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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

O sentido da vida.

Vou passar o ano fora de Lisboa e este é capaz de ser o meu último post com pés e cabeça antes de entrarmos em 2012.

Aproveito esta altura do ano que nos traz um ou outro momento de pausa, para ler alguns textos mais longos que, no frenesim diário da rede, me escaparam por entre os dedos nas teclas, por entre os olhos, quem sabe.

Aquele de que mais gostei, foi o commencement speech de Jonathan Franzen no Kenyon College, que o New York Times publicou em maio, com o sugestivo título "Liking is for cowards, go for what hurts". Franzen é um escritor brilhante e, embora tenha consciência do lugar em que a sua idade o coloca perante aqueles jovens, não hesita em dissecar o papel da tecnologia em geral e do nosso comportamento nas redes sociais em particular perante as nossas emoções mais fortes, o amor-próprio, o amor pelos outros. É única e fabulosa, a forma como ele aborda o tema e pega em ideias que me fazem também refletir de vez em quando, sobre a relação entre natureza e tecnologia, liberdade e necessidade, o papel do humano e das suas emoções. Vale a pena.

Franzen é citado num outro texto, da revista New York, da autoria de Paul Ford e com o título "Facebook and the Epiphanator: An End to Endings?" Aqui a abordagem é diferente e confronta o fluxo diário de informação que a Internet nos oferece com a lógica das histórias com princípio, meio e fim, aquilo de que eram feitos os meios mais tradicionais: livros, filmes, jornais, música. Será de facto que não precisamos de finais, de conclusões, de momentos de reconhecimento e sentido nesta espécie de fluxo de consciência permanente e absurdo que é a Internet?

Daqui salto para um texto que tem precisamente a ver com livros e sentidos, um relato na primeira pessoa de Nell Boeschenstein com um título assustador: "Now That Books Mean Nothing". É uma situação muito específica e uma reação muito particular, mas levou-me a reforçar a questão da importância das histórias, das conclusões, do sentido, no confronto com o verdadeiro fim de todas as nossas histórias. Costumo dizer, sobre qualquer narrativa, que o protagonista morre sempre no fim. (A imagem que ilustra este post é o quadro "Pink Book" de Emil  Robinson, que ilustra esse texto).

O que me leva a um outro texto, muito citado no ano da sua morte, mas pouco lido, com calma. O commencement speech de Steve Jobs na Universidade de Stanford, transcrito no respetivo site com o título "'You've got to find what you love,' Jobs says".

Todos juntos, estes textos, esta ideias, deixam-me a pensar sobre a questão do autor e dos autores, dos consumidores-produtores, do digital, do remix, das ferramentas para a criatividade, da inspiração e do génio, da qualidade e da mediania e, no fim de tudo, do sentido que a vida e aquilo que produzimos sobre ela nos podem ainda oferecer.

Agora vou ali rever o "The Meaning of Life" dos Monty Pyhon, festejar a passagem de ano, não me preocupar com estas coisas e para o ano logo vejo.

O bebé com a água do banho.

Foi tanta hoje a expressão mediática na Internet da morte de Steve Jobs que me chegou a incomodar. Sim, também eu, guilty as charged. A verdade é que o facto de estarmos num meio digital é capaz de ajudar a distorcer a percepção da realidade. E desconfio que nos próximos dias, semanas ou meses, vai haver gente a tentar enterrar a Apple com o seu criador. Aliás, a coisa já começou no dia anterior, com o lançamento do iPhone4S. Chama-se a isso "deitar fora o bebé com a água do banho".

Vamos lá a ver. A Apple é uma das mais ricas empresas do mundo. Conferir aqui. Criou alguns produtos tecnológicos fantásticos, tanto ao nível do hardware como do software. Teve outros tantos falhanços, que os sucessos se encarregaram de eclipsar. Teve um CEO que acompanhou os seus altos e baixos e a geriu com um fervor quase religioso, quase artístico e, com os sucessos, foi gerando formas diversas de cultos. Como todos os cultos, a irracionalidade foi uma componente importante, mas a irracionalidade é das ferramentas mais úteis para o marketing. Acho interessante o facto de parte importante das homenagens ao falecido serem anúncios, logotipos, ícones do culto. Veja-se a imagem que ilustra este post.

Em cima dos seus sucessos tecnológicos, a Apple tomou desde cedo a opção de construir ecossistemas tecnológicos fechados, em que dominasse completamente o hardware e o software. Nunca licenciou os seus produtos, nunca aderiu a formatos abertos, não seguiu o caminho da IBM, da Microsoft, do Google. Sempre preferiu ter menos quota de mercado, mas controlar totalmente a quota de mercado que tem. Não me lembro de outro exemplo assim, na história da tecnologia. Ajudem-me se houver. Em cima deste modelo, a Apple vendeu hardware, sobretudo isso. Mais. Inventou hardware. E com cada bocadinho novo de tecnologia, foi alargando o ecossistema, reforçando o ecossistema, abrindo a todos ou quase a possibilidade de lhe aceder e ganhar com ele, mantendo sempre o controlo. Esta é a história do sucesso do iPod, do iPhone, do iPad.

É verdade que esta capacidade de invenção e obsessão de controlo era personificada pelo senhor Jobs e mesmo com erros pelo caminho, não há dúvida que sabia o que estava a fazer, mas uma empresa não é um homem nem se enterra com ele. Parece-me a mim que o grande desafio da Apple é ser um bocadinho menos uma religião com um marketing assassino, para ser uma empresa um bocadinho mais como as outras. Sem perder o valor da sua diferença, dos seus trunfos. Um foi-se, ficam os outros.

Vai conseguir? A ver vamos...

Sobre Steve Jobs

Uso neste momento, o que é, para mim, o melhor computador que alguma vez tive. É um Apple MacBook Air. É leve, rápido, resistente e fácil de usar. Serve-me para tudo o que me apetece fazer. Como por exemplo escrever estas palavras. Não sou um Apple-fanboy nem nunca fui. A Apple é uma empresa elitista que tem como mercado alvo aproximadamente os 20% mais ricos do mundo. Assenta no princípio do consumismo de ecossistemas tecnológicos fechados com um design e uma funcionalidade mais aperfeiçoados do que qualquer concorrente. Além do computador, só tenho um iPod.

A Apple catalisou revoluções em várias indústrias: em primeiro lugar a das tecnologias da informação de uso doméstico, com o seu hardware elegante e o seu software intuitivo e fácil de usar; a da música, com a invenção do iPod que cristalizou o que era um movimento essencialmente ilegal, servido por má tecnologia e maus modelos de negócio; a dos jogos, transformando o casual playing num negócio mobile que gera biliões. Está agora em cima da mesa o mesmo tipo de revolução, complexo e de futuro incerto, para as indústrias da edição de livros e do audiovisual. A Apple está mais uma vez no olho deste furacão.

É verdade que hoje grande parte dos produtos da Apple se destinam ao consumo de entretenimento, mas continuo a acreditar que em parte do ADN da empresa continua a vontade de dar à criatividade das pessoas, ferramentas que lhes permitam expressar-se. Pelo menos aos tais 20% mais ricos. Acrescente-se que as plataformas de distribuição da Apple estão abertas a todos os que as quiserem usar para mostrar a sua criatividade. Sim, há muito hype, mas o princípio continua o mesmo: o utilizador é o conteúdo.

A Apple é o filho de Steve Jobs, é o resultado da sua curiosidade e imaginação sem limites, ele próprio o símbolo máximo de uma geração de inovadores nascidos na riqueza americana dos anos 50 e que lançaram e inspiraram a revolução digital em curso, a própria globalização que, por estes dias, revela o seu lado mais negro e terrível nos mercados financeiros completamente desmaterializados.

Quando não estava na Apple, Steve Jobs criou a Pixar, que até hoje não fez filmes maus, mesmo tendo feito uns melhores, outros menos bons. Mais uma vez, o crescimento e sucesso da Pixar provocou, entre outras coisas, um renascer global do mercado da animação. E se parte significativa da animação 3D que se faz hoje é aborrecida, disneyficada e visualmente uniforme, não acredito que formas de animação mais tradicional como a de Sylvain Chomet ou Nick Park tivessem tido a projecção que têm se a Pixar não tivesse aberto este mercado de maneira tão espectacular.

Sim, a morte de Steve Jobs perturba uma parte ínfima do mundo que temos, mas como com todos os ícones, tem um valor simbólico inegável. A influência das suas ideias, das suas invenções e criações está em todos os concorrentes da Apple. Acho sinceramente que a Microsoft, a Samsung, a HTC, a Sony e tantos outros lhe deviam prestar a homenagem que lhe devem.

Por mim agradeço-lhe este computador em que estou a fazer este post. Stay hungry, stay foolish.

Do aborrecimento.

Domingo à noite é talvez o momento ideal da semana para fazer um post sobre o aborrecimento, a chatice, o tédio. Em particular depois de um fim de semana excelente, de dias e noites plenos de sorriso. Com a noite a acentuar a inevitabilidade da segunda-feira (aquela coisa que o Garfield odeia), os sunday night blues batem com mais força.

É por isso a altura perfeita para falar de um textinho genial do Joseph Brodsky que está aqui. É um excerto de uma adaptação de um commencement address de uma universidade americana (Dartmouth) - pausa para aconselhar outros dois, um de Steve Jobs em Stanford e outro de Seth McFarlane em Harvard. Vão ver que vale a pena. Tudo isto me lembra também o "Into The Wild" e um poema de Sharon Olds, mas adiante.

Diz o genial senhor Brodsky: "you'll be bored with your work, your friends, your  spouses, your lovers, the view from your window, the furniture or wallpaper in your room, your thoughts, yourselves. Accordingly, you'll try to devise ways of escape. (...) you may take up changing your job, residence, company, country, climate; you may take up promiscuity, alcohol, travel, cooking lessons, drugs, psychoanalysis."

E mais adiante: "When hit by boredom , let yourself be crushed by it; submerge, hit  bottom. In general, with things unpleasant, the rule is: The sooner you hit bottom, the faster you surface."

Não me apetece dizer mais nada, depois de ler isto, mas também me lembrei de uma música, o "Rock Bottom Riser", de Smog, porque sempre achei que era uma música sobre isto, bater no fundo e voltar à superfície. É este vídeo aqui abaixo.