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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Narcisos.

Entre a minha exploração recente de autorretratos em fotografia (aqui ao lado "Germaine Krull - Selbstporträt mit Ikarette, 1925") e não só e a minha paixão confessa pelo Don Giovanni de Mozart, o tema do narcisismo tem-me interessado nos tempos mais recentes.

É normal que regresse ao mito, Eco e Narciso contados por Ovídio, mas mais ainda que isso, a versão / tradução de Ted Hughes, pejada de metáforas animais, mais mortal, mais urgente. E aí volto a descobrir a corrente profunda de alegoria homossexual que existe no mito. Citemos Hughes: "A strange new thirst, a craving, unfamiliar, / Entered his body with the water, / And entered his eyes / With the reflection in the limpid mirror."

Em que medida é o amor pelo mesmo sexo, um amor por si próprio? Provavelmente não interessa, mas vale sempre a pena voltar aos clássicos, à reinterpretação dos clássicos para divagar um pouco sobre este e outros temas e Narciso é particularmente rico, neste aspeto. Mais do que isso, gosto dos amores impossíveis de Eco e Narciso, cada um com a sua história, o seu pathos de beleza e tragédia. O que escrevo está cheio de amores impossíveis.

Aqui abaixo ficam, por ordem: Ted Hughes lendo o seu próprio "Echo and Narcissus", versão de Ovídio, em três partes separadas (que voz!). Depois, quatro imagens, visto que é sobretudo de imagens que Narciso trata. Dois quadros de "Eco e Narciso", primeiro por Nicolas Poussin, algures entre 1628 e 1630 e depois por John William Waterhouse, 1903; depois o "Pink Narcissus" de James Bidgood, a partir do delírio erótico-exótico-gay em filme de 1971; por fim um Narciso anónimo, a preto e branco, sobre um espelho, de autor desconhecido, vindo de um Tumblr qualquer da Net, talvez o mais narcisista de todos os meios de expressão que alguma vez usámos. Não podia também deixar de referenciar o Narciso perfeito de Caravaggio, mas esse já partilhei aqui antes.

 

 

 

 

Plath, Hughes, Rothko. Pais, filhos.

Espero que não se torne recorrente um post de Domingo a puxar mais para a depressão, mas tenho andado a pensar na notícia do suicídio do filho de Sylvia Plath e Ted Hughes, Nicholas Hughes. Os americanos arrumam a coisa no campo da doença (a depressão crónica), tal como já tinham feito com a mãe e a madrasta (que também se suicidou). A história não deixa contudo de ter ressonância poética, por ser filho de quem é.

O senhor ainda por cima, vivia no Alasca, lugar que mudou no meu imaginário desde que vi o "Into The Wild", uma história que também não acaba bem. (Sim, em tempos estraguei o final do filme a uns amigos.)

A propósito do suicídio de Nicholas, o legado de Sylvia Plath (aqui ao lado em foto de Rollie McKenna) voltou à baila, o seu valor não esmorece e aqui há uma discussão interessante sobre o tema, com participantes como Joyce Carol Oates e Erica Jong.

Outro suicida famoso que raramente me sai da cabeça é o Mark Rothko, que de vez em quando aparece neste blog. Rothko suicidou-se aos 66 anos (medo do que seria o final da sua vida?) e deixou dois filhos (ainda vivos e creio, felizes) a braços com uma terrível luta pelo seu património. Foi notícia antes de eu nascer.