avançar a acção, a gestão dos tempos, dos afectos, das relações faz deste um filme quase perfeito.

Claro que não há filmes perfeitos e será fácil encontrar motivos para não gostar, para comparar, para encolher os ombros, para quase tudo, na verdade, mas fica aqui, como primeiro conselho cinematográfico do ano.

A banda sonora é também altamente aconselhável, com a participação de M.I.A. e número de dança à Bollywood a acabar e tudo.