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luís soares

Blog do escritor Luís Soares

Confucius and the Madman

From Tiago Sousa's Bandcamp:

I find the concert to be a central moment in musical practice. I understand it as the only moment of truth regarding music. The entertainment industry imposes upon it normalization, flattening and simulation. It is the fiction and the separation which hold that simulation in place. In it we’re all playing and acting – the artists play off their personalities, all eccentric to a degree, and the audience plays off its voyeur role. This evidence is so strong that it becomes increasingly difficult to find moments of authenticity. Industry fears these moments so much that concerts have ceased to be this moment of truth to have become nothing but hullabaloo. The appreciation of this hullabaloo tends to be either alienating or merely technical. So, when I decided to release Samsara, the image of a lone piano on stage, given to the frailty of fingers that long to spread themselves over the piano keys as much as they long to see life and the world, presented itself to me not only as metaphor but also as reflection. The act of presenting ourselves this naked has become so rare that it can seem radical and new. An unforeseen, unforeseeable and adventurous moment. That is the path I search for with my concerts. They’ve ceased to be performances to have become life. Life that crosses paths with the everyday moments and takes part as much on a stage as it does in a living room.

Katsushika Hokusai.

Cheguei a este post pela capa do novo álbum a solo no piano do Tiago Sousa, Samsara de seu nome, que recomendo vivamente. É a primeira imagem (o teto do templo Ganshoin em Obuse). As outras duas são também de Katsushika Hokusai, artista japonês do século XIX - uma onda com o Monte Fuji ao fundo e o próprio do monte numa madrugada límpida, da série 36 Vistas do Monte Fuji.

Recomendações para um bom fim-de-semana.

Podem começar por ir ver as fotos do sueco Anders Petersen ao site dele. A que está aqui ao lado (da série Café Lehmitz) foi usada na capa do "Rain Dogs" do Tom Waits, o que só pode evidentemente ser uma coisa boa, digo eu enquanto o ouço cantar "One From The Heart" com a Crystal Gayle, da banda sonora do filme do mesmo nome. O realizador desse filme é Francis Ford Coppola e o filme levou-o à ruína, o que não implica que ele não tenha recuperado, basta ir ao cinema ver o excelente "Tetro".

Pelas 23h, na Galeria Zé dos Bois, ali no bairro alto, há o concerto de lançamento do novíssimo "Insónia" do Tiago Sousa, músico português que vale a pena ouvir. O Tiago tocou, há uns anos, no lançamento do "Em Silêncio, Amor", que continua a ter algumas das melhores páginas que já escrevi, em parte como música. Note-se que o personagem principal se chama Thomas Wartet, que é alemão para Tom Waits. Ah, como isto está tudo ligado...

Aqui mesmo abaixo, um vídeo da bodyspace para a faixa "Movimento", desse álbum:



Vou tentar lá estar, mas antes, pelas 19h, dou um salto à Gulbenkian para ouvir o Coro e Orquestra respectivos com o maestro Thomas Hengelbrock. O programa é uma espécie de "Greatest Hits" do barroco, com Telemann, a "Water Music" de Händel e o "Magnificat" de Bach. Bom para o Natal que aí vem a passos largos.

Se nada disto vos comover ou o frio ou a chuva vos assustar, podem sempre ir jogar um bocadinho de "Continuity". Há muito tempo que não descobria assim um joguinho Flash, simples mas ao mesmo tempo viciante. É feito por uns miúdos suecos, a mesma nacionalidade do Anders de que eu falava no princípio do post. Ah, isto andar tudo ligado tem graça...

Bom fim-de-semana!

Sábado, depois do lançamento, pelas 23h na ZDB

Rafael Toral (PT) | Oliver Hill + Harry Astras (UK/GR)| Julianna Barwick (US)| Tiago Sousa (PT)
Noite Inversion na ZDB, em colaboração com a artista francesa Sandra Reignoux.

Rafael Toral Apresenta Space Study 1.4.

Estreia em trio da nova versão de Space Study 1.4., parte integrante do projecto Space Program de Rafael Toral sobre a perfomance em instrumentos electrónicos. Central em toda a actividade de concertos do Space Program, Space Studies é uma série de peças com uma estrutura formal aberta e em que são aplicados modos de escuta a uma articulação em tempo real de silêncio e som. Com uma sensibilidade jazz como ponto de partida e uma matriz disciplinada de possibilidades de decisão, Rafael Toral tem ensaiado uma abordagem à música centrada num impulso universal para a produção de som, pré-histórico, pré-estético e consciente de que a música e a linguagem terão uma raiz comum.

Formação:

Rute Praça – violoncelo
César Burago – percussão
Rafael Toral - ondas sinusoidais com luvas de controlo

Rute Praça é uma violoncelista com formação clássica, tendo colaborado com Rhys Chatham, Sei Miguel e Vítor Rua, entre outros. Após um longo período de pesquisa, consegue uma abordagem totalmente renovada ao instrumento e ao som, ultrapassando definitivamente a sua antiga formação.

César Burago Percussionista angolano, dedica-se inteiramente às músicas do jazz, pois vê nelas o espírito e a técnica indissociáveis. Presença regular nas orquestrações de Sei Miguel, tem dimensionado com o trompetista, desde 1997, um plano de possibilidades e impossibilidades métricas, ambas expressas em trabalhos onde a percussão (principalmente a pequena percussão) ganha um enigmático valor melódico.

A partir de textos dos artistas:

Oliver Hill + Harry Astras
Oliver Hill (do duo noiseTerminal Outputs) e Harry Astras (dos Family Battle Snake, colectivo free-form de composição variável que, para além de Astras, conta com Bill Kouligas e Valerio Cosi como principais agitadores) apresentam pela primeira vez em Portugal as densas ambiências sónicas resultantes de uma colaboração instintiva, desorbitada, povoada de referências míticas numa escala interestelar.

Julianna Barwick
Ainda ninguém conhece a norte-americana Julianna Barwick, mas isso vai começar a mudar muito rapidamente. Ao mesmo tempo próxima dos sonhos ácidos dos Animal Collective e das ondas de som dos My Bloody Valentine, a sua música revela um primitivismo sensorial desarmante, envolvido numa vertigem de loops vocais. Disponibilizou recentemente em edição de autor o seu primeiro album, “Sanguinaire”.

Tiago Sousa
Primeira actuação de Tiago Sousa em nome próprio na ZDB. A solo, as composições para piano do músico barreirense, que também integra os colectivos Goodbye Toulouse e Jesus, the Misunderstood, são por vezes reminiscentes da peça minimalista de Robert Wyatt para o seminal “Music For Airports” de Brian Eno. Neste âmbito, lançou "Crepúsculo", em 2006, e, já este ano, "Noite/Nuit" (em parceira com a artista francesa SRX), ambos através da editora independente Merzbau, pela qual é responsável.

Entrada: 7,5€

Tiago Sousa e a Merzbau

Merzbau era uma obra algures no espaço que surge entre a arquitectura, escultura e pintura, do artista alemão Kurt Schwitters. Em permanente evolução e elaborada em performance colaborativa, não só por Schwitters, mas por alguns amigos seus, a Merzbau foi iniciada e re-iniciada pelo menos três vezes, sendo, pela sua natureza, uma obra de história permanente. Basta dizer que uma das versões foi destruída num bombardeamento aéreo a Hannover durante a Segunda Guerra Mundial e outra foi consumida pelo fogo na Noruega.

Não é meu objectivo, contudo, dissertar sobre este projecto artístico, tão simbólico das ambições da arte no Séc. XX, reflectindo sobre a sua própria natureza e tentando desconstruir-se e reconstruir-se nos limites do espaço e tempo do humano. Queria era chamar a atenção para um projecto que pediu emprestado o nome Merzbau para se etiquetar.

A Merzbau é uma netlabel que nasceu como netzine, propondo-se abordar universos alternativos (porque online) do universo musical e propondo também modelos de negócio mais próximos da revolução online do que da indústria de edição de música, tal como a conheciamos até aqui há uns anos. É fruto sobretudo da vontade de Tiago Sousa e tem chamado a atenção de imprensa e majors.

Perdoem-me o voltar ao mesmo, mas gostava de chamar a atenção para a música do próprio Tiago Sousa, em piano e não só, experimental no limite do silêncio, em ambientes que, desde que o descobri, me invocam o apartamento (quase) vazio dos Wartet e aquele Outono da história de Tom e das Três Bruxas. A música de Tiago Sousa está disponível sob uma licença Creative Commons no site da Merzbau e pode ouvir-se igualmente no seu perfil no MySpace.

Aqui mesmo ao lado, têm em vídeo um exemplo mais, agora ao vivo. Até porque acredito sinceramente que é ao vivo que o amor dos músicos à sua música e aos seus instrumentos mais se materializa. Mas mais sobre isso noutro dia.