Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Tive uma ideia perigosa...

 

Nem sequer foi uma ideia nova, é a mesma ideia que ando a ter há anos, sob variadíssimas formas. Já teve várias manifestações teóricas e práticas no meu trabalho, mas a última delas, foi parar ao livro "Ideias Perigosas Para Portugal - Propostas Que Se Arriscam A Salvar O País". O subtítulo parece-me pecar por excesso de ambição, mas acontece por vezes, com as frases que vão parar a capas. A coordenação foi do João Caraça e do Gustavo Cardoso, que tiveram a amabilidade de me convidar para contribuir.

 

No livro a ideia que apresentei assumiu um título diferente, mas o texto era o que está abaixo. Ontem, no P2 do Público, li um título que dizia "A Escola Mata a Criatividade". Como não podia discordar mais e como a minha experiência está distante de ser essa, achei que hoje era o dia para passar das palavras aos actos e publicar a minha ideia perigosa na Internet. Ei-la aqui abaixo:

Transformar as Escolas Em Media

Publicidade e Televisão.

David Simon (aqui ao lado) tem como crédito principal da sua carreira ser autor daquela que alguns consideram ser a melhor série de televisão de sempre, "The Wire". Numa recente participação num painel no Festival de Televisão de Edinburgo, Simon defendeu que a publicidade matava a televisão ou para ser mais exacto, a capacidade da televisão para contar histórias.

A argumentação faz sentido: a publicidade procura o maior número de espectadores possível, logo o menor denominador comum, tornando-se avessa ao risco; a publicidade quebra o ritmo de qualquer história periodicamente (de 13 em 13 ou de 20 em 20 minutos) impedindo um consistente desenvolvimento narrativo; a publicidade quer é vender os seus produtos e não lhe interessa verdadeiramente a natureza e desenvolvimento do conteúdo a que está associada.

Simon está numa posição extremamente confortável, tem como seu veículo a HBO, um canal de cabo premium que lhe permite (a ele e a outros, como Alan Ball) contar as suas histórias em episódios ininterruptos de 58 minutos. É esta diferença fundamental que levou ao surgimento, neste e noutros canais, de algumas das grandes narrativas televisivas dos últimos anos, como "Os Sopranos", "The Wire - A Escuta", "Six Feet Under - Sete Palmos de Terra", "Angels in America - Anjos na América", mas também algum do melhor entretenimento puro, como "Dexter", "Mad Men" ou "True Blood".

E em Portugal? (pausa para suspiro).

Em Portugal, TODOS os canais têm publicidade, a maior quantidade que conseguirem. Mesmo os canais premium mais caros, os canais Sport TV, têm MUITA publicidade. Nos canais generalistas, a situação é ainda pior. Não há praticamente investimento de fundo em ficção chamada "de stock", que fique, que tenha valor para além do primeiro visionamento. Há concursos, entretenimento em directo, ficção "de fluxo" do tipo telenovela, tudo com muita publicidade e o mais que se conseguir para pagar orçamentos espremidos ao máximo.

A presença de soluções de "soft sponsoring" e "product placement" leva isto mais longe e condiciona o próprio conteúdo entre intervalos, o que resta da ficção, a enquadrar-se nos objectivos e estratégias de comunicação dos patrocinadore.

E isto não é verdade apenas nos canais comerciais, mas também no serviço público de televisão. O risco é mínimo e arrumado num ou noutro projecto por ano, maltratado nos horários de programação, ignorado pelas audiências.

Quando é que alguém vai perceber que, daqui a uns anos, quando alguém quiser ir aos arquivos de televisão portuguesa (os que existirem), vai achar que o país era alguma coisa entre os "Morangos com Açúcar" e o "TGV", por falta de investimento em escrita, criatividade e produção em televisão?

Lisbeth Salander, a "cyberpunk".

Livre que estou do encantamento dos dois primeiros livros da triologia Millennium e enquanto o terceiro não me vem atazanar o juízo - parece que vai ser editado em Portugal no princípio de Julho com o nome "A Rainha no Palácio das Correntes de Ar" - vou dedicar-me a uma pilha de outros volumes que estiveram em espera enquanto eu devorava as mil e duzentas páginas do sueco.

Vale a pena espreitar as coisas que o José Mário Silva já disse sobre o assunto, até por serem interessantes, mas sobre a personagem que vai emergindo como principal nesta saga inacabada, Lisbeth Salander, apetecia-me acrescentar uns comentários.

Se é óbvio que o tal Mikael Blomkvist é um alter-ego do próprio Larsson, Salander parece mais peixe fora de água em romances policiais, a não ser que lhe apliquemos categorias que vêm mais de um nicho da ficção científica, como "cyberpunk".

Na Slashdot (obviamente), Lawrence Persson diz "Classic cyberpunk characters were marginalized, alienated loners who lived on the edge of society in generally dystopic futures where daily life was impacted by rapid technological change, an ubiquitous datsphere of computerized information, and invasive modification of the human body."

A descrição cola perfeitamente à senhora Salander, dez reis de gente com piercings, tatuagens, uma prodigiosa capacidade de invadir os computadores alheios onde encontra quase toda a informação que procura. Solitária, alienada e vivendo na margem da sociedade? Leiam os livros...

Salander é assim uma heroína da mesma ordem do Case do "Neuromancer" do Gibson e não vejo por que não se lhe possam aplicar as considerações que teci aqui, a propósito desse dito arquétipo de personagem. Note-se aliás que o próprio Gibson foi deslocando as suas histórias mais recentes de um hipotético futuro para um hiper-real presente.

Larsson acaba por nos propor, nas suas histórias, dois caminhos de investigação e desconstrução do sistema, o tradicional jornalístico e o "cyberpunk", e o que me parece interessante é que se deduza do resultado que um não pode sobreviver sem o outro, cada um com a sua ética e prática.

Teoria.

Num acesso de nostalgia, decidi publicar no Scribd, um conjunto de textos teóricos de minha autoria, todos com mais de dez anos de idade. Os documentos estão datados e se calhar o conteúdo também.

Perdoem-me o regresso ao passado, mas na altura eu andava na faculdade e davam-se os primeiros passos nos estudos de comunicação e culturais sobre esta coisa que agora é omnipresente em algumas vidas, cada vez mais, as tecnologias da informação e comunicação.

Os textos em causa são:

  • Um Ponto Zero - sobre a Geração Y e a sua relação participante com a revolução digital.
  • O Utilizador é o Conteúdo - sobre Internet, novas tecnologias e a revolução digital. Se o meio é a mensagem, o utilizador é o conteúdo.
  • O Lugar de Hamlet - para uma cadeira de mestrado sobre narrativas e argumentos interactivos.
  • Estranhos Anjos - sobre a relação entre o corpo e as tecnologias nos limites da arte performativa, interrogando o humano.
  • A Inquietude Dinâmica - sobre a relação entre "O Trabalhador" de Ernst Junger e "Neuromancer" de William Gibson. Ou sobre a hipótese de uma ética heróica do ciberspaço.

Stop, pause. We're in record.

A frase que dá título a este post provém da que é provavelmente a minha canção favorita de Laurie Anderson (o que já é dizer muito), "Same Time Tomorrow". É uma música e uma letra que me atormentam ao longo dos anos. Atormentam no bom sentido.

Lembrei-me dela depois de me pôr a pensar no aborrecimento do Brodsky, da maneira como ele fala da natureza essencialmente repetitiva e entediante do próprio tempo.

Não muito tempo depois apareceu-me à frente este texto do Brian Eno, que vai divagando sobre coisas semelhantes, a importância da lentidão e da paciência, temas que entraram também de alguma forma na minha vida em tempos recentes. O próprio texto é de 2001. Curioso nestes dias em que o twitter de há dez minutos já está ultrapassado.

Diz o Eno: "‘Now’ is never just a moment. The Long Now is the recognition that the precise moment you’re in grows out of the past and is a seed for the future. The longer your sense of Now, the more past and future it includes. It’s ironic that, at a time when humankind is at a peak of its technical powers, able to create huge global changes that will echo down the centuries, most of our social systems seem geared to increasingly short nows."

Eu sei que o senhor Eno estava mais a pedir-nos para sermos responsáveis e termos perspectiva sobre o passado e o futuro, mas eu sempre disse "quando for grande, quero ser irresponsável". Gosto só da ideia de um imenso aqui e agora.

Dito isto, apetece-me passar umas horas na cama, na ronha, a apreciar a sonolência e o calor do edredon.

E enquanto escrevo estas palavras, ouço a Billie Holliday a cantar "Darn That Dream". Não é engraçado quando tudo se encaixa?

Da experiência cinematográfica.

Fui educado no respeito da sala de cinema. Depois do tempo do cinema como festa (contam-me), sou do tempo do cinema como ritual de silêncio, escuridão e respeito. Lembro-me de ler nos "Esteiros" da grande festa, mas sempre gostei da experiência de imersão, de anulação do mundo em redor no escuro e no silêncio.

É claro que sou também do tempo das pipocas, do VHS, do DVD, do Blu-Ray, dos telemóveis, do tempo em que grande parte do público do cinema acabou por achar que não era diferente a sala do multiplex da sala de estar lá de casa, com interrupções, conversa, tudo um pouco.

A tudo o cinema tem sobrevivido: à televisão, ao vídeo caseiro, aos públicos barulhentos, à pirataria. Sou daqueles que acredita que o bom cinema hipnotiza, seja onde for que o vemos. O que quer dizer que também o podemos ver em casa.

Noutro dia em conversa com o Leonel Vieira, comentava como a maior parte das salas de cinema de Lisboa têm má qualidade de projecção, lâmpada cansada, mal enquadrada, desfocada, como uma experiência de cinema em alta definição em casa conseguia ser muito melhor do que isso.

É claro que já há também salas com projecção digital, com projecção cuidada e aí a diferença é significativa e a experiência volta a valer a pena.

Tudo isto para dizer que se é verdade que o lado tecnológico do cinema faz uma dança nem sempre fácil com o lado artístico e o lado de entretenimento, algures no meio continua a surgir uma experiência inesquecível e que não me deixa de fascinar vezes sem conta.

Um mundo de ecrãs.

A New York Times Magazine costuma no outono publicar um número dedicado ao mundo do cinema e em particular Hollywood, aquilo que para os americanos é, quase na totalidade, o cinema. Este ano, contudo, foram um pouco mais longe e encontraram como lema mais amplo "how we watch stuff", afirmando que, para além do cinema, a nossa vida diária se encontra invadida de um sem número de ecrãs.

Mesmo sem olhar para o boneco do lado, tenho essa perfeita noção e afirmo-me consumidor de cada um dos níveis aqui apontados. No meu caso e também por deformação profissional, o online saltaria para primeiro lugar. Curioso num gráfico do NYT que não apareçam jornais. Estarão incluídos nas revistas?

Seja como for, a revista está cheia de artigos interessantes: um texto de A.O. Scott sobre a forma como o cinema mais uma vez está pressionado para evoluir como tecnologia e contexto social; uma entrevista a David Lynch feita por Deborah Solomon, um pouco surrealista como seria de esperar; uma investigação sobre a evolução do formato da sitcom; um fabuloso vídeo que resume perfeitamente a relação das crianças com os videojogos, a partir do trabalho do fotógrafo Robbie Cooper (vale a pena ver as fotos deles também); uma investigação sobre o prémio que o Netflix oferece para melhorar o seu algoritsmo de sugestões; por fim, uma conversa de fundo sobre a evolução do negócio publicitário e perspectivas futuras.

Alguns artigos exigem que se seja utilizador registado, mas o registo é grátis, por isso não hesitem.

É imensa food for thought e aconselho vivamente a quem queira perder algum tempo a pensar no assunto.

Por mim, faço assumidamente parte deste novo fluxo de imagens, do silêncio obscurecido e ritual da sala de cinema à alta definição de um LCD, ao ecrã de um computador e de um telemóvel, com maior ou menor interactividade e, cada vez mais, do lado de cá e de lá dos vários ecrãs.

Da duração dos vídeos online.

Um mantra repetido infindavelmente por quem trabalha no negócio da Internet é de que as pessoas dedicam cada vez menos tempo a cada pedacinho de conteúdo, a cada esforço de horas, meses ou anos por parte de quem o produz. Se isto é verdade em geral, para o vídeo pareceu tornar-se dogma desde que o You Tube instituiu a "snack culture" como standard do consumo audiovisual na web.

Debaixo desde dogma surgiu toda uma cultura viral do sketch e do clip, que favoreceu coisas como o Saturday Night Live, Daily Show, Happy Tree Friends, Gato Fedorento, Contemporâneos, Bruno Aleixo, etc. etc. Além da curta duração, qual é o elemento comum? Comédia. São quase "anedotas".

A estes somem-se os videoclips de música, os trailers de filmes e jogos, as melhores jogadas, golos, pontos em desporto, gaffes, apanhados e parvoíces e mesmo antes de começarmos a falar da cultura 2.0 já temos milhões de vídeos para ver.

No caso do "User Generated Content" a coisa acentua-se. Quantos utilizadores têm meios, paciência ou imaginação para produzir um vídeo que ultrapasse os cinco minutos? A pilha de clips de pequena duração continua a crescer.

É claro que o sucesso deste universo com uma duração não superior a cinco minutos por unidade gerou um efeito de imitação na indústria, quer exclusivamente online quer, em certa medida, também na televisão. A SIC Radical passa snacks e um pouco por todo o lado na Web começaram a surgir webisódios e outros formatos de séries respeitando sempre a duração curta como dogma. Em Portugal tivemos o T2 para 3, que parte agora para uma segunda temporada obedecendo a todas as premissas acima descritas.

No SAPO, contudo, o pessoal não anda distraído e a segunda série faz um movimento no sentido da televisão, em parceria com a RTP, em compactos de 25 minutos. Mais que isso, está já em rodagem outra co-produção, o "Dez", que embora seja apresentado online em forma de folhetim, tem já episódios de maior duração (dez minutos) e constrói no final um filme ou mini-série de 100 minutos.

E era aqui que eu queria chegar. Vários sinais na indústria e na tecnologia parecem apontar para uma diversificação dos formatos online e para o crescimento da duração dos vídeos que as pessoas estão dispostas a consumir na Internet. Aparentemente e como é habitual, não era um problema de falta de paciência do espectador, era um problema de limitação tecnológica (largura de banda entre outras), de apresentação e interface e de capacidade de produzir e rentabilizar conteúdos.

O New York Times fala disso neste post do blog Bits. São apenas alguns sinais, mas ainda mais interessante é o sucesso crescente do projecto Hulu, onde o conteúdo dominante são séries de televisão, crescentemente filmes, mas numa lógica de plataforma com um site agregador fornecendo os parceiros nos seus próprios contextos de interacção.

Mais ainda, nos últimos anos as séries de televisão tradicionais investiram no sentido contrário da Web, criando arcos narrativos que percorrem temporadas inteiras, se deleitam na complexidade e densidade dramática. Alguém chegou mesmo a dizer que as séries de televisão estavam a substituir o cinema como fonte desse entretenimento mais longo, mais lento, mais profundo.

Em que ponto um e outro movimento se vão encontrar? Em que ponto uma cultura participativa, que tem "toda a cultura do mundo" disponível nas pontas dos dedos se vai encontrar com o auge da narrativa audiovisual, que não se importa de levar o tempo necessário a construir-se, a desenvolver-se, a enriquecer-se?

Não sei, mas quero lá estar.

O Futuro do Desporto na Televisão

Nos Estados Unidos, pelo menos três grandes desportos partilham a atenção do público: em primeiro lugar o Futebol Americano claro, o Basebol e o Basquetebol. Mesmo os desportos que geram menos audiências televisivas como o Ténis, o Hóquei em Gelo ou os desportos motorizados são super-produções para alguma das "major networks" ou para um dos múltiplos canais de cabo temáticos, onde lidera claramente o ESPN da Disney.

Em Portugal, há Futebol e o resto é, na maior parte dos casos, paisagem. Os Morangos Com Açúcar tentaram promover o Andebol, ciclicamente alguém tenta elevar o nível de espectáculo no Basquetebol, e no Atletismo, com altos e baixos e muita demagogia, vai havendo medalhas. Em termos de televisão, sejamos honestos, é o futebol que interessa. E isso, em Portugal, quer dizer que, na sua maior parte, é a Sport TV que interessa e é o Benfica que interessa.

O Benfica pode não ter ganho nada recentemente, mas vai enchendo os cofres à custa dos duelos no panorama do audiovisual: Benfica TV no MEO, a transmitir jogos em exclusivo mesmo antes de ter uma emissão completa; jogos comprados à peça pela Zon para não ficar atrás na discussão.

A Sport TV foi o primeiro canal português a emitir em HD, não só por justificar o investimento nos jogos dos três grandes, mas também por já ter conteúdo internacional nesse formato, nomeadamente da Premier League inglesa.

A Sportinvest Multimédia é quem, dentro do grupo que detém os direitos do futebol da Liga Portuguesa, os explora na Internet e em conjunto com o SAPO tem feito algum trabalho para criar uma alternativa válida à pirataria, combatendo-a simultaneamente no You Tube, por exemplo. Hoje é possível encontrar vídeos oficiais de golos no SAPO Vídeos, na Infordesporto, no site de O Jogo, da Sport TV e nos sites dos três grandes, que me lembre.

O futuro, contudo, não pára de chegar, como é próprio dele e a Slate dá alguns exemplos neste excelente artigo. Lembro-me que era um mercado em que a YDreams por exemplo andava a investir e, haja plataformas, largura de banda e audiência, poderá ser um sucesso garantido em Portugal.

O futebol é transversal como fenómeno e se as recentes transmissões online de jogos do Benfica no SAPO provaram alguma coisa é que a audiência é maior do que a capacidade da rede para a servir. Venham os próximos passos.